A credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF) foi afetada em meio a uma crise sem precedentes na Corte e 56% da população dizem não confiar na instituição, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (14). Em um mês, a desconfiança dos entrevistados com o STF aumentou dez pontos percentuais, após a divulgação do conflito entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Leia mais: Dos entrevistados, 56% afirmam não confiar no STF, 30% dizem que confiam pouco na Corte e apenas 9% confiam muito no Supremo. Na rodada anterior da pesquisa, de agosto, 46% disseram não confiar no STF, 33% confiavam pouco e 18% confiavam muito.
A pesquisa, contratada pela Globo e pelo jornal O Globo, tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A desconfiança com o STF aumentou em todas as faixas do eleitorado. Entre os “independentes”, descolados do lulismo e do bolsonarismo, 65% dizem não confiar na Corte, percentual maior do que os 50% registrados em agosto.
No recorte dos lulistas, 30% não confiam no STF (eram 27% na rodada anterior). Aqueles que confiam muito na Corte são 23%, uma queda em relação aos 41% de agosto. Entre os bolsonaristas, 69% afirmam "não confiar" na Corte (eram 73% há um mês).
A Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-03607/2026. A crise no Supremo Tribunal Federal eclodiu no início do mês, no dia 1, com a divulgação de mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, sugerindo proximidade dele com o ministro Alexandre de Moraes. O ministro André Mendonça derrubou o sigilo e liberou para julgamento em plenário o relatório da Polícia Federal (PF) com mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro. A decisão de Mendonça colocou sob suspeita procedimentos adotados pelo ministro, que é relator do caso, e dividiu os integrantes da Suprema Corte. O confronto ganhou uma dimensão institucional depois que Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a investigação de Mendonça por improbidade administrativa, abuso de autoridade e crimes de responsabilidade após a divulgação das mensagens capturadas no celular de Vorcaro. A solicitação de Moraes foi feita no inquérito das fake news, relatado pelo próprio ministro, sob a justificativa de que Mendonça teria quebrado a imparcialidade judicial e favorecido grupos políticos como relator das investigações sobre o Banco Master.
O presidente do STF interveio no dia 4, retirou o pedido desse inquérito e cobrou explicações dos envolvidos.
A crise atingiu o governo federal quando Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da corporação, Leandro Almada da Costa. Em sua decisão, Mendonça disse que o chefe da PF o monitorava de forma ilegal há pelo menos um mês e afirmou que há “irregularidades e potenciais ilicitudes” nos relatórios que foram usados por Moraes para pedir a sua investigação. O magistrado citou ainda como um dos motivos de sua decisão o uso de um relatório da PF na ação em que Moraes pede que ele seja investigado pelo STF. O ministro Flávio Dino, no entanto, determinou a reintegração de Andrei ao comando da PF. Em meio à crise, o presidente do STF determinou a remessa à Presidência da Corte dos processos relacionados às investigações sobre as fraudes do INSS e do Banco Master.
Nesta terça-feira (15), o STF realizará uma sessão extraordinária, que deve ser um dos momentos mais decisivos da crise institucional na Corte. Os ministros vão analisar o relatório da PF que reuniu as mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Moraes. É a primeira vez que o plenário analisará um relatório da Polícia Federal que levanta suspeitas envolvendo um integrante da própria Corte.
Valor