Putin recebe 22 líderes africanos com fertilizantes na pauta, e o Brasil, grande comprador de adubo russo, observa o estreito de Ormuz

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Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

A cúpula Rússia-África põe fertilizantes na pauta, e o Brasil, que importa 85% do que usa, vê a ureia disparar com a guerra no Irã e depende de russos e do estreito de Ormuz. Enquanto o plantio da safra 2026/27 avança no Centro-Sul, o produtor brasileiro de soja e milho olha para dois mapas.

Um é o de Moscou, onde Vladimir Putin recebe a África desde quarta-feira (28). O outro é o do estreito de Ormuz, fechado ou aberto conforme o humor de Teerã e de Washington.

Nos dois, o Brasil é passageiro, não condutor. A terceira cúpula Rússia-África acontece em 28 e 29 de outubro.

O Kremlin diz que 48 dos 54 países confirmaram presença, 22 deles com chefes de Estado ou de governo. Putin e o presidente da União Africana, Évariste Ndayishimiye (Burundi), copresidem a plenária de hoje.

O assessor Yuri Ushakov prevê dezenas de reuniões bilaterais e 33 acordos, e citou alimentos, recursos, fertilizantes e tecnologia como temas centrais. O gesto tem um objetivo claro: mostrar que Moscou não está isolada.

Mas os resultados concretos das cúpulas anteriores foram modestos. Em 2019, a Rússia prometeu dobrar o comércio com a África em cinco anos, e em 2023 ele estava parado em cerca de US$ 18 bilhões, segundo reportagem da Al Jazeera na época.

Os líderes africanos também sabem jogar. O presidente de Gana, John Mahama, que está em Moscou, disse que pretende tentar convencer Putin a um cessar-fogo na Ucrânia e defendeu que as parcerias devem render investimento e retorno justo, e não alinhamento com potências.

Fertilizante é instrumento de política externa. Em 2023, Putin prometeu grãos gratuitos a seis países africanos.

Hoje, com a guerra no Golfo, o adubo tem ainda mais valor como moeda de influência. A guerra com o Irã completa oito meses.

O Brent está em torno de US$ 115, contra cerca de US$ 72 antes do conflito. Nesta semana, o chefe das Forças Armadas iraniano declarou o estreito fechado a navios que não sigam as regras de Teerã, enquanto Trump diz ter controle total da passagem.

Os dados de tráfego divergem, e a negociação mediada por Arábia Saudita, Turquia e Paquistão segue aberta. Para os fertilizantes, o estreito importa muito.

Cerca de um terço do comércio global desses insumos passa por ele, e o Oriente Médio responde por perto de 40% das exportações de ureia. O Brasil importa 100% da ureia que consome, e cerca de 41% dessas importações passaram por Ormuz em 2025, segundo a consultoria Agrinvest.

A ureia chegou a subir mais de 60% nos portos brasileiros desde fevereiro, e o Ministério da Agricultura chegou a apontar risco de déficit de 1 a 3 milhões de toneladas de fosfatados em 2026. Em 2025, o Brasil importou 43,3 milhões de toneladas de fertilizantes e produziu 7,2 milhões.

A dependência de 85% é estrutural, mas é também uma escolha política mantida por sucessivos governos, inclusive o atual. A Rússia é a principal fornecedora, com 25,9% das importações em 2025, segundo o MDIC.

Na primavera, Rússia e China restringiram exportações para priorizar o mercado interno, e mesmo a “parceria estratégica” que Lula reafirmou a Putin em janeiro de 2025 não deu ao produtor brasileiro prioridade. O Plano Nacional de Fertilizantes foi lançado em 2022, no governo Bolsonaro, com a meta de reduzir a dependência de 85% para 45% a 50% até 2050.

O governo Lula o adotou, mas a Gazeta do Povo mostrou que o país continua refém das importações. A UFN-III, em Três Lagoas (MS), foi lançada em 2008, no segundo governo Lula, e só deve operar em 2029, ou seja, 21 anos depois, já no próximo mandato.

O governo tem o que comemorar. A Petrobras retomou as Fafens da Bahia e de Sergipe entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 e reativou a Ansa, em Araucária (PR), em 30 de abril, depois de seis anos parada, com R$ 870 milhões de investimento.

É mérito, mas pequeno diante do problema: com as três fábricas, a Petrobras deve chegar a cerca de 20% do mercado de ureia, e a Ansa responde por cerca de 8%. Os outros 80% continuam vindo de fora.

E levou três anos e meio de mandato, e uma guerra, para a Petrobras voltar a produzir. Lula esteve em Moscou em maio de 2025, ao lado de Putin, no desfile do Dia da Vitória, e fez do BRICS, que o Brasil presidiu naquele ano, a vitrine de sua política externa.

O bloco reúne Rússia e Irã, dois protagonistas desta crise de fertilizantes. A pergunta incômoda é o que esse alinhamento entrega ao produtor brasileiro em segurança de suprimento.

Até aqui, o Brasil comprou do Irã US$ 72 milhões em fertilizantes em 2025 e, quando a guerra começou, o Itamaraty condenou o ataque americano e israelense, ao mesmo tempo que também lamentou os ataques iranianos ao Golfo. Pareceu equilibrado, mas não deu ao Brasil nenhuma proteção.

Adubo é cotado em dólar. Na segunda-feira, depois da reeleição, o dólar chegou a R$ 5,60, alta de 12% na abertura, e o juro futuro disparou.

Com a Selic em 13,75%, o crédito de custeio fica mais caro. O produtor paga duas vezes: pelo adubo, que subiu, e pela moeda, que desvalorizou.

Há medidas conhecidas: diversificar origens de potássio e fosfato (Canadá e Marrocos, por exemplo), acelerar projetos nacionais de potássio e fosfato, usar o gás do pré-sal para a ureia, formar estoques estratégicos e atender ao pedido da CNA de isentar o AFRMM, a taxa sobre o frete marítimo que encarece a importação.

Nada disso depende de Moscou ou de Teerã. Putin vende à África a ideia de que Moscou pode ser seu fornecedor de adubo e de alimentos.

O Brasil, maior exportador de soja do mundo, compra 85% do adubo de outros e confia a segurança de seu agro à boa vontade do Kremlin e à navegação em Ormuz. Uma diplomacia que se diz soberana precisa, primeiro, ser capaz de adubar a própria terra.

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