PT pressiona PSOL a se unir em federação de olho na disputa eleitoral

 

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O PT pressiona o PSOL a aderir a uma federação de esquerda de olho nas eleições de outubro. A união é considerada estratégica para aumentar a capacidade de disputa do campo no Congresso, onde o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou dificuldades principalmente ao longo do ano passado.

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Um dos argumentos usados por lideranças petistas é o fato de o PSOL ter dois ministérios na Esplanada, sendo que um deles, a Secretaria-Geral da Presidência, ocupada por Guilherme Boulos desde outubro, tem gabinete no Palácio do Planalto.

O comando do PT considera a federação, que incluirá também a Rede (hoje já federada com o PSOL), como um passo fundamental para atrair outros aliados para a chapa de Lula na eleição de outubro. A renovação da Federação Brasil da Esperança, que une desde 2022 PT, PCdoB e PV, já foi encaminhada.

— A conjuntura política exige movimentos históricos. Não podemos pensar pequeno. A realidade exige a construção de um campo que defenda de forma contundente a democracia e a soberania. Sem uma federação forte, que seja o ponto de partida, não atrairemos aliados para essa construção. Ter o PSOL e a Rede na nossa federação seria muito coerente com as exigências impostas — afirma o presidente do PT, Edinho Silva,

De acordo com integrantes do governo, Lula, nas conversas internas, vem manifestando preocupação com o futuro do PT. Um dos pontos levantados pelo presidente é a grande proximidade de parte da bancada do partido na Câmara com o Centrão. A federação com o PSOL seria uma forma de empurrar os petistas mais para a esquerda, apesar de a direção do partido negar que a federação tenha esse objetivo.

Cláusula de barreira

Nas discussões, lideranças petistas argumentam que o PSOL corre o risco de não atingir a cláusula de barreira, que será mais rigorosa este ano, se entrar na disputa apenas com a Rede. Para continuarem a ter acesso ao fundo partidário e a tempo no horário eleitoral, as legendas vão precisar eleger ao menos 13 deputados distribuídos por um terço das unidades da federação ou alcançar 2,5% dos votos válidos.

De forma reservada, lideranças do PSOL reconhecem que o partido corre risco de não atingir a cláusula de barreira. Mesmo assim, não há uma defesa pública da federação com o PT.

A união exigiria que os partidos atuassem juntos por um período de quatro anos nas esferas federal, estadual e municipal. As legendas seriam obrigadas, por exemplo, a apoiar os mesmos candidatos a governador, senador e prefeito em todos estados e cidades do país.

O PSOL, que surgiu em 2004 de uma dissidência do PT por divergências na votação da reforma da Previdência do primeiro mandato de Lula, avalia que poderia perder a sua autonomia caso entrasse na federação, já que o partido é muito menor que o PT (são 67 deputados contra 11 na Câmara). A sigla tentou cooptar o PCdoB para uma união, mas os comunistas rejeitaram a investida e preferiram se manter com os petistas.

Um dos vice-presidentes do PT, o prefeito de Maricá, Washington Quaquá, admite que a liderança da federação seria do partido de Lula e defende a união também com PSB e PDT.

— Sou favorável a uma federação ampla. Mas, obviamente, pelo fato de o PT ter mais votos e mais parlamentares no Congresso, deve liderar suas decisões. Além do PSOL, PSB e PDT também devem ser chamados a organizar a unidade do campo democrático, popular e de esquerda.

Já Edinho Silva argumenta que a união seria importante nos embates no Legislativo.

— Hoje, torna-se natural a configuração de uma federação de esquerda forte e ampla, para aumentarmos a nossa capacidade de disputa em um Congresso que assume posições muito conservadoras.

O presidente do PT ainda cobra uma resposta da presidente do PSOL, Paula Coradi:

— Já iniciamos essa conversa com o PSOL e temos ótima relação com a Rede. Estamos aguardando a posição da direção do PSOL, da presidente Paula Coradi.

Procurada, a dirigente do PSOL descartou completamente a possibilidade de se juntar ao PT.

— Não há debate em curso no PSOL sobre o ingresso do partido na Federação Brasil da Esperança. O PSOL encaminha a renovação da federação com a Rede Sustentabilidade — afirmou Paula Coradi.

Na eleição de 2022, o apoio à candidatura de Lula dividiu o PSOL. Uma ala da legenda chegou a tentar lançar o deputado federal Glauber Braga (RJ) para presidente, mas foi derrotada em convenção. Procurado para falar sobre a possibilidade de federação com o PT, Glauber disse que este ano tratará das questões relativas à tática eleitoral apenas internamente.

Depois da vitória de Lula, quando Sonia Guajajara foi convidada para assumir o Ministério dos Povos Indígenas, o PSOL aprovou uma resolução que exigia que só poderiam assumir cargos no governo aqueles que se afastassem de postos de direção no partido.