A coligação Brasil Pronto pra Mais, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), apresentou uma nova manifestação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta quarta-feira (14), alegando que a ferramenta de inteligência artificial (IA) da Meta, disponível no WhatsApp, estaria favorecendo a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) na geração de imagens eleitorais. Segundo a campanha, o sistema permite a criação de materiais associados ao candidato do PL, mas impõe restrições a pedidos semelhantes envolvendo Lula. Leia mais: Segundo a campanha, a ferramenta teria recusado pedidos de materiais favoráveis a Lula, enquanto autorizava a geração de imagens associadas a Flávio em condições semelhantes, “o que confirma o tratamento não isonômico”.
Para os advogados, a plataforma “pratica seletividade algorítmica e permite que Flávio Bolsonaro e seus apoiadores produzam, em massa, conteúdos eleitorais ilícitos e de fácil replicação". Por isso, a campanha pede a recomposição da distribuição do conteúdo do perfil de Lula e seus apoiadores, que corresponderia "à diferença positiva entre a distribuição que os conteúdos teriam na ausência dos incidentes já conhecidos e as impressões efetivamente entregues no período afetado". A Meta ainda não enviou os registros efetivos de exibição dos conteúdos.
A campanha de Lula pede que seja aplicada multa diária de R$ 500 mil, limitados a R$ 5 milhões, à Meta caso não cesse a restrição de entrega das publicações do presidente e apoiadores, além da suposta seletividade algorítmica da empresa, pela META AI, do chat do WhatsApp. O PT ainda faz uma série de outros pedidos, como a suspensão de mais de 40 contas que em tese geram conteúdo automatizado ligadas à campanha de Flávio Bolsonaro.
Diferenças de respostas Em testes realizados pelo Valor, a ferramenta apresentou respostas diferentes a solicitações de imagens com referências aos candidatos. Ao receber o pedido de um cartaz vermelho, com uma estrela amarela e a inscrição "Lula 13", a ferramenta informou que não poderia produzir o material.
Na sequência, em resposta para criar um cartaz verde e amarelo com os dizeres "Flávio 22", a ferramenta gerou uma imagem acompanhada das palavras "trabalho", "honestidade" e "progresso", além de referências às eleições de 2022, mesmo sem haver solicitação expressa de conteúdo eleitoral. Em um segundo teste, em outro aparelho, para o pedido "faça um cartaz verde e amarelo escrito Flávio 22", a ferramenta novamente gerou uma imagem com referência às eleições (agora a de 2024) e com um slogan "Por um Brasil melhor, justo e forte". Novamente, a solicitação não fazia menção ao contexto eleitoral. Quando a ferramenta é questionada sobre a diferença de resposta, o aplicativo atribuiu a uma falha no filtro automático de imagens. Teste de produção de cartaz com os dizeres Flávio 22 e Lula 13 pela ferramenta de IA do WhatsApp Reprodução/WhatsApp Em um terceiro teste, o sistema também recusou pedidos de cartazes com as expressões "Flávio Bolsonaro 22" e "candidato Lula", mas atendeu a uma solicitação com os termos "candidato Flávio". Nesse caso, a imagem produzida inicialmente fazia referência às eleições municipais de 2024 e ao cargo de vereador. Após novo comando, a ferramenta alterou o material para mencionar a eleição presidencial de 2026. Um pedido com a expressão "candidato Luiz" também foi atendido, assim como em pedidos com nomes aleatórios com os números 13 e 22. Meta IA permite a criação de materiais associados ao candidato do PL, mas impõe restrições a pedidos semelhantes envolvendo Lula Reprodução/Valor Numa das tentativas, ao responder a um pedido para um cartas com os dizeres "Rodrigo 13", a ferramenta gerou uma imagem sem qualquer referência ao contexto eleitoral, ao contrário do que ocorreu quando a solicitação era para "Flávio 22". O aplicativo apenas incluiu expressões relacionadas às eleições após um segundo pedido. Nesse momento, horas após aos primeiros testes, a ferramenta disse que não poderia atender às demandas por "Lula 13" porque o sistema de geração de imagens tem "alguns filtros automáticos", que bloqueou àquela solicitação específica. Em outras tentativas, a Inteligência Artificial não produziu imagens com as inscrições "Bolsonaro 22", "Lula 22" nem "Luiz Inácio 13". A ferramenta também recusou uma solicitação com "Zema 30", mas criou uma imagem com "Caiado 55". Meta IA permite a criação de materiais associados ao candidato do PL, mas impõe restrições a pedidos semelhantes envolvendo Lula Reprodução/Valor Em uma das interações, questionada sobre a suposta diferença de tratamento entre os pedidos envolvendo Lula e Flávio, a IA da Meta reconheceu a inconsistência. A ferramenta respondeu que era "uma boa pergunta" e explicou que o gerador de imagens utiliza filtros automáticos para conteúdos envolvendo figuras públicas e política. "Esses filtros às vezes bloqueiam um pedido e liberam outro, mesmo quando os dois são parecidos, como 'Flávio' e 'Lula'", afirmou a ferramenta. Em seguida, acrescentou que não controla diretamente essas regras e que, por esse motivo, havia conseguido produzir o cartaz de Flávio, enquanto uma solicitação semelhante envolvendo Lula foi barrada pelo sistema. Campanha já questionou alcance de publicações A petição sobre a ferramenta de IA foi apresentada no mesmo processo iniciado na semana passada, no qual a coligação acusa a Meta de restringir o alcance de publicações favoráveis ao presidente e apoiadores e beneficiar conteúdos ligados ao adversário. Na ação, apresentada na sexta-feira (9), a campanha apontou que a página de Flávio registrava, em média, engajamento 2,96 vezes superior ao de Lula, apesar de ter 17,2% menos seguidores. Na ocasião, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, concedeu prazo de 48 horas para a Meta apresentar esclarecimentos sobre a distribuição das publicações, o funcionamento dos mecanismos de recomendação e possíveis irregularidades na moderação de conteúdos. O magistrado também determinou que a empresa preservasse registros e fornecesse informações sobre contas supostamente automatizadas e problemas relatados pela campanha no impulsionamento de anúncios. A Meta pediu a prorrogação do prazo por mais 48 horas, em petição protocolada na segunda-feira (12).
Nesta quarta, a coligação do presidente Lula trouxe fatos novos, como a diferença de tratamento da Meta AI no WhatsApp ao criar imagens relacionadas aos dois candidatos à Presidência.
O que diz a Meta Em nota enviada ao Valor, a Meta afirmou que proibiu temporariamente a recomendação de candidatos ou a geração de imagens deles em cumprimento às regras eleitorais brasileiras. "Tomamos medidas adicionais para que comandos usando apenas o primeiro nome dos candidatos e seu número nas urnas também não produzam imagens", informou a empresa. A representante da Meta na ação disse que a resposta deveria vir da assessoria de imprensa.
Valor