De olho na reformulação ministerial para o quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PSB quer negociar um espaço na Esplanada para o presidente da sigla, João Campos, que não conseguiu se eleger neste ano após perder a disputa ao governo de Pernambuco. Segundo fontes, garantir um cargo para o dirigente é a prioridade da legenda nas conversas com o Palácio do Planalto.
Após a vitória de Lula no domingo (25), os partidos que compõem a atual gestão passaram esta semana em conversas internas na expectativa de identificar qual espaço podem ter no próximo mandato petista. O trabalho, segundo fontes, está no início, e os pleitos ainda estão sendo definidos.
Embora o PSB ainda esteja debatendo internamente os próximos passos, a legenda já articula uma entrada de João Campos na Esplanada dos Ministérios. Entre as opções em avaliação, Ciência e Tecnologia desponta como a favorita.
Em 2004, seu pai, Eduardo Campos, assumiu como ministro da pasta, também durante o mandato de Lula. Próximo a Lula, Eduardo faleceu em 2014, vítima de um acidente aéreo em Santos (SP).
A avaliação do PSB é que João Campos tem o perfil que Lula pretende intensificar neste quarto mandato, que é o da renovação política. No discurso após ser reeleito no domingo, o chefe do Executivo disse que pretende mudar a forma de governar o país e que dará mais atenção à comunicação digital no contato com seus eleitores.
“Essas eleições me ensinaram muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país”, afirmou o petista ao discursar para apoiadores em um hotel em São Paulo.
“Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões”, completou. A mudança na estratégia digital foi uma das principais marcas da campanha vitoriosa no segundo turno.
À frente da Prefeitura do Recife, entre 2021 e 2026, João Campos consolidou sua presença nas redes sociais e se tornou o prefeito de capital com o maior número de seguidores. Ao longo dos últimos anos, ele apostou em vídeos curtos e conteúdos descontraídos para ampliar seu alcance.
O sucesso foi reconhecido pelo Palácio do Planalto e, em 2025, Lula convidou Mariah Queiroz Costa Silva, responsável anteriormente pelas redes sociais do então prefeito da capital pernambucana, para a Secretaria de Estratégia e Redes da Secretaria de Comunicação Social (Secom). Segundo fontes do PSB, garantir um espaço a João Campos representaria também um reconhecimento da lealdade e parceria do partido com o governo nos últimos anos.
Na eleição de 2026, Lula resistiu a ir a Pernambuco e fazer um apoio explícito ao ex-prefeito de Recife para evitar desgastes com a governadora Raquel Lyra (PSD), que foi reeleita. Isso, contudo, gerou críticas internas do partido ao posicionamento do chefe do Executivo federal durante o pleito.
A ideia é que João Campos tenha prioridade na Esplanada, até mesmo em relação ao vice-presidente Geraldo Alckmin, do mesmo partido. Nas discussões internas, pessebistas dizem que, se não houver mais espaço para a legenda, é possível contemplar Alckmin com algumas “missões” à frente da Vice-Presidência.
Citam, por exemplo, liderar as negociações em torno do tarifaço americano sobre produtos brasileiros. Mesmo assim, Alckmin é atualmente um dos cotados para o Ministério da Fazenda.
Outra figura do PSB que surge no xadrez é Simone Tebet, ex-ministra do Planejamento. Apesar de ela ter um trabalho considerado positivo à frente da pasta, que ocupou de 2023 até abril de 2026, ela é considerada um quadro novo na legenda e, segundo interlocutores, não teria “prioridade” no partido.
Citam, por exemplo, que o ex-ministro do Empreendedorismo e ex-governador de São Paulo Márcio França (PSB), figura histórica no partido, teria preferência neste caso. França tem influência no PSB de São Paulo e foi, junto ao ex-ministro Fernando Haddad (PT), responsável pela interlocução entre Lula e Alckmin, então impensável no final de 2021, o que não é esquecido no Planalto.
O próprio ex-ministro lembra também que tem “apanhado sozinho” ao ceder candidaturas para o PT e o Ministério de Portos e Aeroportos - essencial para ele como político da Baixada Santista - para Silvio Costa Filho (Republicanos), neste mandato. Aliados defendem esses gestos como comprometimento com o projeto de Lula, embora não seja do mesmo espectro político do PT.
Por conta desse cenário, fontes do PSB não descartam, porém, que Tebet possa integrar também o governo Lula 4, mas na cota pessoal do chefe do Executivo. Sem mandato, ela concorreu ao Senado por São Paulo neste ano, mas não se elegeu.
Valor