Projeto social no Jacarezinho usa a culinária para gerar renda e oportunidades

 

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Mayara Alves tem 31 anos, é mãe solo e mora na comunidade do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Até pouco tempo, ela e a cozinha, nas palavras dela mesma, "não tinham afinidade nenhuma". Hoje, produz trufas para festas e eventos, integra a equipe da ONG Crescer IDM e cursa faculdade de Nutrição, sendo a primeira da família a chegar ao ensino superior. A virada começou quando ela decidiu se inscrever em um curso gratuito de culinária.

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A história de Mayara é uma das mais de 70 que a ONG Crescer IDM, fundada em homenagem ao vereador David Miranda, já ajudou a escrever por meio de seus programas de gastronomia. O Instituto, localizado no bairro do Jacaré, vizinho à comunidade do Jacarezinho, atua diariamente no território com atividades pedagógicas, culturais, esportivas e de apoio psicossocial. Entre as suas frentes de trabalho, os cursos profissionalizantes de gastronomia se destacam como uma das ferramentas mais concretas de geração de renda para famílias em situação de vulnerabilidade social.

São três frentes de formação em funcionamento. A primeira, e mais consolidada, é o curso de Noções Básicas de Cozinha, desenvolvido em parceria com a Faculdade Unisuan, onde alunos e professores da graduação em gastronomia ministram aulas ao lado do chef Vagner Luiz Santos. Já foram concluídas quatro turmas nesse formato.

A segunda é o curso de Iniciação à Confeitaria, realizado nas dependências do Hotel Hilton Copacabana, que leva os participantes a uma experiência real dentro de um hotel de alto padrão. A terceira e mais recente é o curso Pizzaiolas: Mãos que Transformam, criado em parceria com a rede de pizzarias Mama Jama especialmente para o mês das mulheres, em março. A primeira turma encerrou em abril com 12 alunas formadas.

— A gastronomia é uma área mais acessível, tem baixo custo inicial e um grande potencial de retorno financeiro", explica Jessyca Peçanha, coordenadora do projeto.

O público-alvo são pessoas em situação de vulnerabilidade social, com prioridade para moradores do Jacarezinho, comunidade onde nasceu e cresceu David Miranda. A ONG, no entanto, abre espaço para participantes de outras comunidades da Zona Norte, ampliando o alcance do projeto.

Novas chances

Por trás das técnicas de corte e das receitas ensinadas nas aulas, há uma questão estrutural que o projeto enfrenta de frente: a dificuldade de mulheres periféricas, especialmente mães, de acessar o mercado formal de trabalho. Para Jessyca, a gastronomia surge como resposta direta a essa realidade.

—A gastronomia vem para a gente como uma ferramenta de transformação social. Essas mães podem estar empreendendo em casa e, ao mesmo tempo, também cuidando dos seus filhos. O trabalho formal muitas vezes não chega até elas, e quando a oportunidade vem com orientação, elas conseguem se desenvolver cada vez mais" — diz a coordenadora.

Quem está na linha de frente dessa transformação é o chef Vagner Luiz, 39 anos, criado no próprio Jacarezinho. Com mais de uma década de trajetória na gastronomia, ele conduz as aulas do curso de Noções Básicas de Cozinha e acompanha de perto a evolução das participantes.

Vagner descreve as mudanças que observa ao longo das turmas com clareza.

— No começo, muitas chegam inseguras, sem perspectiva, desacreditando de si próprias e com autoestima baixa. Aos poucos, passam a se posicionar mais, confiar no seu trabalho, fazer receitas em casa e falar sobre vender e empreender — relata.

Os resultados práticos já aparecem. Há ex-alunas com barracas de tortas e de pastel em eventos, há alunas que ingressaram em cozinhas profissionais.

— A gastronomia de favela é democrática. Inventamos pratos às vezes por criatividade, às vezes por necessidade. No geral, somos muito criativos — reflete o chef.

Poliana Pereira, de 35 anos, também moradora do Jacarezinho, chegou ao projeto com o sonho de ter um restaurante. O curso reacendeu algo que ela já carregava.

— O curso me fez reativar o amor pela gastronomia que eu já tenho dentro de mim há muitos anos. Me deu forças para continuar atrás do meu sonho de ter meu restaurante, de mostrar para o mundo, em especial para a comunidade onde moro, o meu tempero, o meu sabor, a minha paixão. Já me considero aluna de carteirinha, que quer estar em todos os cursos possíveis na área da gastronomia —conta Poliana.

Próxima turma começa em junho; inscrições abrem em maio

A ONG já prepara o próximo passo. Em maio, o Crescer IDM lança o curso de Auxiliar de Cozinha, desenvolvido em parceria com o Sindirio, sindicato de bares e restaurantes do Rio de Janeiro. Diferentemente dos cursos anteriores, a formação acontecerá na sede do sindicato, que dispõe de cozinha profissional, estrutura que a ONG ainda não possui em sua sede.

As aulas têm início previsto para 2 de junho, com uma turma de 20 vagas. A parceria com o Sindicato Bares e Restaurantes (Sindirio) também abre perspectivas de empregabilidade, uma vez que o sindicato representa os estabelecimentos do setor.

As inscrições serão abertas pelas redes sociais da ONG por meio de um formulário. O processo inclui uma pré-seleção, na qual os candidatos relatam suas histórias, seguida de avaliação pela assistente social do projeto. A expectativa da coordenação é que o novo curso consolide a trajetória de crescimento dos programas de gastronomia da instituição.