Projeto da nova sede do governo de SP prevê revitalização dos Campos Elíseos e demolição de imóveis
O projeto do novo centro administrativo do governo paulista nos Campos Elíseos não sugere apenas uma mudança de endereço: mas uma transformação urbana no entorno da Praça Princesa Isabel.
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A proposta da parceria público-privada, que fechou leilão nesta quinta-feira (26) com o consórcio MEZ-RZK Novo Centro, é evitar um centro administrativo isolado. No térreo dos prédios estão previstos cerca de 25 mil metros quadrados de lojas e serviços, formando o que os arquitetos chamam de “fachada ativa”, com comércio voltado para as calçadas e caminhos internos que funcionariam como extensões da rua.
Para manter os olhos na cidade, por assim dizer, a estrutura interna das torres foi projetada para ter o chamado “core central”, concentrando elevadores e áreas técnicas no meio do prédio de modo que os escritórios tem vista aberta para a cidade.
O projeto também prevê um aumento de 40% na vegetação da Praça Princesa Isabel, não apenas dentro do parque, mas também por uma espécie de boulevard, que avança para dentro das quadras administrativas em mais de 16 mil metros quadrados verdes.
Praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo
Divulgação/Prefeitura de SP
O terminal Princesa Isabel, inclusive, deve ser desativado e substituído pelo Terminal Luz, com conexão à Estação da Luz por meio de túnel em construção pela CPTM.
O projeto ainda prevê a restauração de 17 imóveis históricos, incluindo o Palácio dos Campos Elíseos, que será transformado em espaço oficial de recepção do governo. Outros casarões tombados serão preservados.
O custo dessas restaurações está incluído no investimento total, estimado entre cerca de R$ 6 bilhões.
Além da nova sede administrativa, o projeto aposta na reocupação residencial do centro. Com a transferência das secretarias, prédios públicos hoje espalhados pela cidade devem ser convertidos em moradia. A previsão é construir mais de 6 mil unidades habitacionais na região central, sendo cerca de 55% destinadas à população de baixa renda.
Projeto prevê remoção de 650 famílias e demolição de imóveis
Ainda assim, a proposta convive com questionamentos práticos. Enquanto o projeto fala em transformação gradual do bairro -- afinal, são três anos de obras previstas -- a implantação prevê a desapropriação de cerca de 650 famílias e a demolição de centenas de imóveis.
Também há a própria escala do empreendimento. Enquanto os arquitetos defendem que o projeto evita a monumentalidade para não ser um "elefante branco", como dizem no croqui, a construção de sete edifícios e dez torres para 22 mil servidores é, por definição, uma intervenção monumental em uma área degradada.
Nova sede do governo SP tem potencial, mas enfrenta desafios urbanos
A construção da nova sede do governo de São Paulo deve durar três anos
Divulgação/Governo de SP
Em entrevista ao CBN São Paulo, o arquiteto Valter Caldana, integrante do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, afirmou que a iniciativa tende a trazer resultados positivos para o centro da capital. Ele ressalta, porém, que intervenções dessa dimensão costumam gerar impactos colaterais e exigem acompanhamento rigoroso durante a execução.
Entre os principais pontos de atenção estão o modelo de intervenção conhecido como "tabula rasa", que prevê demolições para dar lugar a novas construções. Para ele, esse tipo de abordagem pode desconsiderar a vida já existente no território, incluindo moradores, comércio, serviços e a memória urbana. "É preciso respeitar o que já está e melhorar o que é bom", afirmou.
Outro ponto sensível são as desapropriações. Caldana classifica o tema como o maior desafio de curto prazo da operação, sobretudo diante da complexidade jurídica e dos impactos sociais envolvidos.
"A segunda preocupação, essa é a maior de todas, são os processos de desapropriação. Ou seja, de novo, nós estamos no limite de transferir para privados o mecanismo de desapropriação, e isso, no Brasil, juridicamente, é muito complicado. Eu acho que é o grande desafio de curto prazo dessa operação como um todo."
Ouça a entrevista completa:
