Irã usou dados de satélite-espião comprado de empresa chinesa para atacar bases dos EUA em março, diz jornal

 

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As Forças Armadas iranianas utilizaram um satélite de fabricação chinesa para espionar e planejar ataques contra bases americanas e alvos estratégicos em países do Golfo Pérsico durante a guerra com EUA e Israel em março, apontou uma investigação publicada pelo jornal britânico Financial Times nesta quarta-feira, indicando um papel muito mais decisivo de Pequim enquanto fornecedor de capacidades com potencial uso militar a Teerã. A investigação vem a público em um momento em que fontes de inteligência em Washington citam uma possível disposição chinesa de enviar armas ao Irã durante o cessar-fogo de duas semanas — o que chegou a motivar o presidente americano, Donald Trump, a ameaçar uma sobretaxa de 50% a produtos chineses em caso de fomento bélico ao rival. Pequim rejeitou alegações sobre o envio de armas ao Irã.

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O satélite chinês TEE-01B, fabricado e lançado pela empresa chinesa Earth Eye Co, foi adquirido pelas Forças Aeroespaciais da Guarda Revolucionária do Irã — responsável pelos programas de mísseis, de drones e espacial do país — em 2024, pelo valor de 250 milhões de Renminbi (cerca de R$ 182 milhões no câmbio atual), segundo documentos iranianos revisados pelo FT. O acordo incluiria também o acesso por parte de oficiais do Irã a instalações físicas e a softwares de outra empresa chinesa, a Emposat, para operar o equipamento em órbita, capaz de enviar imagens, dados de telemetria e outras informações.

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Com base em dados públicos de rastreamento da Força Espacial dos EUA, documentos vazados aos quais tiveram acesso e imagens de satélites da Agência Espacial Europeia, a investigação britânica concluiu que o satélite chinês monitorou pontos específicos em março que, dias antes ou depois da passagem em órbita, foram bombardeados — indicando possíveis operações de preparação de ataques ou monitoramento de danos causados por bombardeios. Entre a lista de posições que tiveram dados coletados estariam a base Príncipe Sultan, na Arábia Saudita, onde aviões americanos foram atingidos, a base aérea Muwaffaq Salti, na Jordânia e outras áreas militares, além de infraestrutura civil crucial de países como Bahrein e Emirados Árabes Unidos.

Embora não tome parte no conflito no Oriente Médio, a China passou a ser implicada em uma série de temas envolvendo a escalada de tensões na região, sobretudo nas últimas semanas, após o alerta por parte de fontes da comunidade de inteligência dos EUA sobre um possível envio de carregamento de mísseis portáteis chineses ao Irã — incluindo o modelo usado recentemente para abater um caça F-15 americano.

Embora as informações de inteligência não são conclusivas e ainda estejam sob revisão, o discurso foi incorporado à retórica política. Em um anúncio no fim de semana, Trump prometeu impor tarifas "assombrosas" à China, caso os relatos se provassem verdadeiros. Oficialmente, Pequim rejeitou as informações "categoricamente".

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De tanques a tecnologias de uso duplo

Pequim mantém um equilíbrio delicado em sua relação bélica com o Irã. Empresas do complexo industrial-militar chinês foram um importante fornecedor do arsenal iraniano na década de 1980, incluindo mísseis, caças, tanques, blindados e fuzis utilizados na guerra Irã-Iraque — na qual os chineses também forneceram armas a Bagdá. Sob pressão internacional, incluindo dos EUA, o governo chinês prometeu controlar o comércio, mas a tecnologia produzida em Pequim foi fundamental para os avanços dos programas iranianos.

— A China desempenhou um papel importante no apoio à modernização militar do Irã por décadas, especialmente no desenvolvimento de suas capacidades de mísseis — disse Brian Hart, pesquisador do China Power Project no Center for Strategic and International Studies, em entrevista ao New York Times.

Mapa do alcance estimado dos mísseis balísticos do Irã

Arte O Globo

Especialistas creditam grande parte dos avanços da indústria bélica nacional iraniana à colaboração com a China, incluindo participações diretas e outras práticas, como engenharia reversa — o míssil antinavio Noor, marco no desenvolvimento armamentista iraniano, foi produzido a partir da compra de mísseis chineses C-802.

Uma importante mudança de perfil na colaboração acontece a partir de 2006, quando a ONU impõe sanções aos programas nuclear e de mísseis balísticos do Irã. A China votou a favor da resolução e, em grande medida, se afastou de novos contratos formais de armas com Teerã — uma decisão estratégica visando o aprofundamento das relações com países do Golfo rivais do Irã. Contudo, o país continuou a fornecer tecnologias e materiais de uso duplo, incluindo químicos usados para produzir combustível de mísseis balísticos e componentes para drones, como conectores de radiofrequência e pás de turbina.

No caso do satélite adquirido pela Guarda Revolucionária do Irã, a empresa Earth Eye Co aponta em seu website que ele foi projetado para ser usado em "agricultura, monitoramento oceânico, gestão de emergências, supervisão de recursos naturais e transporte municipal".

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Desafios estratégicos

O governo chinês rejeitou reiteradamente as acusações de fomento militar ao Irã durante a atual guerra no Oriente Médio. Publicamente, Pequim tem se posicionado abertamente pela desescalada entre as partes e o fim definitivo dos confrontos, cujo prolongamento é uma preocupação estratégica para um ator central da política global.

Um vínculo direto com as atividades militares do Irã provavelmente representariam um dano sério aos interesses chineses perante os ricos países do Golfo atacados durante a retaliação de Teerã — com quem Pequim tem se esforçado para estreitar laços políticos e econômicos há mais de uma década. O próprio prolongamento do conflito tem implicações imediatas, principalmente com as instabilidades no Estreito de Ormuz, rota naval por onde passa 20% do petróleo e gás natural produzidos no mundo.

Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz

Giuseppe CACACE / AFP

Um terço das importações totais de petróleo bruto da China chega do Golfo Pérsico. Em meio à guerra, o país foi um vocal defensor da preservação da abertura da rota naval e da desescalada entre os lados envolvidos. Por semanas, alguns navios chineses conseguiram escapar do bloqueio imposto pelo Irã — contudo, desde o início do cessar-fogo temporário e do insucesso da primeira negociação mediada pelo Paquistão, Trump anunciou que a Marinha dos EUA bloquearia 100% dos navios em Ormuz, já que o tráfego se vê prejudicado pelas ações iranianas.

Especialistas apontaram que o racional por trás da decisão de Trump observou diretamente Pequim. Com o fechamento de Ormuz elevando o preço do barril de petróleo nos mercados internacionais e a demanda por combustível pressionada pela instabilidade regional, o bloqueio apenas iraniano ainda oferecia tanto a Pequim quanto a Teerã uma forma de diminuir o impacto. A decisão foi fechar para todos e forçar uma asfixia.

Caminho por Moscou

Em meio às disputas no Oriente Médio, outro ator global se apresentou como solução para a crise do petróleo. Se com o início da guerra e as instabilidades em Ormuz fizeram os EUA aliviarem sanções à Rússia, Moscou se colocou como alternativa para "compensar" o déficit energético da China com o início do conflito, durante visita do ministro das Relações Exteriores Serguei Lavrov a Pequim

— A Rússia certamente pode compensar a escassez de recursos que surgiu [na China e em] outros países interessados ​​em trabalhar conosco — afirmou o chanceler em uma coletiva de imprensa, no mesmo dia em que se reuniu com o líder chinês, Xi Jinping, de quem ouviu que as relações China-Rússia são "especialmente preciosas".

Com uma produção média que gira acima dos 10 milhões de barris por dia, o que a coloca como um dos maiores produtores de petróleo do mundo, a Rússia estreita relações políticas e econômicas com a China desde 2022, quando o líder russo, Vladimir Putin, e Xi celebraram uma "parceria sem limites". Em meio à guerra com a Ucrânia, Moscou também estreitou laços bélicos com a Coreia do Norte e com o Irã, incluindo compartilhamento de tecnologia. (Com NYT e AFP)