Uma rede de postos de combustíveis que movimentou mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos, empresas registradas em nome de familiares de policiais civis e suspeitas de lavagem de dinheiro e envolvimento de político. Essa é a estrutura investigada pela Polícia Federal (PF) em uma apuração que levou, nesta quinta-feira, à prisão do ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil) e do ex-secretário estadual de Polícia Civil do Rio Marcus Amim. Unha e Carne: Ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella e ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim são presos pela PF Quem é Márcio Canella: segundo deputado estadual mais votado do Rio é preso em operação da PF Segundo a PF, Márcio Canella e policiais civis ligados a ele teriam estruturado uma rede de postos de combustíveis para lavar recursos supostamente desviados da prefeitura de Belford Roxo. Um dos personagens centrais da investigação é o policial civil Christiano Gaspar Fernandes, que foi secretário de Ordem Pública daquele município e chefiou o Setor de Investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) quando Marcus Amim era titular da unidade. Canella e Amim já haviam sido alvos da sexta fase da Operação Unha e Carne, em julho deste ano, quando os investigadores avançaram sobre uma estrutura empresarial supostamente utilizada para ocultar os verdadeiros controladores dos negócios. Três meses depois, nesta oitava etapa, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prisão preventiva de ambos e de quatro inspetores da Polícia Civil. Na casa de bilhões: PF aponta movimentação de R$ 7,6 bi em esquema alvo de operação que prendeu Marcio Canella e ex-secretário de Polícia Civil do Rio Márcio Canella, deputado estadual eleito, e Marcus Amim, ex-secretário da Polícia Civil; ambos foram presos em operação da PF desta quinta-feira Reprodução A nova fase ampliou o alcance das medidas judiciais contra a rede, com a suspensão das atividades de 112 empresas, entre elas 96 postos de combustíveis, além do sequestro de bens e valores. A investigação teve origem em um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou movimentações bilionárias. Além de Canella e Amim, foram presos nesta quinta-feira os inspetores Christiano Gaspar Fernandes, Giovanni Gaspar Fernandes, José Carlos Alves de Souza Júnior e Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. Ao todo, a Justiça expediu seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão. Quem é Marcus Amim: delegado que comandou a Polícia Civil e teve nomeação articulada com Bacellar foi preso pela PF Das buscas de julho às prisões de outubro Na sexta fase da operação, deflagrada em 7 de julho, os policiais federais cumpriram 19 mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados. Canella e Amim estavam entre os alvos. Na ocasião, a investigação já examinava suspeitas de ocultação patrimonial por meio de empresas formalmente registradas em nome de familiares e intermediários. PF apreendeu fuzil no carro do ex-prefeto de Belford Roxo Márcio Canella Divulgação / PF Investigação: PF afirma que Márcio Canella é 'patrono político' e 'articulador' de organização criminosa ligada ao Comando Vermelho Durante as diligências, Canella acabou preso em flagrante após a apreensão de um fuzil em seu carro, episódio distinto das suspeitas de lavagem de dinheiro. Ele foi solto dias depois por decisão de Moraes, com a obrigação de usar tornozeleira eletrônica. A defesa sustentou que a arma era legalizada e pertencia a um segurança. As buscas também resultaram na apreensão de aproximadamente R$ 800 mil em espécie e 11 carros de luxo, entre eles uma Mercedes-Benz avaliada em R$ 1,5 milhão. A PF investigava se a movimentação de dinheiro vivo e a utilização de empresas em nome de terceiros integravam mecanismos de ocultação de recursos de possível origem criminosa. Polícia revela: Milícia cobrava taxas de moradores de condomínio com mais de mil apartamentos e arrecadava R$ 100 mil por mês Já essa oitava fase ampliou o alcance das medidas judiciais, com seis prisões preventivas, suspensão das atividades econômicas de empresas e sequestro de bens.
Policiais suspeitos de controlarem empresas registradas em nome de familiares Conforme apontou a Polícia Federal em julho, uma das principais frentes da investigação envolve a suspeita de que policiais civis exerciam o controle de empresas do setor de combustíveis sem aparecer formalmente como seus proprietários. No centro dessa apuração, estão os inspetores Pablo Russo e José Carlos Alves de Souza Júnior, ambos presos nesta quinta-feira. Suas esposas, Luisi Correa Pinho e Luana Oliveira, figuravam como sócias de empresas ligadas à rede investigada. A PF suspeita que os policiais fossem os verdadeiros controladores de parte dos negócios, utilizando registros societários em nome de terceiros para ocultar sua participação. Cotado para presidir a Alerj: Delaroli entra no radar de Ruas para comandar superpasta de infraestrutura no governo do Rio A dimensão da estrutura empresarial chamou a atenção dos investigadores. Lotado na 81ª DP (Itaipu), Pablo Russo recebia salário líquido de aproximadamente R$ 10 mil mensais, mas é apontado pela PF como possível controlador oculto de negócios ligados a uma rede que envolveria cerca de 80 empresas registradas em nome de terceiros. Segundo a investigação, a distribuição formal das empresas entre familiares e intermediários poderia dificultar a identificação de seus beneficiários reais. A suspeita é que os policiais exercessem influência sobre os estabelecimentos sem aparecer diretamente nos contratos sociais. A rede incluía outros parentes, como Vitor Correa Pinho, irmão de Luisi e cunhado de Pablo Russo. Ele aparecia como sócio de estabelecimentos e de empresas ligadas ao setor de combustíveis, entre elas a distribuidora Purogás. Orçamento do Rio: aliados de Ruas afirmam que, para reduzir déficit de R$ 13,9 bi, uma das opções é zerar investimentos Advogado aparece na administração de empresas investigadas O advogado Renivaldo Vieira Granja Junior também aparece na estrutura societária examinada pela PF em julho. Ele figurava como sócio-administrador de empresas registradas em nome de Luisi e Luana. Os investigadores examinam a organização administrativa e jurídica dos negócios para identificar quem exercia o controle efetivo das empresas e como se davam as relações entre os sócios formais e os possíveis beneficiários ocultos. Documento: Carteira de identidade passará a ser agendada e emitida pelo sistema Gov.br e não mais pelo site do Detran RJ Dinheiro vivo e apreensão de R$ 800 mil chamaram atenção A movimentação de dinheiro em espécie é outra frente da investigação. No posto J R Combustíveis, localizado em Icaraí, Niterói, clientes eram informados de que só poderiam pagar em dinheiro, segundo reportagem do GLOBO. Cartões de crédito, débito e Pix não eram aceitos, sob a justificativa de problemas temporários no sistema. A mesma restrição era aplicada à loja de conveniência anexa. A prática foi identificada no contexto da apuração sobre suspeitas de lavagem de dinheiro. Também durante a sexta fase da operação, em julho, os policiais federais apreenderam aproximadamente R$ 800 mil em espécie na sede da Adm Oil Prestadora de Serviços para Postos de Gasolina Ltda., no Centro de Niterói. A empresa havia sido fundada por Luana Oliveira com capital social inicial de R$ 10 mil. Na mesma etapa, foram apreendidos 11 carros de luxo. Os investigadores apuram a origem dos recursos e a possível utilização da estrutura empresarial para ocultar valores provenientes de atividades criminosas. De delegado a secretário: conexões de Amim com policiais investigados As relações profissionais entre integrantes da rede investigada e a estrutura de segurança pública do Rio também são examinadas pela PF. Pablo Russo, apontado como um dos possíveis controladores ocultos dos postos, integrou a equipe de Marcus Amim em diferentes delegacias e foi levado por ele para o Detran-RJ quando o delegado presidiu o órgão. Amim comandou a Secretaria estadual de Polícia Civil entre 2023 e 2024. Sua chegada ao cargo ocorreu após uma alteração na legislação estadual que modificou os requisitos de tempo de carreira para a nomeação. Em setembro de 2024, o então governador Cláudio Castro exonerou Amim da chefia da Polícia Civil, em meio à insatisfação com sua gestão. Uma semana depois, o delegado passou a trabalhar na Assembleia Legislativa, onde ocupou o cargo de chefe da segurança até dezembro de 2025. Segundo reportagem do Jornal Nacional, a investigação também aponta suspeitas de que Amim fosse proprietário de duas lojas de conveniência instaladas em postos de combustíveis. Canella: da busca e apreensão à prisão preventiva A oitava fase da operação também levou à prisão de Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e segundo deputado estadual mais votado do Rio nas eleições deste ano pelo União Brasil. Ele já havia sido alvo de buscas em julho, quando foi preso em flagrante após a apreensão de um fuzil em seu carro, em episódio distinto da investigação sobre lavagem de dinheiro. Solto dias depois, passou a usar tornozeleira eletrônica por determinação de Moraes. Três meses depois, a PF avançou para uma nova fase da investigação, que resultou na prisão preventiva do ex-prefeito. As informações divulgadas até agora não detalham qual seria sua participação no suposto esquema de lavagem de dinheiro nem quais novos elementos reunidos desde julho fundamentaram o pedido de prisão. Justiça suspendeu atividades de 96 postos Márcio Canella, deputado estadual eleito, e Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil; ambos foram presos em operação da PF desta quinta-feira Fabiano Rocha / Agência O Globo A oitava fase da Operação Unha e Carne ampliou o alcance das medidas contra a estrutura empresarial investigada. Nesta quinta-feira, a Justiça determinou a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas, entre elas 96 postos de combustíveis. Segundo a PF, há suspeitas de que estabelecimentos ligados à rede tenham sido utilizados para ocultar recursos de origem criminosa e dar aparência de legalidade a movimentações financeiras. O volume financeiro foi identificado em um Relatório de Inteligência Financeira do Coaf, que apontou movimentação superior a R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos. O montante corresponde ao total movimentado pela rede investigada, e não necessariamente ao valor efetivamente lavado. Nesta etapa, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão, cumpridos nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores. Além de organização criminosa armada e lavagem de dinheiro, a Polícia Federal apura suspeitas de corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel. A operação integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para combater organizações criminosas no estado, seguindo diretrizes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas. A defesa de Canella informou nesta quinta-feira que não se pronunciaria até ter acesso aos autos. As manifestações atualizadas das defesas dos demais investigados ainda não haviam sido obtidas.
O Globo