Prestação de contas, lucro de Vorcaro e explicações a aliados: a estratégia de Flávio para tentar reduzir desgaste
Com a sequência de revelações sobre sua relação com Daniel Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vem tentando diversas formas de mitigar os efeitos negativos do caso em sua pré-campanha à Presidência. Faz parte da movimentação a promessa de prestação de contas do filme e também a garantia de que seu envolvimento com o banqueiro não ultrapassou os limites do negócio relacionado ao longa-metragem sobre a vida do próprio pai.
Durante reunião com deputados e senadores do partido na terça-feira, Flávio voltou a ser questionado sobre a possibilidade de surgirem novos episódios envolvendo o dono do banco. Segundo relatos feitos ao GLOBO, o senador reafirmou aos parlamentares que sua relação com Vorcaro se limitou às tratativas para o financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a campanha presidencial de 2018 do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nos bastidores, porém, o clima ainda era de desconfiança. Integrantes da bancada ouviram novamente a explicação do senador, mas parlamentares relataram insegurança sobre a possibilidade de novas revelações surgirem nos próximos dias, sobretudo após a sequência de reportagens divulgadas pelo Intercept Brasil.
Depois da reunião, Flávio concedeu entrevista coletiva e anunciou medidas que, segundo ele, serviriam para dar transparência ao investimento feito no filme.
— Pedi à produtora para que se organizassem para fazer uma prestação de contas das despesas de todo mundo, de forma transparente — disse Flávio.
Segundo o pré-candidato à Presidência, também foi solicitado que o dinheiro investido por Vorcaro seja separado e colocado à disposição das autoridades brasileiras caso o filme gere retorno financeiro.
— Outro pedido é que, assim que o filme der resultado, o valor aplicado pelo Daniel Vorcaro vai ser destacado e ficará à disposição das autoridades para resolverem o que vão fazer — completou.
Na coletiva, Flávio também voltou a defender a criação de uma CPI para investigar o Banco Master e afirmou que a comissão seria necessária para “separar bandido de inocente”. Além disso, o presidenciável também admitiu ter visitado Vorcaro no final de 2025 em sua casa, depois de ele ter sido preso, mas que o contato também se resumiu a tratativas acerca do filme.
— Fui sim até o encontro dele. Ele estava restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele — disse Flávio:— Eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco.
A estratégia do senador foi sinalizada após dias de crise dentro da pré-campanha presidencial do PL, marcada por sucessivas mudanças de versão sobre o financiamento do filme e sobre a relação entre integrantes da família Bolsonaro e Vorcaro.
Desde que vieram à tona mensagens de Flávio cobrando repasses do banqueiro para a conclusão da obra, produtores, parlamentares e empresas ligadas ao projeto passaram a apresentar explicações divergentes sobre a origem dos recursos, os contratos firmados e a estrutura usada para operacionalizar os pagamentos.
Inicialmente, Flávio negou ter pedido dinheiro a Vorcaro para o longa e chamou as informações de “mentira”. Depois, quando confrontado com reportagem do Intercept, ele admitiu ter buscado patrocínio privado e confirmou a existência de um contrato relacionado ao financiamento do filme.
No dia seguinte, ainda acrescentou uma nova justificativa ao afirmar que não havia tratado publicamente do tema antes porque o acordo previa cláusulas de confidencialidade.
As contradições também envolveram o deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor-executivo do longa. Após a divulgação dos primeiros áudios, Frias afirmou que o filme não havia recebido “um único centavo” de Vorcaro. Depois, passou a dizer que havia “interpretações diferentes” sobre as negociações e afirmou que o compromisso financeiro teria ocorrido por meio da empresa Entre Participações, apontada como uma das estruturas utilizadas para repasses ligados ao banqueiro.
Outra frente de desgaste surgiu após documentos divulgados pelo Intercept apontarem participação formal do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro na estrutura financeira do filme. Contratos assinados pelo parlamentar o colocariam como produtor-executivo da obra e atribuiriam a ele funções ligadas à captação de recursos e às decisões sobre financiamento do projeto. Eduardo, contudo, nega.
A Polícia Federal (PF) passou a investigar se parte do dinheiro ligado ao longa poderia ter sido usada para custear a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. A principal linha de apuração tenta esclarecer se os valores enviados ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, foram usados exclusivamente na produção cinematográfica ou se também financiaram despesas do deputado licenciado no exterior.
