O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, descartou renunciar ao cargo nesta quinta-feira, após três dias consecutivos de confrontos entre manifestantes e policiais na capital, Tirana. Segundo o jornal britânico The Guardian, os protestos, que começaram em junho contra um projeto turístico apoiado pela família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ganharam força nesta semana com a entrada de estudantes no movimento e evoluíram para episódios de violência. Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países — Os governos são substituídos por meio de eleições democráticas. Tivemos eleições no ano passado, não uma revolução — afirmou Rama à agência de notícias Reuters.
Primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama Adnan Beci / AFP A declaração foi feita horas antes de novos confrontos em frente ao Ministério da Educação, onde agentes da polícia de choque usaram gás lacrimogêneo e jatos d’água para dispersar jovens que atiravam pedras.
O premier disse que pretende ouvir as reivindicações dos manifestantes, mas argumentou que deixar o cargo significaria trair os eleitores que lhe deram um mandato para concluir as negociações de adesão da Albânia à União Europeia.
— Não permitirei que a violência desvie a Albânia de seu futuro europeu — declarou. Reeleito para um quarto mandato em 2025, Rama estabeleceu como meta concluir até 2030 o processo de entrada do país no bloco europeu, formado por 27 membros. A escalada dos confrontos, em contraste com os atos majoritariamente pacíficos dos meses anteriores, representa um novo desafio para o chefe de governo, segundo o Guardian. Contexto: Protestos na Albânia expõem avanço dos negócios bilionários da família Trump na Europa Na quinta-feira, após uma noite de embates nas ruas, moradores encontraram lojas com fachadas destruídas, semáforos danificados e prédios públicos e bancos incendiados e saqueados. A estimativa divulgada pelo jornal britânico é de 89 feridos, entre eles 61 policiais. A violência também ampliou as incertezas sobre os rumos do movimento, em um momento em que cresce a insatisfação com o governo socialista, que está há 13 anos no poder. — Os jovens albaneses estão cansados de toda a corrupção, cansados de toda a arrogância. Querem viver em um país melhor e não têm medo de recorrer à violência — disse ao Guardian Afrim Krasniqi, diretor do Instituto Albanês de Estudos Políticos, em Tirana. — Não há como prever o que vai acontecer. Ninguém sabe o que virá a seguir. Estudantes ampliam pressão Apesar da disposição de dialogar sobre as queixas relacionadas ao aumento dos custos da educação, Rama afirmou que não tolerará atos de vandalismo. Durante uma visita às instalações do College of Europe, em Tirana, danificadas pelo fogo, ele acusou os responsáveis pela destruição de tentar impedir o avanço do país. — Os estudantes são o futuro. São eles que olham para a frente, que querem ir mais longe e mais rápido — destacou. Em seguida, afirmou que os danos haviam sido provocados por pessoas que tentam derrubar a Albânia sempre que ela busca se reerguer. Europa: Mais de 250 mil manifestantes fecham 1.800 escolas na França e entram em confronto com a polícia em nova jornada de protestos O próprio Rama ganhou projeção política há três décadas, quando participou de um movimento de protesto e criticou o primeiro governo albanês formado após o fim do regime comunista. Na ocasião, tornou-se um símbolo da repressão estatal. As manifestações atuais começaram há quase cinco meses, quando opositores passaram a se reunir diariamente em frente ao gabinete do primeiro-ministro contra os planos de construção de um complexo turístico defendido por Jared Kushner, genro de Trump. O projeto prevê obras em uma área de litoral preservado, considerada de grande valor natural, que inclui a ilha desabitada de Sazan. Manifestantes entram em confronto com a tropa de choque durante uma manifestação antigovernamental no centro de Tirana, em 15 de outubro de 2026, no terceiro dia consecutivo de protestos motivados pelas condições nas universidades e por exigências de renúncia do primeiro-ministro albanês, Edi Rama ARMEND NIMANI / AFP Conhecidos como “Revolução dos Flamingos”, em referência aos riscos ambientais atribuídos ao empreendimento, os atos passaram a reunir diferentes públicos e também incorporaram a exigência de renúncia de Rama. Veja também: Adolescente perde mão após pegar granada durante confronto com a polícia em protesto escolar na França O premier, porém, mantém sua defesa do projeto, que descreve como um “presente” para a economia albanesa. Segundo ele, o resort ajudaria a criar empregos e a transformar o país em um destino de turismo de luxo. Para Krasniqi, a entrada dos estudantes representa uma mudança importante na mobilização. Em entrevista ao Guardian, o analista afirmou que o governo teve mais de quatro meses para dialogar com os manifestantes, mas preferiu minimizar suas reivindicações. Com a adesão dos universitários, acrescentou, o movimento parece ter ganhado vantagem. Krasniqi disse ainda ter ouvido, pela primeira vez, jovens afirmarem que aceitariam correr o risco de se ferir ou de serem presos para defender a democracia. — As reivindicações deles são muito diferentes das dos manifestantes da Revolução dos Flamingos. Eles querem uma educação melhor, prédios universitários em melhores condições e uma sociedade que lhes ofereça esperança. Também não acreditam que a Albânia deva estar à venda — explicou. Leia mais: França suspende uso de granadas de efeito moral em protestos estudantis após adolescente perder a mão O analista observou, contudo, que a mobilização também se inspira em protestos estudantis registrados em outros países europeus, especialmente na França. Resort bilionário O empreendimento ligado à família Trump é estimado em € 4 bilhões (cerca de R$ 22,7 bilhões, na cotação atual) e seria o maior investimento já realizado na Albânia. Na semana passada, Kushner comentou a controvérsia e reconheceu que ele e sua empresa de investimentos, a Affinity Partners, estavam apostando em um país que nunca havia recebido um projeto daquela escala. — Não há garantias — afirmou.
Entenda: Dois navios pegam fogo no Mar Negro após incursão de drones russos na Romênia; sete tripulantes estão desaparecidos Segundo Kushner, o investimento seria justificado pela confiança na Albânia e em sua população. Caso seja bem-sucedido, acrescentou, o resort poderá gerar empregos, movimentar a economia e ampliar a visibilidade internacional do país. Ambientalistas que lideraram a oposição ao projeto contestam os benefícios previstos. Aleksandër Trajçe, diretor da principal organização albanesa dedicada à proteção ambiental, afirmou ao Guardian que a insatisfação persiste porque muitos consideram que o empreendimento favorecerá apenas os setores mais privilegiados. Para ele, a condução do caso pelo governo contribuiu para a escalada dos confrontos. Trajçe argumentou que, durante meses, os manifestantes se depararam com uma administração que se recusou a ouvi-los ou a fazer concessões, alimentando a indignação em torno do projeto de Kushner.
O Globo