O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, pediu calma nesta sexta-feira e culpou “forças estrangeiras” por dias de distúrbios violentos, enquanto manifestantes voltaram a se reunir na capital do país para exigir sua renúncia. O premier também acusou a oposição albanesa de alimentar o caos e alegou que atores externos tentam impedir o avanço da Albânia rumo à União Europeia. Contexto: Premier da Albânia descarta renúncia após três dias de confrontos em protestos liderados por estudantes Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Desde terça-feira, manifestações violentas tomaram conta de Tirana, com milhares de pessoas pedindo que Rama deixe o cargo em meio à insatisfação com as condições das universidades, as altas taxas de matrícula e o custo de vida. Os protestos também se espalharam por várias outras cidades, enquanto estudantes aderiram a boicotes às universidades, ampliando a mobilização após meses de manifestações contra o governo. Manifestantes seguram uma bandeira albanesa diante de um quiosque em chamas durante uma manifestação antigovernamental no centro de Tirana, em 15 de outubro de 2026, enquanto os protestos continuavam pelo terceiro dia consecutivo, motivados por questões relacionadas às condições nas universidades e pela exigência da renúncia do primeiro-ministro albanês, Edi Rama ARMEND NIMANI / AFP A polícia voltou a entrar em confronto com manifestantes em Tirana, onde centenas de pessoas se reuniram em frente ao Ministério da Educação, gritando “Rama, renuncie!”. Os agentes usaram jatos d’água, gás lacrimogêneo e cassetetes, enquanto os manifestantes atiravam pedras. Os dias de distúrbios deixaram prédios públicos bastante danificados. Durante a noite, a entrada do Ministério das Finanças foi incendiada, e as janelas de um complexo universitário foram quebradas. Grupos formados principalmente por jovens encapuzados também empilharam e incendiaram lixeiras para bloquear as vias.
Segundo um comunicado das autoridades, 160 pessoas foram detidas por atos de violência na noite de quinta-feira. Um jornalista da AFP também presenciou grupos encapuzados quebrando vitrines e saqueando lojas. Dezenas de pessoas, principalmente policiais, ficaram feridas nos confrontos desde terça-feira, segundo as autoridades. — Não somos criminosos. Só queremos uma vida melhor para nossos pais e para nós mesmos. Não queremos deixar a Albânia — disse Ledia à AFP, estudante do ensino médio, de 18 anos, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome. — A indiferença e a arrogância do governo desde o início do nosso movimento têm sido insuportáveis e agravaram a situação. Movimento antigoverno A escalada desta semana ocorre após meses de manifestações contra Rama. Segundo a rede BBC, durante cerca de 135 dias consecutivos ao longo do verão, manifestantes se reuniram no centro de Tirana com imagens de um flamingo cor-de-rosa, símbolo de um movimento antigoverno que pede a renúncia do primeiro-ministro, agora em seu quarto mandato. Os protestos do movimento Flamingo começaram em oposição a um megaprojeto turístico na costa do mar Adriático ligado a Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os manifestantes afirmavam que a construção de um empreendimento de luxo ameaçaria a sobrevivência da ave em uma ilha próxima à cidade costeira de Vlora. Entenda: Protestos na Albânia expõem avanço dos negócios bilionários da família Trump na Europa A mobilização também ocorre em meio ao aumento das acusações de corrupção contra ministros e outros altos funcionários do governo. Segundo a BBC, uma vice-primeira-ministra deixou o país, enquanto outra foi obrigada a deixar o cargo em meio ao andamento de investigações. As manifestações mais recentes foram anunciadas como um movimento estudantil, inicialmente voltado à cobrança de medidas para aliviar os custos da educação e do material didático. Estudantes do ensino médio também aderiram aos atos, que se espalharam por cidades como Durrës, Shkodër, Lezhë, Vlora, Gjirokastër e Korçë. Embora os protestos anteriores tenham reunido pessoas de diferentes idades e incluído atos pacíficos, jovens ouvidos pela BBC afirmaram que a nova onda de manifestações representa uma mudança de fase, após meses de mobilização sem avanços nas reivindicações. Uma jovem identificada como Livia disse à emissora britânica que cinco meses de protestos pacíficos foram recebidos com “humilhação, ridicularização e zombaria”. Segundo ela, a resposta do governo transmitiu a mensagem de que a voz dos manifestantes não seria ouvida. Não está claro, porém, se há uma ligação direta entre o movimento Flamingo e os protestos estudantis. Segundo a BBC, os líderes do primeiro não declararam publicamente essa conexão, e nenhum representante do movimento estudantil havia se apresentado. Acusações de interferência Em um comunicado divulgado nesta sexta-feira, Rama insistiu que os protestos “não têm absolutamente nada a ver com as dificuldades, os problemas ou as aspirações legítimas de quem deseja uma vida melhor”. — Tudo isso é obra da mesma mão, a mão que mantém a oposição albanesa pelo pescoço, a mão que já incendiou e destruiu a Albânia mais de uma vez — declarou. O primeiro-ministro socialista acusou supostas “forças estrangeiras”, sem identificá-las, de alimentar os distúrbios e tentar prejudicar a candidatura de seu país à União Europeia. — São forças estrangeiras que não desejam que a Albânia viva em paz. (...) Elas não querem que a Albânia faça parte da família europeia unida — afirmou ele em um vídeo publicado no Facebook. Rama também questionou se seria coincidência que os distúrbios se intensificassem quando o país recebe novos sinais positivos em seu caminho rumo ao bloco europeu. — Não é coincidência alguma! Nada do que está acontecendo agora é coincidência — declarou. A hipótese de interferência externa também foi levantada por veículos de comunicação albaneses, que sugeriram um possível envolvimento de serviços secretos estrangeiros. Segundo a BBC, comentaristas chegaram a mencionar a Sérvia, sob o argumento de que o país estaria incomodado com a perspectiva de a Albânia avançar rumo à adesão à UE. Não foram apresentadas provas que sustentem essas suspeitas. Rama também descartou renunciar e prometeu ouvir as reivindicações da população e atender às preocupações legítimas. O premier visitou alguns dos prédios danificados e acusou Sali Berisha, principal líder da oposição e ex-primeiro-ministro e ex-presidente, de instigar o caos. Berisha e seu Partido Democrático já tentaram mobilizar a população para derrubar o governo. No entanto, o número de apoiadores do líder oposicionista nas manifestações anteriores era inferior ao registrado nos atos atuais, o que levanta dúvidas sobre sua capacidade de organizar os distúrbios, embora ele possa tentar tirar proveito da crise. Apesar de prometer ouvir as reivindicações da população, Rama tem deslegitimado os protestos ao acusar os manifestantes de serem manipulados por interesses estrangeiros e pela desinformação, sem apresentar detalhes ou provas que sustentem essas alegações. (Com AFP)
O Globo