A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, anunciou no último domingo propostas para limitar a cerca de 30% a presença de estudantes estrangeiros em cada turma e proibir, nas escolas, o uso de peças que cubram o rosto, como a burca e o niqab. As medidas foram apresentadas durante um evento da Juventude Nacional, braço jovem do partido conservador Irmãos da Itália (FdI, na sigla em italiano). O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Ferramenta do GLOBO reúne informações sobre custo e qualidade de vida, salários, vistos, oportunidades e características de 36 países — Se em uma sala de aula há apenas uma criança que não entende italiano, é possível que ela consiga, com a ajuda dos colegas e dos professores, aprender a língua e se integrar rapidamente. Mas, se essas crianças são muitas, ou até mesmo a maioria, isso não é mais integração, é abandono — afirmou Meloni.
A premiê afirmou que as crianças italianas se tornaram minoria nas salas de aula e disse que, nesse cenário, “não há como aqueles que se sentem marginalizados serem as crianças italianas porque elas se tornaram minoria”.
Dados da Fundação de Iniciativas e Estudos sobre a Multietnicidade (ISMU ETS, na sigla em italiano), instituto de pesquisa voltado para questões migratórias, citados pela rede americana CBS News com base em informações do Ministério da Educação italiano, indicam que estudantes sem cidadania italiana representam atualmente cerca de 11,6% do total de matrículas escolares no país. Pelo sistema italiano, crianças nascidas no país de pais que não são italianos, em geral, não recebem automaticamente a cidadania ao nascer. Elas podem adquiri-la aos 18 anos, desde que tenham permanecido na Itália. Recorde: Meloni supera Berlusconi e lidera governo mais longevo da Itália A proposta relacionada às vestimentas seria restrita às peças que cobrem o rosto e não abrangeria todas as formas de cobertura islâmica da cabeça. A premiê italiana citou especificamente a burca e o niqab, usados por algumas mulheres e meninas, e afirmou que a proibição está relacionada à igualdade entre homens e mulheres. — Na escola, você vai com o rosto descoberto, e na Itália ninguém, em nome de uma tradição real ou presumida, pode decidir que uma jovem deve se esconder. A igualdade entre homens e mulheres não é negociável — afirmou. Segundo Meloni, o governo levará a proposta de legislação ao Conselho de Ministros. Depois disso, a medida ainda precisará ser aprovada pelo Parlamento para se tornar lei. Pedido de fotos, declarações e viagem cancelada: o que está por trás dos desentendimentos entre Trump e Meloni Mariagrazia Santagati, professora de sociologia da Universidade Católica do Sagrado Coração, em Milão, afirmou à CBS News que há regiões menos povoadas da Itália onde a concentração de pessoas de origem não italiana é maior, o que acaba aumentando a presença de estudantes estrangeiros nas salas de aula. Para a professora, ainda é difícil entender como a limitação proposta pelo governo seria colocada em prática. — A escola italiana é baseada na inclusão, desde crianças com deficiência até outras minorias, todos frequentam as mesmas aulas. E a escola pública é aberta a todas as crianças, independentemente de sua situação jurídica e religião — disse Santagati. — É difícil entender como isso seria colocado em prática. Somos a favor do multiculturalismo. Guga Chacra: Direita de Meloni vs direita de Trump A Itália não seria o primeiro país europeu a impor restrições a peças de roupa que cubram o rosto em locais públicos. França, Bélgica e outros países europeus já adotaram medidas desse tipo, embora o alcance e a base legal das regras sejam diferentes entre eles. Já o limite para estudantes estrangeiros nas salas de aula seria uma medida inédita na Europa caso seja adotado.
O Globo