O fechamento repentino de uma creche municipal com meio século de história no Centro de Florianópolis despertou a revolta de pais e responsáveis. A reação contrária à medida, que inclui mobilização digital e cobranças à prefeitura, aumentou depois da informação de que ao menos parte das crianças poderia ser transferida para uma unidade de onde uma menina de 3 anos fugiu no início do mês, em cena que repercutiu nacionalmente.
A Secretaria de Educação alega que o Núcleo de Educação Infantil Municipal (Neim) Bem-Te-Vi atende apenas 51 estudantes, enquanto a região contaria com 140 vagas ociosas. Fundada em 1981 e situada na Avenida Rio Branco, uma das principais vias centrais da capital catarinense, a creche abriga crianças de até 4 anos.
Segundo os pais, o fim das atividades foi anunciado na última segunda-feira, quando terminava o prazo para a rematrícula. Os relatos apontam que até servidores do espaço foram surpreendidos com a notícia.
— Foi uma decisão tomada sem qualquer tipo de consulta aos pais. As justificativas também não nos convenceram.
Gostamos do atendimento ali e trocar nossos filhos de colégio sem necessidade é um transtorno evitável — reclama Isabelly Victoria, mãe de uma aluna da creche. Os pais se reuniram em um grupo de WhatsApp e articulam acionar vereadores e o Ministério Público.
Uma das alternativas apresentadas aos responsáveis é transferir os filhos para o Neim Celso Ramos, também no Centro de Florianópolis. Há cerca de três semanas, no último dia 6, uma menina de 3 anos fugiu sozinha do local durante o horário escolar.
Um vídeo de câmeras de segurança que mostra a criança caminhando sozinha por uma via movimentada chegou a viralizar nas redes sociais. A Polícia Civil de Santa Catarina investiga o caso.
— Fui surpreendida ao fazer a rematrícula do meu filho e, no cadastro, apareceu outra escola. A princípio, achei que se tratava de um erro de sistema — narra outra mãe, que preferiu não se identificar.
— Quando me dei conta de que era a escola em que tinham perdido a menina, fiquei muito preocupada. Agora, a prefeitura comunicou que vai fechar a escola e nem sabemos como vai ser.
As crianças são muito bem cuidadas ali. Por nota, a Secretaria municipal de Educação informou que as crianças da creche Bem-Te-Vi "serão rematriculadas em outras unidades do Centro da cidade".
"A decisão da Prefeitura de Florianópolis visa proporcionar uma estrutura mais qualificada para a educação infantil e reordenar a demanda na região, que atualmente dispõe de 140 vagas ociosas", completa o texto. A pasta admite que uma das alternativas apresentadas aos pais é matricular os alunos na creche de onde a menina de 3 anos fugiu.
"As 51 crianças serão transferidas para os Neims Almirante Lucas Alexandre Boiteux (Avenida Mauro Ramos) e Celso Ramos (Prainha) ou para o Centro Educacional Infantil Girassol (Rua Emílio Blum), que é uma entidade conveniada da prefeitura", diz o comunicado. A secretaria afirma ainda que a rematrícula está garantida e que as crianças poderão ingressar em outros Neims "de acordo com a vontade dos familiares e disponibilidade de vagas".
A nota frisa que o Bem-Te-Vi conta com "apenas três salas de atendimento e o espaço externo, sem área verde, possui um pequeno parque". O texto conclui assegurando que "as famílias já estão cientes dessa mudança".
Os pais, entretanto, reforçam as queixas sobre a falta de diálogo e de comunicação prévia. — Independentemente de mudar alguma coisa ou não, vale divulgar e registrar a forma desrespeitosa que a prefeitura conduziu esse processo.
Passaram por cima do Conselho de Educação, desconsideraram a comunidade escolar que será impactada e não houve um prazo mínimo aceitável. Trataram nossos filhos como vagas de escola, ignorando apego emocional, ignorando as demandas dos pais e dos educadores.
Que fique registrado que é assim que a prefeitura se importa com educação — diz Jorge Gomes, pai de uma criança de 3 anos matriculada na Bem-Te-Vi.
O Globo