'Preciso de autonomia, não posso ficar preso ao agora', diz Waltercio Caldas, que completa 80 anos em 2026

 

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No livro “Manual da ciência popular”, lançado em 1982 e republicado em 2007, Waltercio Caldas incita: “Não somos obrigados a acreditar inteiramente no que vemos. Há uma dúvida que pertence à clareza.” Olhar duvidando — ou duvidar olhando — é justamente o que requerem do público as 108 obras da exposição “O (tempo)”, a ser inaugurada nesta quinta-feira (14), às 18h, na Casa Roberto Marinho, no Cosme Velho, Zona Sul do Rio, reunindo trabalhos de seis décadas de carreira de Waltercio, produzidos entre 1967 e 2025.

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Entre reflexos que “duplicam” obras, hastes de metal que, dependendo da posição do espectador, perdem a profundidade e se tornam bidimensionais, e fios que formam esculturas no ar, Waltercio revisita a produção que o assentou entre as referências da arte contemporânea brasileira, com trabalhos em instituições como o MoMA, em Nova York, o Centro Georges Pompidou, em Paris, e o Reina Sofia, em Madri. O artista diz que o tempo, circunscrito entre parênteses no título da mostra, é “matéria de trabalho”, e que se associa ao espaço nas obras que ocupam todo o térreo e o primeiro andar da Casa Roberto Marinho.

— É impossível pensar o tempo sem pensar no espaço, e vice-versa. Nesse sentido, a diversidade das obras me permitiu fazer um percurso tensionando essa relação. E, como é numa casa, pude criar ritmos diferentes em cada um dos ambientes. É uma exposição radicalmente presencial, não dá para reproduzir em imagem ou vídeo — diz Waltercio. — No meu trabalho todos os materiais são evidentes, nenhum é uma metáfora de material. Ali estão o metal, a pedra, a madeira, o fio. Busco essa evidência, e, se há algum mistério, ele está na realidade. Do fato de você estar vendo algo pela primeira vez. E, aí, talvez o trabalho burle a realidade.

Vista da exposição 'O (tempo)', na Casa Roberto Marinho

Guito Moreto

Como de costume, o artista não contou com um curador para a exposição, selecionando ele mesmo os itens expostos — a maioria vinda do acervo do instituto que leva seu nome, com poucos empréstimos de uma coleção particular.

— Gosto de ter domínio sobre a gramática do trabalho. Para mim, a montagem da exposição é uma continuidade da obra, é uma prerrogativa poética do artista trabalhar no espaço. Acho que a própria ideia de curadoria mudou de sentido com o tempo. Deixou de ser sobre a obra e mais sobre “o que eu acho da obra”. É uma mediação que, em alguns casos, até falsifica a interpretação do trabalho — comenta Waltercio, que foi um dos sete artistas curadores escolhidos para a coletiva da 33ª Bienal de São Paulo, em 2018. — Lá não precisei ser curador, bastou exercer a relação que vejo entre entre pensamento e obra. É disso que a arte fala o tempo todo.

Como nas recentes individuais, Waltercio também estabeleceu relações entre a sua produção e a Coleção Roberto Marinho, criando interações com trabalhos inéditos e obras como telas de Fernand Léger e Giorgio de Chirico. Diretor da instituição, Lauro Cavalcanti destaca como Waltercio conseguiu criar na seleção um panorama das seis décadas de carreira.

— É uma exposição com escala de casa, ele explorou muito bem os ambientes. Como obras de diferentes períodos juntas, você vê questões plásticas que atravessam o tempo e permanecem até hoje. Esse tempo suspenso pelos parêntesis do título é, na verdade, um tempo fluido — diz Cavalcanti. — Pedimos ainda para ele uma seleção de filmes que o inspiraram, que será exibida no auditório durante a mostra. São filmes de Sergio Leone, Tarkovsky, Buñuel, Orson Welles. Uma forma de trazer mais informações sobre o artista, além do que está exposto.

Relação com a palavra

Além da panorâmica no centro cultural do Cosme Velho, o artista trabalha em uma mostra para o MAM-SP, para 2027, com obras relacionadas à palavra, desde a década de 1970. Também para o ano que vem, planeja uma coletânea de textos escritos ao longo dos anos.

— Essa relação se dá também com os títulos, que são tão importantes como a matéria da obra. Muitas vezes, nascem juntos. Quase não é possível dizer onde começa um ou outro — aponta o artista, para quem a arte contemporânea não deve se restringir a seu tempo. — Preciso de autonomia, não posso ficar preso ao agora, ao acontecimento. A arte sofre de uma doença atual chamada “o assunto”. Minha obra não tem um tema. Temos que resistir a esses escândalos mediáticos, às superficialidades arrogantes, para não deixar que virem tema da obra.

'Copos azuis' (2012), de Waltercio Caldas

Divulgação/Jaime Acioli

O tempo do título também é o que leva o artista a seus 80 anos, a serem completados em 6 de novembro, encarados pela perspectiva da experiência amealhada:

— Vejo a idade como uma acumulação. Sou o garoto que fui, o adolescente que fui, o adulto que tentei ser. Com a idade, vamos ficando cada vez mais céticos. É preciso só tomar cuidado para não ficar cínico — diverte-se Waltercio.