Para eles, tamanho não é documento. Comércios que funcionam em lojinhas minúsculas, com uma única portinha — instalados às vezes em espaços de apenas 3m², que mal dão para receber um cliente por vez —, estão distribuídos por toda a cidade.
O modelo comprova que é possível começar pequeno e... continuar assim mesmo e com sucesso de vendas.
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Um exemplo tradicional é o da Bomboniere Pathe, instalada na Cinelândia desde 1928, e que nunca pensou em mudar de endereço. Chamam a atenção de quem passa pelo local as longas filas que se formam diariamente diante de um pequeno balcão instalado na calçada — falta espaço dentro do estabelecimento com menos de 10m².
O movimento começa a partir do fim da manhã e vai até a última fatia de torta, a especialidade do lugar, ser vendida. — É a quarta vez que venho aqui.
Minha meta é experimentar todos os sabores. Cada dia compro um diferente — disse na última terça-feira Letícia Suyanne, de 19 anos, que trabalha no Centro como jovem aprendiz.
Doce tradição Nesse caso, a cliente terá de voltar à bombonière outras 21 vezes, até provar todas as 25 opções disponíveis.
A trufada e a de limão são as mais vendidas, segundo Michele Trica, uma das proprietárias do negócio que nunca saiu da família. Na época em que a Praça Floriano justificava o nome de Cinelândia, pela quantidade de salas de exibição, o que se vendia por ali eram balas e bombons.
Com a aposentadoria de quase todas as telas — só restou o Odeon —, o comércio teve de se reinventar. — Nosso diferencial está na qualidade e no preço — afirma a comerciante, que cobra R$ 14 por cada fatia de torta.
O Sebrae Rio não possui um levantamento da quantidade das microlojas existentes. Porém, estudos recentes do órgão apontam que o Rio de Janeiro reúne mais de dois milhões de pequenos negócios, de todos os tipos, que representam 89,2% das empresas ativas no estado.
Restaurante da Elis Regina, que funciona em uma portinha em Botafogo Marcia Foletto / Agência O Globo
Elis Regina Pereira Bernardino Fillett, de 52 anos, que mora em Colégio, na Zona Norte, decidiu empreender há cerca de um ano e meio, após enfrentar uma doença e, depois, o desemprego. Com a ajuda de uma das filhas, que vive num bairro da Zona Sul, encontrou uma lojinha em Botafogo, na Rua General Polidoro, em frente ao Cemitério São João Batista.
Lá, abriu um restaurante de comida caseira. No ponto, cabem apenas fogão industrial, freezer e geladeira de um lado e, do outro, o balcão, além de duas mesas e algumas cadeiras.
O espaço é tão pequeno que quem quiser comer por lá mesmo tem de enfrentar fila. A maioria — trabalhadores locais — prefere pedir refeição para viagem.
— A vantagem de um espaço pequeno, no meu caso, foi a oportunidade de encontrar um aluguel que coubesse no orçamento, ainda mais na Zona Sul, onde tudo é muito caro — explicou a comerciante, que disse ter pensado inicialmente trabalhar apenas com delivery, mas mudou de ideia quando os primeiros clientes começaram a aparecer no dia da abertura da lojinha.
Memória: Arquivo Nacional e Museu da Imagem e do Som fazem campanhas para receber aparelhos de videocassete e filmes em DVD O comércio funciona de segunda a sexta-feira e vende cerca de 30 refeições por dia, sendo o maior movimento o de sexta-feira, quando é servida a feijoada, que Elis garante ser a mais saborosa do bairro.
— O inconveniente é não ter como estocar mercadorias, o que me obriga a fazer compras a cada dois dias — afirma ela, que conta com a ajuda das filhas Graziella e Gabrielle, além do genro André. Paulo Giovani Roudão, da Sapataria Paraná, no Flamengo
Marcia Foletto / Agência O Globo No Flamengo, o sapateiro Paulo Giovani Roldão, de 55 anos, recebe a clientela numa lojinha de 5m².
Os consertos são feitos na oficina no andar superior, com a mesma área, onde cabem duas máquinas para costurar os calçados, prateleiras e um balcão. — Se tivesse um espaço maior poderia atender mais pessoas e ampliar serviços, como fazer o conserto de malas — lamenta.
O profissional, que está há 12 anos no endereço, na esquina das ruas Marquês de Paraná com Senador Vergueiro, disse ter se reinventado, oferecendo consertos e lavagens de tênis, bolsas e malas. Uma de suas clientes fixas é a psicóloga Fernanda Porto Alegre, de 32 anos, moradora do bairro.
— Venho sempre aqui quando quebra o fecho de uma bolsa ou de uma mala. É perto de casa e, desde que me mudei para cá, é a ele que eu recorro — diz a cliente, que na terça-feira passada levou um tênis para lavar: o serviço sai em torno de R$ 30.
Na Rua do Catete, no bairro de mesmo nome, duas lojinhas na mesma calçada chamam a atenção pelo tamanho diminuto. Uma delas é uma franquia da La Joelheria, que vende o tradicional salgado de forno recheado com presunto e queijo.
No espaço com cerca de 10m² (equivalente a uma vaga de estacionamento), é possível manter apenas uma geladeira para as bebidas e um forninho para assar o petisco que vem congelado da fábrica, além de prateleiras e um balcão-vitrine, para expor os produtos. Quem quiser comer no local dispõe apenas de duas mesas e umas poucas cadeiras, colocadas na calçada.
— Não precisa de um espaço grande. É uma rua muito movimentada, e as pessoas acabam comprando por impulso, até porque é uma marca já conhecida — justifica Felipe Issa, sócio-proprietário da marca, criada há sete anos, e que possui outras quatro lojas em Copacabana, Botafogo, Tijuca e no Centro, todas maiores que a do Catete.
O empresário aponta o crescimento da procura pelo delivery como responsável pela busca de espaços cada vez menores por parte de quem deseja empreender. As lojas grandes, na sua avaliação, se aplicam apenas no caso de negócios que desejam oferecer uma experiência de consumo para o cliente, com atendimento em mesas.
Outro empreendimento em espaço reduzido na mesma rua é a lojinha comandada por Antônia Evelaine Rodrigues Souza, de 46 anos, conhecida como Eva, e seu irmão Rubens, de 58. Vinda do Ceará ainda jovem, ela conta que resolveu abrir o comércio de utensílios para obras e pequenos reparos — como torneiras, carrapetas, rabichos e lâmpadas — depois de anos trabalhando como doméstica.
— O fato de ser num espaço pequeno não impediu que o negócio desse certo. A gente atende a pequenas necessidades e urgências dos nossos clientes, como uma torneira que quebrou de repente e precisa ser trocada, ou uma lâmpada que queimou.
Não temos onde estocar, o jeito é comprar as mercadorias em pequenas quantidades — diz. O cliente tem sempre razão
A gerente de negócios do Sebrae Rio, Raquel Abrantes, explica que vários fatores motivam empreendedores a optar por microlojas. Entre eles está o espaço onde a pessoa consiga mostrar o produto ou serviço sem a necessidade de contar com uma grande estrutura.
Outro é um investimento em aluguel que caiba no orçamento. O passo seguinte vai depender do consumidor.
— Isso parte de um bom planejamento, que inclui da escolha do tipo de negócio a ouvir o público sobre o que espera ou sente falta — orienta ela.
O Globo