Hoje, milhões de brasileiros acordaram comemorando. Outros tantos, decepcionados.
Mas a frustração não é exclusiva da política. Ela aparece quando perdemos uma promoção, um campeonato, uma oportunidade, um amor.
Por que é tão difícil aceitar que nem tudo sai como planejamos? Parte da resposta está no cérebro.
Muito antes de sabermos o desfecho de uma situação, já começamos a imaginá-lo. Antecipamos cenários, alimentamos esperanças e nos comportamos como se determinado futuro estivesse ao alcance das mãos.
Quando ele não acontece, não perdemos apenas um resultado. Perdemos também a história que construímos sobre o que viria depois.
Um dos mecanismos envolvidos nessa diferença entre expectativa e realidade é conhecido pela neurociência como “erro de previsão de recompensa”. Circuitos cerebrais ligados à dopamina ajudam a registrar a diferença entre aquilo que esperávamos receber e o que efetivamente recebemos.
A dopamina não é simplesmente a substância do prazer, como muitas vezes se repete. Ela também participa da motivação e do aprendizado.
Quando uma recompensa esperada não chega, a atividade de determinados neurônios dopaminérgicos pode diminuir transitoriamente. Esse sinal ajuda o cérebro a atualizar expectativas, mas não explica, sozinho, a tristeza de uma perda.
A frustração, aliás, raramente vem sozinha. Pode trazer raiva, sensação de injustiça, vergonha, medo ou perda de controle.
Quanto mais importante era aquele resultado para nossa identidade, maior pode ser o impacto. Uma derrota esportiva pode significar pouco para alguém e estragar a semana de outro.
O significado que atribuímos ao acontecimento também pesa. Existe ainda uma armadilha capaz de prolongar esse desconforto: a ruminação.
É quando a mente retorna repetidamente ao sofrimento, às suas causas e consequências, de maneira difícil de interromper e sem avançar para uma solução. “E se tivesse sido diferente?” “Como deixaram isso acontecer?” “Por que comigo?” Pesquisas associam esse padrão de pensamento à manutenção de emoções negativas e a maior vulnerabilidade à ansiedade e à depressão.
Refletir sobre uma experiência pode ajudar a aprender. Revivê-la indefinidamente, sem produzir uma nova compreensão ou ação, costuma só desgastar.
E o que fazer quando a decepção chega? Primeiro, não exigir de si mesmo uma serenidade imediata. Frustrar-se é uma reação humana, não um defeito de caráter.
Dar nome ao que se sente, conversar com alguém de confiança e preservar sono, alimentação e atividade física podem ajudar a atravessar momentos difíceis. Se a sequência de notícias, mensagens e discussões estiver aumentando o sofrimento, fazer uma pausa pode ser útil.
Há também uma estratégia estudada pela psicologia chamada reavaliação cognitiva: olhar para o acontecimento por outro ângulo, sem fingir que ele foi bom. Em vez de pensar “essa derrota acabou com todas as minhas possibilidades”, reconhecer que “esse resultado é importante, mas não define todo o meu futuro”.
Pesquisas mostram que mudar a interpretação de uma situação pode ajudar a regular a resposta emocional. A partir daí, vale perguntar: o que ainda posso fazer?
Aceitação também não é passividade. Podemos lamentar uma perda e continuar defendendo ideias, buscando soluções ou trabalhando por mudanças.
Aceitar um fato não significa concordar com ele. Significa reconhecer que ele aconteceu.
A energia gasta tentando reescrever mentalmente o passado pode ser usada para decidir o próximo passo. Nesta segunda-feira, o país continuará com suas diferenças.
É possível discordar profundamente de alguém sem transformar essa pessoa em inimigo. Talvez este também seja um teste de maturidade coletiva: entender que conviver não exige pensar igual e que a frustração de uns não precisa ser motivo de humilhação por outros.
Frustração é o espaço entre o futuro que imaginamos e aquele que realmente aconteceu. Nem sempre podemos escolher o tamanho desse espaço.
Mas podemos aprender a não morar nele para sempre.
O Globo