Por que os boatos de morte perseguem a família de Kim Jong-un?

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Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

Kim Jong-un voltou a ser dado como morto nas redes sociais. A versão mais recente afirma que o líder norte-coreano teria sofrido uma hemorragia cerebral, sido levado a Pequim e morrido durante o tratamento. Não foram apresentadas provas que sustentem o relato. Autoridades sul-coreanas disseram não ter recebido informações que confirmassem a história. Em meio à circulação do boato, a agência estatal norte-coreana KCNA publicou, ontem, dia 20, fotografias de Kim numa exposição de roupas e calçados em Pyongyang. Segundo a agência, a visita ocorreu na véspera, com a mulher, Ri Sol-ju, e a filha, Kim Ju-ae. Numa das imagens, ele se inclina para observar um par de sapatos infantis cor-de-rosa. A data em que as fotos foram feitas não pôde ser verificada de forma independente.

As alegações partiram de publicações de Wanjun Xie, dissidente chinês que vive nos Estados Unidos, e foram reproduzidas por veículos internacionais. Xie não apresentou prontuários, testemunhos verificáveis ou outros elementos que comprovassem a suposta emergência médica. A história ainda deu origem a conjecturas sobre uma transferência de poder para a filha ou para a irmã de Kim, Kim Yo-jong. O episódio se soma a uma sequência de falsos alarmes que atravessa três gerações da mesma família. Muito antes de Kim Jong-un assumir o comando do país, seu avô e seu pai já haviam sido alvo de notícias de morte que acabaram desmentidas. O sigilo sobre a saúde dos dirigentes ajuda a explicar por que essas histórias se repetem.

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Em novembro de 1986, circularam relatos de que o fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung, havia sido assassinado. Algumas versões apontavam bandeiras a meio mastro em regiões próximas à fronteira com o Sul como sinal de luto. Pouco depois, ele apareceu em público. Morreu em julho de 1994. Em setembro de 2008, foi a vez de Kim Jong-il, pai do atual governante. Sua ausência nas comemorações dos 60 anos de fundação da Coreia do Norte provocou suspeitas de doença grave e de morte. Na época, acreditava-se que ele tivesse sofrido um derrame, o que dava fundamento às preocupações com sua saúde. As versões que anunciavam seu falecimento, porém, anteciparam-se  aos fatos. Kim Jong-il continuou no poder por mais de três anos.

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Com Kim Jong-un, uma ausência de cerca de 40 dias, entre setembro e outubro de 2014, desencadeou especulações sobre uma doença grave e até uma crise na liderança. Ele reapareceu com uma bengala. O afastamento foi atribuído a problemas na perna ou nas articulações. Um dos episódios de maior repercussão viria em abril de 2020. Kim deixou de aparecer em público e faltou às homenagens pelo aniversário de nascimento de Kim Il-sung. A ausência alimentou relatos sobre uma cirurgia cardiovascular e versões segundo as quais ele estaria em estado crítico ou já teria morrido.

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As especulações chegaram à política sul-coreana. Thae Yong-ho, ex-diplomata norte-coreano recém-eleito para o Parlamento do Sul, sugeriu que Kim estava incapacitado e não conseguia ficar em pé ou caminhar normalmente. Outro desertor também eleito deputado, Ji Seong-ho, declarou em 1º de maio que tinha 99% de certeza de que o líder havia morrido. Disse ao jornal Chosun Ilbo que suas informações vinham de fontes dentro da Coreia do Norte. No dia seguinte, a mídia estatal divulgou fotografias e vídeos de Kim na inauguração de uma fábrica de fertilizantes em Sunchon. A cerimônia havia ocorrido em 1º de maio. Depois de quase três semanas fora de vista, ele aparecia caminhando e participando do evento. Os dois parlamentares enfrentaram críticas pela divulgação das afirmações sem comprovação.

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Em maio de 2025, surgiu outra história: Kim teria perdido a consciência durante uma visita de inspeção a Wonsan. A alegação circulou em meios diplomáticos e financeiros, mas também não se comprovou. A repetição tem relação com a dificuldade de saber o que acontece com a liderança norte-coreana. O governo controla as informações sobre a saúde dos dirigentes, seus compromissos públicos e os planos de sucessão. Sem boletins médicos regulares e sem acesso independente ao governante, uma ausência numa cerimônia pode dar origem a hipóteses de doença ou de disputa pelo poder.

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As preocupações com a saúde de Kim também alimentam esse ambiente. Em 30 de setembro, o serviço de inteligência sul-coreano informou a parlamentares que ele pesava mais de 140 quilos e apresentava risco elevado de doenças cardiovasculares. A mesma avaliação, no entanto, não apontou sinais aparentes de problemas graves. A agência destacou sua mobilidade e o acompanhamento por uma equipe médica. As mortes reais dos antecessores mostram o grau de controle sobre esse tipo de informação. Quando Kim Il-sung morreu, em 1994, Pyongyang levou mais de um dia para divulgar a notícia. Em dezembro de 2011, a morte de Kim Jong-il só foi anunciada quase dois dias depois. Nas duas ocasiões, o restante do mundo soube do falecimento quando o regime decidiu torná-lo público.

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