Por que o Oriente Médio virou parada obrigatória na expansão global das empresas de tecnologia

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Durante muito tempo, o caminho mais natural para uma empresa de tecnologia que desejasse se internacionalizar passava pelos Estados Unidos e pela Europa. Esses mercados continuam fundamentais, mas a geografia econômica e tecnológica do mundo se tornou mais complexa. Ásia, América Latina e, mais recentemente, Oriente Médio passaram a ocupar posições relevantes na disputa por investimentos, talentos, tecnologia e inovação. Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita são bons exemplos dessa mudança. Os dois países vêm utilizando a capacidade de investimento construída nas últimas décadas para acelerar a diversificação de suas economias. O petróleo continua importante, evidentemente, mas já não explica sozinho as ambições da região. Infraestrutura digital, inteligência artificial, serviços financeiros, indústria, turismo, energia e formação de talentos passaram a fazer parte de projetos nacionais de longo prazo. Na Arábia Saudita, a economia digital já representa 16% do PIB, enquanto o mercado de tecnologia da informação e comunicação alcançou US$ 53 bilhões ao final de 2025, o que representa uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 8% nos cinco anos anteriores. Nos Emirados Árabes Unidos, a estratégia nacional prevê praticamente dobrar a participação da economia digital no PIB em dez anos. São movimentos que ajudam a explicar por que o Golfo deixou de ser apenas um mercado consumidor de tecnologia para se tornar também um polo de investimento e desenvolvimento de novos negócios. Esse cenário colocou o Oriente Médio no radar do nosso projeto de expansão. Depois de uma trajetória que levou uma empresa de origem brasileira a atender clientes em mais de 100 países, avaliamos investimentos, parcerias e joint ventures principalmente nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita. Diante disso, uma pergunta aparece com frequência: por que continuar se internacionalizando quando já se alcançou uma presença global relevante? A experiência mostra que internacionalização não pode ser medida apenas pelo número de países onde uma companhia atua ou pela parcela da receita obtida no exterior. Existe uma dimensão menos visível e talvez mais importante: estar exposto a diferentes economias aumenta a capacidade de uma organização perceber mudanças, incorporar conhecimento e responder a novos ciclos de crescimento. Essa é uma vantagem particularmente importante em tecnologia. A inovação deixou de ter um endereço preferencial. O Vale do Silício mantém enorme relevância, mas novas soluções, empresas e modelos de negócio surgem hoje em diferentes partes do mundo. A Índia se consolidou como um grande polo de talentos e serviços digitais. A China desenvolveu ecossistemas próprios em áreas como pagamentos, comércio eletrônico e inteligência artificial. A América Latina produziu experiências relevantes em serviços financeiros digitais. E o Golfo começa a ocupar um espaço cada vez maior nessa nova geografia da inovação. Uma empresa global precisa acompanhar esses movimentos não apenas para encontrar clientes, mas também para entender como diferentes economias estão respondendo às transformações tecnológicas. Esse talvez seja um dos principais aprendizados acumulados pelo Grupo Stefanini ao longo de sua internacionalização. Uma experiência desenvolvida para um banco latino-americano pode contribuir para um projeto no Oriente Médio; o conhecimento adquirido em uma operação industrial europeia pode ser aplicado em outra geografia; uma competência incorporada na Ásia pode fortalecer entregas nos Estados Unidos. O valor da presença internacional aumenta quando o conhecimento consegue circular pela organização. O desafio é fazer isso sem cair na tentação de padronizar excessivamente os mercados. Depois de atuar em geografias muito diferentes, fica evidente que não existe uma receita universal para internacionalização. As soluções tecnológicas podem ganhar escala, mas a maneira de construir negócios continua profundamente influenciada pelas características de cada país. Esse aspecto é especialmente relevante no Oriente Médio, onde grandes grupos empresariais têm atuação diversificada e presença importante em setores prioritários para os planos de desenvolvimento econômico. Por isso, nossa estratégia inclui avaliar possíveis joint ventures e parcerias com grupos dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita. A ideia é combinar conhecimento local com a experiência internacional de uma organização que hoje reúne sete unidades de negócios e 23 centros estratégicos de entrega em cinco continentes. Há ainda uma convergência entre as prioridades econômicas da região e as transformações que estão redefinindo o setor de tecnologia. A inteligência artificial é provavelmente a mais evidente delas. Depois da popularização da IA generativa, praticamente todas as empresas passaram a discutir como incorporar a tecnologia aos negócios. Agora, o debate entra em uma fase mais madura. A pergunta já não deveria ser simplesmente onde colocar inteligência artificial, mas onde ela efetivamente produz retorno, melhora a produtividade, reduz custos, amplia receitas ou transforma a experiência dos clientes. Esse pragmatismo encontra terreno fértil no Oriente Médio. Os investimentos realizados na região abrem oportunidades em áreas nas quais a inteligência artificial já demonstra aplicações concretas. Na indústria, modelos preditivos podem contribuir para manutenção, qualidade, eficiência energética e produtividade. Em serviços financeiros, existem aplicações em prevenção a fraudes, segurança e personalização. Em grandes organizações, a combinação de inteligência artificial e dados pode automatizar processos, ampliar a capacidade de análise e apoiar decisões mais rápidas. Talvez esteja justamente aí uma das características mais interessantes do atual momento do Oriente Médio. A região não está apenas digitalizando processos existentes. Em várias áreas, está construindo novas estruturas econômicas ao mesmo tempo em que tecnologias como inteligência artificial, cloud, automação e analytics atingem outro estágio de maturidade. Isso pode permitir avanços mais rápidos em determinadas frentes. Economias maduras muitas vezes precisam conciliar inovação com décadas de sistemas legados, processos e estruturas organizacionais. Países que estão desenvolvendo novas indústrias, serviços e infraestruturas têm, em alguns casos, a possibilidade de incorporar tecnologias recentes desde a concepção dos projetos. Naturalmente, disponibilidade de capital e acesso à tecnologia não garantem transformação. Será necessário desenvolver talentos, estabelecer modelos de governança, adaptar soluções às características culturais e regulatórias de cada mercado e, principalmente, converter grandes investimentos em resultados sustentáveis. É justamente nessa passagem da ambição para a execução que empresas com experiência internacional podem desempenhar um papel relevante. Estados Unidos e Europa continuarão ocupando espaços centrais na economia global. Mas a próxima fase da internacionalização exigirá um mapa mais amplo. Para empresas de tecnologia, compreender o que está acontecendo no Golfo não significa apenas buscar novos mercados. Significa estar presente onde uma parte relevante do futuro dos negócios está começando a ser construída. Mais Lidas

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