Na última segunda-feira, o alemão Alexander Zverev, de 29 anos, tornou-se oficialmente o número 1 do ranking mundial da Associação dos Tenistas Profissionais. É o segundo alemão depois de Boris Becker e o segundo mais velho a chegar lá pela primeira vez.
A temporada foi a melhor de sua vida: venceu Roland Garros, em junho, e o US Open, em setembro, os dois primeiros Grand Slams da carreira. A subida também foi facilitada pela ausência do italiano Jannik Sinner, que encerrou o ano mais cedo por causa de uma inflamação no joelho.
Mas há um detalhe que transforma a conquista em algo maior que o esporte: Zverev convive com diabetes tipo 1 desde os 4 anos de idade. Duas partidas ao mesmo tempo
Na final em Nova York, as câmeras flagraram o tenista aplicando insulina com uma caneta na própria coxa, em pleno quarto set. Nas trocas de lado, ele consulta um celular que recebe as leituras de um sensor de glicose preso à pele.
Zverev costuma dizer que disputa dois jogos: um contra o adversário, outro contra as oscilações do açúcar no sangue. Em um texto publicado no site oficial do circuito, contou que aos 6 anos já cuidava sozinho da doença na escola e que médicos disseram à família que o esporte de alto nível seria quase impossível.
A mãe saiu do consultório decidida: o filho seria o que quisesse. Por anos, ele escondeu o diagnóstico.
Em 2022, criou uma fundação para ajudar crianças com diabetes e falou publicamente pela primeira vez. Continua após a publicidade
Como era há 25 anos Uma criança diagnosticada com diabetes tipo 1 no início dos anos 2000 tinha à disposição basicamente a insulina NPH e a regular, aplicadas com seringa, em horários rígidos e com refeições cronometradas para acompanhar o pico do remédio.
A glicemia era medida com picadas no dedo, poucas vezes ao dia. O exame de hemoglobina glicada, a cada três meses, dava apenas uma média, uma fotografia borrada do que tinha acontecido.
A hipoglicemia noturna era o grande fantasma das famílias. O que mudou
Primeiro vieram as insulinas análogas: as de ação prolongada, que funcionam como um pano de fundo estável por 24 horas, e as ultrarrápidas, que acompanham melhor as refeições. Até insulina inalável de ação ultra rápida foi lançada nesse período.
Continua após a publicidade Depois chegaram os sensores de glicose, que substituem boa parte das picadas e mostram não só o número, mas a direção: se o açúcar está subindo, caindo ou estável.
Foi a virada mais importante da década. O passo seguinte une sensor e bomba de insulina, guiados por um algoritmo que ajuda no ajuste de dose de insulina quase automaticamente, sem ajuda do próprio paciente.
No horizonte tivemos a aprovação do teplizumabe para adiar o diagnóstico em pessoas de alto risco de desenvolver diabetes tipo 1 (glicose levemente aumentada, na faixa do pré-diabetes mas com anticorpos positivos) com o intuito de retardar em média 2 anos no diagnóstico clínico e no uso de insulina.
Continua após a publicidade Ninguém precisa ser número 1
Se você tem diabetes tipo 1 e chegou até aqui, um recado de quem acompanha pacientes há muitos anos: você não precisa ser o número 1 em nada. A história de Zverev emociona, mas o risco é transformar a exceção em régua.
O que define o futuro de quem convive com a doença não é recorde, é constância. Os grandes estudos de longo prazo mostram que manter a glicose controlada ao longo dos anos reduz de forma consistente as complicações nos olhos, nos rins, nos nervos e no coração.
E as metas modernas vão além da média: o consenso internacional recomenda passar mais de 70% do dia entre 70 e 180 mg/dL, menos de 4% abaixo de 70 e oscilar pouco. Uma glicada bonita pode esconder uma montanha-russa de picos e quedas.
O ideal é o oposto: ficar no meio da estrada, sem altos nem baixos. Continua após a publicidade
No diabetes, o campeão é o gráfico entediante, aquela linha quase reta que ninguém fotografa. Zverev disse que seria a pessoa mais feliz do mundo se surgisse outro número 1 com diabetes.
Talvez a vitória mais bonita seja outra: milhões de pessoas anônimas, longe de qualquer pódio, vivendo dias tranquilos, estáveis e longos. Publicidade
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