Por que o algoritmo parece colocar o eleitor dentro de uma bolha política

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Quem apoia determinado candidato costuma se deparar com mais frequência com conteúdos favoráveis a eleVinícius Lemos Em meio às eleições, muitas pessoas passaram a relatar a sensação de que discutem ou até brigam sobre política com indivíduos que não recebem as mesmas informações que elas. Segundo especialistas, isso tem relação com a forma como as redes sociais selecionam e distribuem conteúdos.As plataformas costumam favorecer a formação de bolhas, nas quais os usuários são expostos com maior frequência a publicações semelhantes àquelas que demonstram interesse. Assim, quem apoia determinado candidato costuma se deparar com mais frequência com conteúdos favoráveis a ele.A seleção de conteúdos é feita por sistemas de recomendação que utilizam algoritmos para identificar padrões de comportamento e definir quais publicações devem gerar mais interesse em cada usuário."Esse algoritmo é uma fórmula que customiza aquilo que o usuário vê em uma determinada plataforma. Ele é customizado para que o indivíduo passe o máximo de tempo ali e consuma cada vez mais, por isso são oferecidos conteúdos que ele tenha prazer em acompanhar", explica o pesquisador Emilio Alves DON, que estudou os algoritmos e a opinião pública durante doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP)."Passamos meses nos alimentando de determinadas informações, inclusive sobre política, achando que aquilo que recebemos é o mesmo que a maioria das pessoas recebe, mas não é. Estamos recebendo conteúdos muito específicos, conforme o comportamento de cada um", acrescenta DON.Essas bolhas criam uma forma de "realidade paralela", diz a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV). "Às vezes, alguém diz: ‘Na minha bolha, estou achando que determinado candidato está ganhando'. E mesmo se as pesquisas mostrarem o contrário, a pessoa diz: ‘Pela sensação que tenho, acho que meu candidato está ficando cada vez mais forte, está crescendo'", comenta.O modo como os algoritmos funcionam não é revelado pelas plataformas. Pesquisadores dizem que essas ferramentas são como "segredos industriais" dessas empresas de tecnologia.A reportagem procurou as plataformas mais utilizadas no país para entender sobre os algoritmos em tempos eleitorais. O TikTok, o Google – também responsável pelo YouTube – e a Meta – dona do Facebook, Instagram e WhatsApp – não quiseram comentar sobre o tema. O X, antigo Twitter, não respondeu ao e-mail com os questionamentos."Sensação de conforto"Os algoritmos das plataformas têm o objetivo de manter as pessoas confortáveis nas redes, diz Luiz Alberto de Farias, professor de opinião pública na Universidade de São Paulo (USP). "O ser humano adora uma situação de conforto. Um desses desejos é o conforto opinativo. Sentir-se coberto por uma razão majoritária é algo que dá prazer às pessoas. Em função disso, as programações algorítmicas entregam às pessoas aquilo que elas normalmente já consomem."O professor da USP diz que as bolhas levam a "verdades convenientes", que são entregues pelo algoritmo na tentativa de, muitas vezes, agradar o usuário. "Isso é um presente de grego, porque passamos a não enxergar necessariamente a realidade. Eu diria que passamos a viver um certo nível de psicose. Isso dá conforto, dá felicidade, dá uma sensação boa. É uma espécie de pílula da felicidade", afirma.Nas redes, essas bolhas podem surgir em relação a diferentes temas, a partir daquilo que o usuário consome com mais frequência. No período eleitoral, elas tendem a ficar mais evidentes. "O algoritmo constrói um perfil a partir daquilo que você oferece para ele, seja uma predisposição a conteúdos progressistas ou conservadores", diz Farias.Em meio ao grande volume de informações nas redes, os algoritmos podem selecionar e apresentar uma mesma notícia de maneiras diferentes, conforme os interesses e o comportamento do usuário.Essa exposição a inúmeros conteúdos que reforçam os pensamentos do usuário pode levar a dificuldades para ouvir o contraditório. "O usuário vai se distanciando da leitura contrária. É como se fosse se aprofundando em uma bolha na qual passa a ter contato apenas com os argumentos daquele grupo, sem ter acesso a outros argumentos. Isso torna a pessoa cada vez mais dura e, às vezes, vai reduzindo a tolerância dela aos argumentos contrários", explica Veiga.A cientista política afirma que essa segmentação de conteúdo mudou até mesmo a forma como as campanhas se comunicam com os eleitores. "Antes, você elaborava uma campanha para a televisão na qual você tinha que fazer um denominador comum em que todo mundo te escutava, não tinha fragmentação. Hoje, com essa questão das bolhas, você pode fazer campanhas com o que aquelas bolhas querem. É possível alcançar o eleitor de maneira muito específica", diz.Os riscos do algoritmoQuando se fala em algoritmo, os especialistas destacam os riscos desse tipo de ferramenta. Por trás do que é oferecido pelas plataformas aos usuários, há detalhes que não são abertos pelas empresas. "De uns tempos para cá, é comum usarmos expressões como ‘o algoritmo decidiu'. Isso, na verdade, também é uma sensação de naturalização do controle que as empresas têm. Dá a impressão de que foi o algoritmo que decidiu entregar alguma coisa, mas existe uma programação por trás desse algoritmo", explica Farias.As plataformas têm interesses financeiros, diz Veiga, o que pode fazer com que discursos com mais engajamento, que costumam gerar mais monetização, ganhem maior destaque. "É muito importante pensar nessa perspectiva de que não se trata apenas de uma plataforma neutra em que quem fala mais é quem acaba ecoando mais. Atrás disso há questões que ainda são muito pouco transparentes."Nos últimos dias, a Meta esteve no centro de uma denúncia da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A equipe do petista acusou a empresa de favorecer o adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL). A empresa nega essas acusações.Os especialistas avaliam que é difícil comprovar que houve alguma ação para beneficiar Flávio, principalmente porque os detalhes sobre os algoritmos não são abertos. Para especialistas, esse caso reacende o debate sobre a regulamentação dessas plataformas no país, uma discussão que se arrasta há anos, mas avançou pouco."Em termos de regulamentação das redes, sempre se pede mais transparência em relação a como os conteúdos são distribuídos e tudo mais. A lógica é sempre a de ampliar a transparência, que consideramos muito importante para que possamos ter um debate mais saudável de comunicação nas redes sociais", diz Veiga. "A regulação das plataformas digitais é uma coisa fundamental, porque elas têm impactado a própria continuidade da democracia", acrescenta.Farias diz que é necessário algum tipo de lei para definir como essas plataformas podem disseminar informações, além de uma fiscalização da forma como elas controlam os conteúdos compartilhados pelos usuários. "Sabemos que, muitas vezes, essas organizações são lenientes e, às vezes, intencionalmente lentas, porque conteúdos danosos geram visualizações, lucro e retorno."Para Farias, a regulamentação tornará os mecanismos das redes mais claros, mas não mudará a sensação de bolha, já que os usuários devem continuar acessando e recebendo os conteúdos baseados naquilo que demonstram mais interesse.

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