247 – A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e seus sindicatos filiados criticaram a condução do debate eleitoral entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) promovido pela TV Bandeirantes neste domingo (18), e cobraram mudanças nas regras dos confrontos entre candidatos para combater a desinformação. Em nota divulgada nesta segunda-feira (19), as entidades afirmaram que o formato adotado pela emissora privilegiou provocações, ataques e estratégias de espetáculo em detrimento da apresentação de propostas e do esclarecimento dos eleitores.
No documento, intitulado Debate eleitoral não é espetáculo. Jornalismo exige compromisso com a verdade e a democracia!, a Fenaj questiona a responsabilidade editorial da Band e a ausência de mecanismos que garantam respostas às perguntas e permitam confrontar informações falsas. A entidade também defende que as emissoras assumam um papel mais ativo na mediação dos debates, com prioridade para a informação e o interesse público.
Para a federação, o encontro de domingo deixou de cumprir parte de sua função jornalística ao abrir espaço para disputas marcadas por ataques e frases de efeito, em vez de concentrar a discussão nas propostas dos candidatos.
“O jornalismo não pode ser refém da lógica do espetáculo, da audiência a qualquer preço ou das estratégias de candidatos que desprezam o diálogo democrático. Quando perguntas não são respondidas, afirmações falsas deixam de ser confrontadas e argumentos são substituídos por encenações, quem perde é a população brasileira.”
Fenaj questiona regras e responsabilidade editorial da Band
A entidade reconheceu a trajetória dos jornalistas responsáveis pela mediação, mas direcionou suas críticas às decisões editoriais da emissora e às normas que orientaram o confronto.
Segundo a federação, oferecer o mesmo tempo de exposição aos participantes não basta para assegurar a qualidade jornalística de um debate. As empresas também precisam garantir que os candidatos respondam às perguntas e apresentem informações que o público possa verificar.
A nota estabelece uma distinção entre o respeito à pluralidade política e a reprodução de declarações sem sustentação factual. “Liberdade de expressão não significa liberdade para transformar um debate jornalístico em instrumento de manipulação. E pluralidade não significa conceder às mentiras o mesmo tratamento dispensado aos fatos.”
A Fenaj sustenta que os profissionais de imprensa devem questionar versões, contextualizar acontecimentos e exigir esclarecimentos dos candidatos. Na avaliação da entidade, a ausência de intervenção diante da desinformação pode conferir legitimidade a afirmações falsas. “A neutralidade diante da desinformação não representa imparcialidade. Ao contrário, pode contribuir para sua legitimação.”
Entidade critica espaço para ataques e ausência de propostas
Outro ponto da manifestação diz respeito à seleção dos assuntos e à forma como os candidatos conduziram suas intervenções. A federação avalia que o debate abriu espaço para slogans e ataques pessoais, enquanto questões relacionadas às condições de vida da população perderam importância.
Entre os temas que, segundo as entidades, deveriam ocupar o centro da discussão estão saúde, educação, emprego, renda, desigualdade, segurança, soberania nacional, meio ambiente e direitos sociais.
A Fenaj também critica a transformação dos confrontos eleitorais em eventos voltados à produção de vídeos curtos para circulação nas redes sociais. “O futuro do país exige propostas concretas, não encenações destinadas à produção de cortes para as redes sociais.”
Jornalistas defendem mudanças nos próximos debates
Diante das críticas, a Fenaj e os sindicatos propõem uma revisão dos modelos que as emissoras utilizam nos encontros eleitorais. As entidades defendem regras que obriguem os participantes a apresentar respostas objetivas e permitam a intervenção editorial quando houver divulgação de informações comprovadamente falsas.
Também cobram mecanismos de responsabilização em casos de descumprimento das normas previamente estabelecidas. A federação ressalta que essas medidas não representam uma tentativa de impedir o contraditório ou interferir nas escolhas políticas dos cidadãos. Segundo o documento, a finalidade é assegurar o acesso a informações de qualidade durante o processo eleitoral.
“Não se trata de restringir o contraditório ou tutelar o pensamento dos eleitores, mas de assegurar o direito constitucional à informação de qualidade e impedir que a desinformação comprometa a liberdade de escolha.”
Federação cobra compromisso com a democracia
A manifestação também apresenta uma crítica à subordinação da atividade jornalística aos interesses comerciais das empresas de comunicação. A Fenaj afirma que emissoras, jornalistas e organizações representativas devem reafirmar os princípios éticos da profissão, especialmente durante períodos eleitorais, quando os debates podem influenciar a compreensão dos eleitores sobre os projetos apresentados pelos candidatos.
“A informação é um direito da sociedade, não uma mercadoria subordinada aos interesses comerciais ou à busca de audiência”, continuou a federação.
Ao encerrar o documento, a federação reafirma seu compromisso com a liberdade de imprensa, a ética profissional, o direito à informação e a defesa da democracia. “Debate eleitoral não é entretenimento. Jornalismo não é espetáculo. Democracia não se constrói com mentiras. A sociedade brasileira merece debates à altura de seus desafios. E o jornalismo tem o dever de estar à altura de sua responsabilidade.”
Brasil 247