Por que Goiás e Vietnã podem ensinar mais sobre IA ao Brasil do que EUA e China? Ronaldo Lemos e Anderson Soares explicam

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Fonte da notícia: Epoca Negócios Epoca Negócios

Quando se discute o que o Brasil precisa fazer para ganhar espaço na corrida da inteligência artificial, as referências quase sempre são as mesmas: Estados Unidos e China. Para Ronaldo Lemos, advogado e cofundador do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), talvez seja hora de olhar também para exemplos bem mais próximos da realidade brasileira – como Goiás e Vietnã. A avaliação foi feita nesta terça-feira (16), durante o painel “O que só a conexão entre setor privado, público e academia resolve?”, realizado no evento Vale do Silício @ Brasil, promovido pelo Brazil at Silicon Valley, em São Paulo. Ao lado de Anderson Soares, vice-presidente de IA da AI Brasil e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Lemos argumentou que um dos principais obstáculos brasileiros não é necessariamente a ausência de capacidade tecnológica, mas a dificuldade de transformar iniciativas isoladas em uma estratégia coordenada e duradoura. “O que diferencia o Brasil da Ásia é que lá eles têm um plano e executam o plano. O Brasil até é bom de fazer plano. Eu mesmo já ajudei o governo federal e outros a elaborar vários planos de desenvolvimento tecnológico. O plano morre no dia seguinte em que ele é publicado”, afirmou Lemos. O primeiro exemplo veio de dentro do próprio Brasil. Soares contou que, antes de 2019, pesquisadores ligados à UFG já desenvolviam projetos de pesquisa e desenvolvimento com empresas. A mudança de escala começou quando o governo de Goiás decidiu financiar a criação do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA). Segundo Soares, atualmente 101 empresas mantêm contratos de P&D com o CEIA. Dados publicados em 2025 já mostravam a dimensão do crescimento: naquele momento, o centro havia captado R$ 269 milhões e trabalhava com 93 empresas.

Para Lemos, o caso é relevante porque o movimento não ficou restrito ao financiamento de um centro acadêmico. Goiás posteriormente transformou a IA em política pública.

Em maio de 2025, o estado sancionou a Lei Complementar nº 205, que criou a Política Estadual de Fomento à Inovação em Inteligência Artificial. Entre outros pontos, a legislação prevê incentivo a modelos abertos, colaboração entre empresas, universidades e governo, uso de energias renováveis em infraestrutura digital, sandboxes regulatórios, um centro estadual de computação aberta e introdução da IA na educação pública.

Ronaldo Lemos e Anderson Soares, durante Vale do Silício @ Brasil Divulgação, Monking Lemos participou da elaboração da iniciativa e defendeu no painel que regulação e política industrial precisam caminhar juntas. “O Brasil não pode cometer o erro de divorciar a discussão regulatória de uma discussão de política industrial.” Na avaliação dele, uma legislação sofisticada terá alcance limitado caso o país não desenvolva capacidade própria de pesquisa, infraestrutura e aplicação da tecnologia. “A gente pode ter uma lei de IA fantástica, que não vai servir para nada se a gente não tiver capacidades locais, pelo menos mínimas, de articular tecnologia de IA no Brasil.” E o que o Vietnã tem a ver com isso? Foi ao discutir o futuro dessa estratégia que Lemos puxou um exemplo muito mais distante geograficamente, mas que considera relevante para o Brasil: o Vietnã. Para ele, países asiáticos como o Vietnã oferecem uma referência interessante justamente porque estão tentando construir uma posição própria na economia tecnológica global em vez de simplesmente reproduzir o modelo americano ou chinês. “Minha angústia é que países da Ásia, como é o caso do Vietnã, têm um plano”, afirmou. O movimento vietnamita já atraiu uma das empresas centrais da atual corrida da IA. Em dezembro de 2024, a Nvidia anunciou a abertura de seu primeiro centro de pesquisa e desenvolvimento no país, dedicado a inteligência artificial e desenvolvimento de software, em parceria com o governo vietnamita. O acordo também incluiu um centro de dados para IA. A aposta se apoia também na formação de mão de obra. No PISA 2022, estudantes vietnamitas alcançaram média de 469 pontos em matemática, próxima da média de 472 pontos da OCDE e bastante acima do desempenho brasileiro.

Lemos chamou atenção ainda para uma característica geopolítica do país: depois de conflitos históricos tanto com Estados Unidos quanto com China, o Vietnã procura desenvolver sua estratégia sem simplesmente se tornar uma extensão de uma das duas potências. A mensagem, segundo ele, vale para o Brasil: não é necessário escolher entre copiar o Vale do Silício ou reproduzir a estratégia chinesa. O argumento também passa por reconhecer capacidades que o Brasil já possui. Lemos citou durante o painel exemplos como a linguagem de programação Lua, criada na PUC-Rio, a Embraer e diferentes polos de pesquisa espalhados pelo país. O problema, acrescentou, é que ela continua fragmentada. “Tem muita coisa no Brasil, só está desarticulada. Nós não temos um plano de futuro sobre onde a gente quer chegar. A nossa inovação é acidental.” Mais Lidas

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