País registra 86 tornados no ano, mas não tem alertas específicos para o fenômeno, nem antecipa ocorrências com precisão

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

De janeiro a agosto, o Brasil contabilizou 86 tornados, segundo maior número já registrado, atrás apenas de 2025, quando foram 147 ocorrências. Na última década, a Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas (Prevots) somou mais de 500 tornados no país. Avanços tecnológicos explicam parte do aumento da contagem, mas cientistas também investigam como o El Niño e a mudança climática têm potencializado as ocorrências, em especial na região Sul, onde a incidência de eventos extremos é maior. Meio Ambiente: Com impacto do El Niño chegando, 10% da área do Brasil já está em alerta para seca 'Ouro invisível': Justiça determina rastreamento físico de cassiterita para barrar minerais ilegais da Amazônia no mercado global Embora os registros tenham melhorado, o monitoramento de tornados no país ainda precisa de mais integração, treinamento e tecnologia para acompanhar as tempestades em tempo real e emitir alertas, segundo especialistas e técnicos ouvidos pelo GLOBO. Hoje, a Defesa Civil Nacional e os órgãos federais de monitoramento, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), não geram alertas específicos para tornados. O Centro-Sul do Brasil integra o corredor de tornados da América do Sul, que inclui São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, parte da Argentina e Uruguai e tem uma das maiores incidências do mundo, atrás apenas do sul dos Estados Unidos. Isso ocorre porque a barreira física da Cordilheira dos Andes, no oeste do continente, “empurra” a umidade da Amazônia para a região, onde ela se choca com o ar frio da Antártida. — A ocorrência de tornados depende da variação do vento próximo ao solo e de mudanças de direção e intensidade a menos de um quilômetro da superfície — diz Murilo Lopes, meteorologista da UFSM e da Prevots, iniciativa de instituições como a Universidade Federal de Santa Maria e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nem todo ano de El Niño coincide com um pico de tornados, mas o fenômeno favorece as ocorrências: o aquecimento do Pacífico aumenta a umidade no corredor e intensifica as condições para a formação de tornados no Sul. Estudos também indicam uma tendência de aumento de tempestades severas na região considerada provável efeito da mudança climática. — Se o planeta está mais quente, a atmosfera fica mais úmida e isso se traduz em tempestades. Então, sim, a mudança do clima deve gerar mais eventos extremos como os tornados — diz o climatologista Francisco Aquino, do Centro Polar e Climático da Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Formação rápida Para identificar tempestades severas, cientistas combinam imagens de satélites, radares meteorológicos e sistemas de detecção de raios. Os dados permitem apontar cenários favoráveis com até dois dias de antecedência. A rápida formação dos tornados em áreas pequenas, porém, dificulta prever sua ocorrência e emitir alertas específicos. No Paraná, a Defesa Civil já contabilizou oito tornados em 2026, dois deles em um intervalo de 24 horas, em setembro, quando foi decretada situação de emergência nos municípios de Espigão Alto do Iguaçu, Piraí do Sul, Reserva e São José dos Pinhais. No estado, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) e o Centro Estadual de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cegerd) alertam as prefeituras sobre cenários adversos com até 72 horas de antecedência. Quando o risco se consolida, o Simepar monitora as tempestades e abastece a Defesa Civil, que alerta a população. A Defesa Civil do Rio Grande do Sul adota protocolo semelhante e, em geral, não emite alertas exclusivos para tornados. Segundo o órgão, os radares atualizam o cenário nas horas anteriores, mas nem sempre detectam o fenômeno. Segundo Ernani de Lima Nascimento, pesquisador do Inpe, o Centro-Sul tem boa cobertura de radares, mas a rede precisa ser integrada e expandida para outras regiões. Também falta avançar o monitoramento em tempo real, ou nowcasting. Os serviços brasileiros usam sobretudo satélites geoestacionários, que, ao contrário dos radares da superfície, têm menor precisão para identificar se tempestades virarão tornados. Em nota, o Inmet diz que não possui radares próprios, mas usa dados de outras instituições para acompanhar chuvas e tempestades. O órgão monitora condições para fenômenos severos, mas não antecipa local e horário de tornados “por se tratarem de eventos de pequena escala espacial, curta duração e elevada variabilidade”.

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