Anitta nunca fez questão de esconder que enxerga a própria carreira também como um negócio. Durante uma participação no "Estrelas da Casa", a cantora contou que costuma guardar metade do que ganha e relacionou a segurança financeira à liberdade para fazer escolhas profissionais. Em outra entrevista, ao falar sobre independência feminina, lembrou que o tema ainda era um tabu quando começou a carreira e que parte de seu trabalho foi construída para reforçar a ideia de que uma mulher pode ter poder e autonomia por conta própria. De influenciadora a empresária: como famosas transformam seguidores em negócios Boca Rosa, Virginia e Mari Maria: conheça as influenciadoras de beleza que construíram impérios com marcas de maquiagem Ela não é a única personalidade pública a tratar do assunto. Bianca Andrade, a Boca Rosa, já contou que demorou para falar abertamente sobre dinheiro por receio de parecer "interesseira". Com o passar dos anos, transformou a própria imagem em negócio, construiu uma empresa milionária e passou a abordar publicamente investimentos, faturamento e expansão. Em 2024, ao discutir os planos de internacionalização de sua marca, declarou que queria ver seus produtos ao lado de gigantes como Fenty Beauty e Kylie Cosmetics. A influenciadora e empresária Camila Coutinho também já falou sobre a relação com o dinheiro de maneira direta. Ao tratar de negócios, afirmou gostar de ganhar dinheiro e comprar suas próprias coisas, embora ressalte que sua ambição está especialmente relacionada à realização profissional e às próprias conquistas. Até o desejo de enriquecer começa a perder o caráter de assunto proibido. A jornalista e empresária Nathalia Arcuri construiu uma carreira justamente tentando romper esse silêncio. Ela já definiu a dificuldade de falar sobre finanças como uma espécie de "dinheirofobia" e defende que a independência financeira está diretamente ligada à liberdade de escolha das mulheres. Mais do que dizer quanto ganham, essas mulheres ajudam a colocar em pauta uma transformação na relação feminina com o dinheiro. A ambição financeira começa a ser apresentada não apenas como desejo de consumo ou status, mas também como uma forma de ampliar possibilidades e tomar decisões com maior autonomia. Para Carol Braga, professora de biologia, empresária e CEO do Foco Medicina, dinheiro sempre esteve menos relacionado ao consumo e mais à possibilidade de decidir sobre a própria vida. "Independência financeira, no fim das contas, é independência para fazer escolhas. Para escolher um relacionamento porque você quer estar naquela relação, e não porque precisa dela financeiramente. Para poder sair de um emprego que te faz mal, empreender, mudar de cidade ou tomar decisões sobre a própria vida sem pensar primeiro se alguém vai bancar aquilo por você. Para mim, dinheiro sempre significou liberdade", afirma. Por que ambição ainda parece uma palavra masculina? Durante décadas, a imagem da mulher bem-sucedida esteve cercada por uma contradição. Ela poderia estudar, trabalhar e crescer profissionalmente, mas declarar abertamente que desejava ganhar muito dinheiro ainda poderia ser interpretado como materialismo, ganância ou excesso de ambição. Para Val Andrade, especialista em empreendedorismo feminino, gestão de hotéis e CEO do Grupo Hospedar, essa dificuldade tem raízes históricas. "Durante muito tempo, o papel feminino foi associado ao cuidado, à modéstia e à doação, enquanto aos homens eram reservados a ambição e o papel de provedor econômico. A busca por riqueza por parte das mulheres acabou sendo julgada como ganância, egoísmo ou até um desvio daquilo que se esperava do feminino. Isso gerou receio e culpa em muitas mulheres na hora de falar abertamente sobre patrimônio e dinheiro", explica. Carol percebe que essa diferença continua aparecendo na maneira como homens e mulheres são julgados por suas escolhas profissionais. "Um homem dizer que quer crescer profissionalmente, ganhar muito dinheiro e construir patrimônio normalmente faz com que ele seja visto como ambicioso e determinado. Quando uma mulher fala a mesma coisa, ainda aparecem perguntas: será que está colocando o trabalho acima dos filhos? Será que pensa demais em dinheiro? Será que é ambiciosa demais?", questiona. Mãe e empresária, Carol não enxerga conflito entre desejar crescimento financeiro e valorizar a família. "Eu trabalho muito, gosto do que construí profissionalmente e não tenho nenhuma dificuldade em dizer que quero que a minha empresa cresça, que quero ganhar dinheiro e construir patrimônio. Isso não significa que dinheiro seja mais importante do que a minha família. Uma coisa não anula a outra. Uma mulher não deveria precisar diminuir a própria ambição para provar que é uma boa mãe, esposa ou pessoa", defende. O preço de pedir mais A mudança no discurso não significa que as diferenças tenham desaparecido. Negociar salário, aumentar honorários, estabelecer o preço de um produto ou serviço e dizer quanto se deseja ganhar ainda são situações que podem colocar mulheres diante de julgamentos diferentes daqueles enfrentados pelos homens. Para Rosa Bernhoeft, especialista em gestão de pessoas e CEO da Alba Consultoria, reduzir a questão simplesmente à falta de habilidade feminina para negociar é um erro. "Essa diferença não é só comportamental, ela é estrutural. Por isso, tomo cuidado com o discurso de que a mulher só precisa aprender a negociar melhor, porque ele acaba colocando nas costas dela uma conta que também é do sistema. Existe, porém, uma diferença na maneira como somos socializados. Muitas mulheres aprenderam que pedir demais pode significar arriscar a relação, o emprego ou a simpatia de quem está do outro lado da mesa", avalia. Val acrescenta que a confiança sobre o próprio trabalho é uma das primeiras barreiras a serem rompidas. "Sem reconhecer genuinamente o valor daquilo que entrega, a mulher encontra mais dificuldade para ressignificar sua relação com o dinheiro e desenvolver firmeza para negociar sem culpa. Mas não podemos ignorar que ainda existe uma cultura machista presente nas relações profissionais. Essa mudança não depende somente das mulheres", ressalta. Dinheiro como liberdade, não apenas consumo Talvez uma das principais transformações esteja justamente no significado atribuído ao dinheiro. Ganhar mais não aparece necessariamente associado à ostentação. Para muitas mulheres, patrimônio passou a significar possibilidade de escolha. Sair de um casamento, abandonar um trabalho insatisfatório, criar uma empresa, morar sozinha, viajar, garantir uma boa educação aos filhos ou simplesmente saber que não depende financeiramente de outra pessoa são decisões diretamente atravessadas pela renda. Esse movimento também aparece no debate contemporâneo sobre educação financeira feminina. Em agosto, a educadora financeira Amanda Dias, fundadora da Grana Preta, chamou atenção para o fato de que mulheres foram historicamente ensinadas a administrar recursos para a família, mas não necessariamente a construir o próprio patrimônio. Para Rosa, o primeiro passo é justamente mudar a relação emocional com o dinheiro. "Se por dentro você ainda acredita que cobrar é desagradável, que preço alto afasta ou que dinheiro é um assunto pesado, nenhuma técnica de negociação vai resolver completamente. A confiança no próprio trabalho cresce quando você começa a reconhecer resultado, cliente satisfeito e retorno. A negociação pode ser aprendida e treinada, mas antes é necessário acreditar que você merece o valor que está pedindo", observa. Talvez o julgamento não tenha acabado. O que mudou foi a importância dele Carol acredita que a ambição feminina está deixando de ser tabu, mas faz uma ressalva: talvez a sociedade não tenha parado de julgar mulheres que desejam enriquecer. São elas que parecem menos dispostas a pedir autorização. "Eu não sei se deixou de ser motivo de julgamento. Acho que talvez as mulheres estejam simplesmente menos preocupadas com esse julgamento. E, para mim, essa é uma mudança enorme", diz. Bióloga e professora de formação, ela construiu uma empresa no setor de educação, uma trajetória que também influenciou sua percepção sobre riqueza. "Eu acho muito saudável uma mulher poder dizer: quero ganhar dinheiro, quero ter patrimônio, proporcionar uma vida boa para os meus filhos, viajar, ter conforto e segurança financeira. E quero fazer isso com o resultado do meu próprio trabalho. Nunca enxerguei enriquecer simplesmente como o objetivo de ter coisas. Para mim, sempre esteve muito mais relacionado a perceber que o seu trabalho gerou valor suficiente para lhe dar liberdade", considera. Se durante muito tempo o ideal feminino esteve associado a não parecer ambiciosa demais, uma geração de empresárias, executivas, artistas e profissionais começa a experimentar o contrário: dizer que quer crescer sem acrescentar uma justificativa imediatamente depois. "Espero muito que os meus filhos cresçam achando absolutamente normal ver uma mulher falando sobre dinheiro, carreira e ambição sem precisar pedir desculpas por isso", conclui Carol.
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Por que falar de dinheiro ainda é tabu para mulheres? O tema ganha espaço entre famosas
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O Globo
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