Na disputa pelos votos dos eleitores conservadores, candidatos ao governo dos estados que se colocam como representantes da direita não bolsonarista passaram a encampar a reforma do Judiciário como bandeira de campanha. A estratégia veio à tona a partir de críticas proferidas contra o Supremo Tribunal Federal (STF) após as investigações do caso Master mostrarem novos indícios da relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Quaest: Pesquisa mostra o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro empatados no 2º turno Leia mais: Eleitores de Cury, Renan Santos, Caiado e Zema migram mais para Flávio Bolsonaro em eventual 2º turno O tema, que tem pautado a eleição presidencial desde a semana passada, passou a ser abordado por candidatos como Sandro Alex, ex-secretário de Infraestrutura do Paraná e candidato ao governo estadual como sucessor do governador Ratinho Junior (PSD). Em um vídeo publicado nesta segunda-feira em comemoração ao 7 de setembro, ele apareceu em fotos ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e disse que atuou na defesa dos interesses dos paranaenses "inclusive na assinatura de todos os processos de investigação e de impeachment, seja contra o Supremo ou contra aqueles que atentem à nossa nação".
No estado, no entanto, a pauta vinha sendo encampada até o momento somente pelo senador Sergio Moro (PL-PR), que lidera as pesquisas de intenção de voto e concorre ao governo com o apoio do senador Flávio Bolsonaro. Nesta segunda-feira, o parlamentar participou do ato que reuniu apoiadores do filho do ex-presidente na Avenida Paulista, que teve as críticas ao Supremo como mote principal.
No local, subiu ao caminhão de som, mas ficou distante dos personagens que discursam, como o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o pastor Silas Malafaia. Enquanto ocorriam falas, discursos e protestos contra Moraes, Moro gravava vídeos e respondia a acenos do público que o reconhecia no alto do caminhão. A crise do Supremo também foi assunto ontem do atual governador de Minas Gerais Mateus Simões (PSD). Na disputa pela reeleição enquanto sucessor do ex-governador Romeu Zema (Novo), que tem explorado o tema na campanha presidencial, Simões afirmou que "o país precisa se libertar de corruptos no Judiciário e no ambiente político".
— Eu tenho uma preocupação cívica com o Brasil nesse momento, de um STF que perdeu completamente a sua posição na sociedade. Nós estamos precisando voltar a ter um Judiciário que cuide da justiça e não de política. E, infelizmente, é um escândalo de corrupção que parece estar enfronhado em todas as esferas de poder e em todos os ramos ideológicos da política — disse em conversa com a imprensa após participar do desfile cívico-militar em Belo Horizonte.
No estado, o governador tem como principal adversário o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que aparece na liderança das pesquisas e declara apoio a Flávio, mesmo não ocupando a função de palanque oficial do presidenciável no estado. Esse lugar é ocupado por Flávio Roscoe, empresário e ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, que participou ontem de uma manifestação junto a apoiadores bolsonaristas na capital mineira. Ao discursar na ocasião, pediu uma "atitude imediata" em resposta à crise no Supremo.
— O dia 7 de setembro celebra a nossa independência, e nós, brasileiros e mineiros, nunca podemos estar tranquilos, porque a independência se constrói a cada dia. Então, não é só a celebração. É o dia de reafirmar este compromisso, que hoje a independência dos brasileiros está em risco — afirma. — Precisamos exigir do Congresso Nacional e dos próprios ministros supremos uma atitude imediata, pois é inconcebível que um ministro possa estar lá no poder depois dos fatos revelados.
Já no Rio Grande do Sul, a reforma do Judiciário também passou a ser discutida pelo vice-governador Gabriel Souza (MDB), que concorre contra o deputado federal Luciano Zucco (PL-RS). Apoiado por Flávio, o parlamentar tem aparecido na frente, mas em empate técnico contra a ex-deputada estadual Juliana Brizola (PDT-RS), enquanto Gabriel figura em terceiro lugar.
Na disputa pela reeleição como sucessor do governador Eduardo Leite (PSD), o vice defendeu na semana passada, em entrevista ao Correio do Povo após os desdobramentos do caso Master, a condução de impeachment de ministros do STF pelo Senado em caso de cometimento de "ilicitudes".
— Não interessa quem seja. Se cometeu ilicitude, irregularidade, imoralidade, têm que ser levados adiante os processos punitivos. No caso do STF, quem fala sobre o impeachment de ministros é o Senado da República. Quero muito que o próximo Senado tenha a capacidade e coragem de resolver coisas assim. Que, se for o caso de encaminhar caminhos punitivos, soluções punitivas, bom, que se faça, né? Não é porque alguém é ministro do Supremo ou ocupa qualquer outro cargo que está imune à lei brasileira — disse Souza ao Correio do Povo. .
O Globo