Por que até os mais abastados nos EUA estão sentindo o aperto

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Fonte da notícia: Globo Globo

A economia dos Estados Unidos apresenta hoje uma divisão clara entre os que têm e os que não têm. Supõe-se que os proprietários de imóveis estejam entre os afortunados.

Os preços médios dos imóveis subiram de forma constante nos últimos anos, proporcionando uma espécie de colchão financeiro, pelo menos no papel. E aqueles que compraram um imóvel antes de 2022 tiveram a oportunidade de garantir financiamentos de 30 anos com taxas anuais bem abaixo de 4%, um cenário muito distante dos patamares atuais, que superam os 7%.

Ainda assim, muitos americanos se sentem pressionados. Quase metade dos proprietários de imóveis consultados em uma pesquisa recente da CNBC disse que não possui margem financeira, ou que a situação é ainda pior.

Isso porque as taxas de juros dos financiamentos imobiliários não contam a história completa. Os outros custos relacionados à propriedade de um imóvel dispararam nos últimos anos, exercendo pressão tanto sobre proprietários que residem em suas moradias quanto sobre aqueles que as alugam a terceiros.

Considere, por exemplo, os impostos sobre a propriedade. Em muitas localidades, esses impostos são incluídos nas parcelas mensais do financiamento imobiliário dos proprietários.

Embora sejam baseados no valor estimado do imóvel, esses impostos cresceram mais rapidamente do que os preços das moradias em quase metade das grandes regiões metropolitanas dos EUA, segundo um novo estudo. Em nível nacional, o valor médio subiu 25% entre 2019 e 2024, segundo constatou o Departamento do Censo (Census Bureau).

Uma pesquisa separada do setor privado aponta para um aumento adicional de mais de 5% no ano passado. Os reajustes foram particularmente acentuados em Estados que apresentam crescimento acelerado, como a Flórida e a Geórgia.

O seguro é outro problema. O prêmio médio para residências financiadas subiu 62% entre 2019 e 2024, para US$ 2.300, com aumentos que ultrapassam 70% no Texas, Flórida e Utah.

Segundo pesquisas do Federal Reserve de Dallas, o seguro residencial consome, atualmente, 2,7% da renda média familiar, um aumento em relação aos 2% registrados antes da pandemia de covid-19. No entanto, quando os proprietários tentam acionar suas apólices, frequentemente se deparam com frustrações: no ano passado, cinco das maiores seguradoras encerraram quase metade de todos os pedidos de indenização (44%) — sem pagar um centavo sequer.

Esse índice é superior aos 36% registrados uma década antes. Talvez isso ajude a explicar por que as seguradoras residenciais atingiram níveis recordes de lucro operacional em 2025.

No ano passado, para cada dólar arrecadado em prêmio, as seguradoras pagaram apenas 54 centavos em indenizações — o patamar mais baixo desde 2015, apesar dos devastadores incêndios florestais em Los Angeles. Embora o seguro e os impostos sobre a propriedade sejam as despesas mais pesadas, não são os únicos custos.

A política de repressão à imigração de Donald Trump causou sérios transtornos aos orçamentos de manutenção e cuidados com áreas verdes, ao agravar a escassez de mão de obra. Segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho, os preços dos serviços de jardinagem e manutenção de áreas externas subiram 62% desde 2020, e os gastos dos proprietários com manutenção aumentaram 53% entre 2019 e 2024.

As tarifas impostas por Trump também cobraram seu preço, levando fabricantes a elevar os valores de eletrodomésticos de grande porte, o que contribuiu para um aumento de quase 7% (em relação ao ano passado) no custo de equipamentos de lavanderia, refletido nos índices de inflação de setembro.

No geral, o cenário é bastante desanimador para muitas pessoas que, em tese, deveriam ser as beneficiadas pela atual economia, marcada por uma profunda disparidade. O descontentamento desse grupo manifesta-se de diversas formas, justamente no momento em que os eleitores se preparam para as eleições de meio de mandato — um pleito de importância crucial.

Na pesquisa mais recente feita pelo “Financial Times”, 56% dos eleitores registrados disseram que sua situação financeira piorou durante o governo Trump, e 40% disseram que alta dos preços os torna mais propensos a votar nos democratas, o partido de oposição. Grande parte da resistência aos grandes centros de dados vem sendo liderada por proprietários de imóveis locais, em lugares como Prince William County, Virgínia.

As preocupações deles com ruído e o impacto nos preços dos imóveis somam-se a receios maiores, como a perda de empregos e o aumento nas contas de energia. A frustração crescente também se manifesta em esforços concretos para conter os impostos sobre a propriedade — ou para obrigar os centros de dados a arcar com uma parcela maior.

Quatro Estados americanos votarão na próxima semana medidas que visam limitar ou reduzir os impostos, depois que dez Estados adoraram medidas semelhantes no ano passado. Em meio à indignação crescente, candidatos a governador em Estados como Texas, Ohio e Michigan prometem revogar isenções fiscais ou suspender o desenvolvimento de centros de dados.

No entanto, isso gera um novo problema, especialmente em Estados que não cobram imposto de renda nem dispõem de outros meios para financiar serviços essenciais. “Se você reduz os impostos sobre a propriedade, acaba diminuindo sua capacidade de financiar a educação das crianças”, diz Jeremy Ney, professor na Universidade Columbia.

Dois anos atrás, as preocupações com o aumento do custo de vida levaram Trump e os republicanos à vitória. Mas a inflação aumentou para 3,7% ao ano no mês passado e o sentimento do consumidor encontra-se em níveis próximos aos mais baixos já registrados.

Quando até mesmo muitos dos que se beneficiam da economia dividida dos EUA se sentem pressionados, é provável que os eleitores busquem, mais uma vez, uma mudança. (Tradução de Mario Zamarian)

Brooke Masters é editora-chefe do Financial Times nos Estados Unidos.

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