A cada dois anos, entre a responsabilidade das escolhas políticas e as filas nos locais de votação, milhões de brasileiros reencontram um prazer curioso no exercício do dever cívico: apertar as teclas da urna eletrônica. Os botões da máquina são tão gostosos de apertar por causa do seu design mecânico, que oferece resposta tátil firme a cada dígito inserido.
Esse retorno físico confirma a ação do eleitor em sintonia com a interface fluida e os bipes sonoros do sistema. Mas o que faz com que um gesto tão simples seja também tão satisfatório?
Para a professora, pesquisadora e superintendente de Tecnologia da Informação da Universidade de São Paulo (USP), Fátima Nunes, uma possível explicação para essa pergunta pode estar no chamado “feedback háptico”, um mecanismo que permite ao usuário sentir fisicamente a resposta de um equipamento ao interagir com ele.
O TechTudo conversou com a especialista para entender como essa tecnologia funciona e por que apertar as teclas da urna eletrônica pode ser uma experiência tão gostosa. 🔎 Eleições 2026: como consultar o local de votação pelo e-Título?
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Reprodução/Luiz Roberto/Secom/TSE 📝 Os votos nas urnas eletrônicas são mesmo secretos? Veja no fórum do TechTudo
Por que apertar as teclas da urna é tão satisfatório? Quando a urna eletrônica estreou nas eleições brasileiras, em 1996, seus botões eram bem diferentes dos atuais.
O primeiro modelo utilizava um teclado de membrana, que não oferecia ao eleitor uma resposta tátil perceptível. Sem sentir exatamente quando a tecla havia sido acionada, algumas pessoas acabavam pressionando os botões com força excessiva.
“Às vezes, a urna até caía da mesa”, conta o servidor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Antonio Esio Marcondes Salgado, que participou do desenvolvimento das primeiras urnas, em depoimento ao site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2024. Segundo ele, o problema levou à adoção de um novo teclado já na segunda versão do equipamento, no qual as teclas passaram a oferecer um retorno físico ao serem apertadas.
O primeiro modelo de urna eletrutilizava um teclado de membrana, que não oferecia ao eleitor uma resposta tátil perceptível Divulgação/TSE
Essa mudança introduziu uma característica que permanece nas urnas até hoje e tem nome: feedback háptico, também conhecido como retorno tátil. Segundo a professora e pesquisadora da USP, Fátima Nunes, o princípio é simples.
Quando aplicamos uma força sobre um dispositivo, como ao apertar um botão, ele oferece uma reação que pode ser percebida pelo tato — e essa resposta ajuda a confirmar que determinada ação foi realizada. Na urna eletrônica, o retorno tátil funciona em conjunto com outros estímulos.
Além de sentir o acionamento dos botões, o eleitor acompanha as informações na tela e recebe sinais sonoros durante a votação. Para a pesquisadora, a combinação dessas respostas oferece maior segurança na interação com o equipamento, especialmente para pessoas com dificuldades visuais ou auditivas.
“O que o feedback háptico pode proporcionar é uma certeza a mais. Eu não diria que o usuário vai ficar mais feliz ou mais contente, mas é uma certeza a mais de ter finalizado uma ação que ele deveria ter feito, no caso, a votação”, explica a especialista.
Na urna eletrônica, o retorno tátil funciona em conjunto com outros estímulos Alejandro Zambrana/Secom/TSE
Para Fátima, características físicas como a resistência dos botões, sua maciez e o tempo necessário para oferecer uma resposta tátil também podem influenciar a experiência. A satisfação, porém, também depende da maneira como o sistema funciona.
Afinal, pouco adiantaria ter um teclado agradável se o eleitor precisasse enfrentar uma sequência interminável de comandos para registrar seu voto. A pesquisadora explica que, como a urna eletrônica é utilizada apenas a cada dois anos, sua interface precisa ser especialmente simples e intuitiva.
Em vez de apresentar menus com diferentes opções de cargos ou exigir que o eleitor percorra várias telas para encontrar um candidato, o equipamento conduz a votação por etapas predefinidas. Dessa forma, reduz as chances de confusão e facilita a conclusão do processo.
“Eu diria que, neste caso, a ordem do programa — ou seja, como o programa é construído para tentar minimizar a quantidade de cliques, a quantidade de apertos a teclas — é mais importante do que o ato de apertar a tecla propriamente dito. E quando você minimiza o esforço, você aumenta a satisfação e aumenta essa percepção de eficiência”, afirma Fátima.
A urna eletrônica é utilizada apenas a cada dois anos e sua interface precisa ser simples e intuitiva Antonio Augusto/Ascom/TSE
A lógica também vale para situações cotidianas, como utilizar um aplicativo bancário para fazer um Pix. Quanto menos etapas desnecessárias forem exigidas para realizar uma tarefa, melhor tende a ser a experiência do usuário.
Para Fátima, contudo, ainda seriam necessários estudos específicos para determinar se essas características realmente provocam uma sensação de prazer. Enquanto isso, os relatos dos próprios eleitores ajudam a entender o que torna essa experiência tão particular.
Prazer além dos botões Talvez o segredo dessa satisfação não esteja apenas nos botões, até porque a urna eletrônica é um equipamento que os brasileiros encontram apenas a cada dois anos, em uma ocasião carregada de significados políticos e pessoais.
Para alguns eleitores, o prazer de pressionar as teclas também parece estar associado à experiência de participar das eleições e exercer o direito ao voto. É o caso da jornalista Laura Cordeiro, de 34 anos, que descreve a votação como um momento de celebração da democracia.
“Apertar as teclas da urna eletrônica é muito satisfatório, ainda mais por eu estar exercendo o meu papel de cidadã naquele momento. O ato simboliza uma luta coletiva, enfim, de tudo que aquele momento representa para mim, para a democracia e para o Estado”, conta.
Entre todos os estímulos da votação, entretanto, Laura tem um favorito: o som emitido pela urna ao final do processo. “O barulhinho de confirmar me gera uma sensação de ‘olha, a minha opinião foi computada!’”, brinca.
Para muitos, o barulinho da urna eletrônica é o ponto alto da votação Antonio Augusto/TSE
A servidora pública Isabela Goulart, de 26 anos, compartilha o entusiasmo pelo som de confirmação, mas também chama a atenção para as características físicas dos botões. Na comparação com os teclados de computadores, ela considera as teclas da urna mais altas, espaçadas e agradáveis ao toque.
“Eu acho a sensação de apertar as teclas da urna eletrônica muito agradável. Elas não são duras como os eletrônicos a que estamos acostumados, e são bem leves ao toque, quase macias”, descreve.
Para Isabela, o tamanho e o espaçamento dos botões também facilitam a digitação e diminuem as chances de apertar um número errado. A servidora também acredita que o intervalo entre as eleições contribui para tornar a experiência única.
“Não é todo dia que a gente tecla uma urna. É um momento especial, que não vivencio no dia a dia.
E eu levo muito a sério essa questão do voto e de ir às urnas”, conta. As teclas da urna eletrônicas são mais altas que as de um teclado de computador
Reprodução/Alejandro Zambrana/Secom/TSE Seja pela maciez dos botões, pelo som característico ou pela satisfação de participar das eleições, a urna eletrônica desperta sensações que nem sempre percebemos em outros equipamentos do cotidiano.
E, embora a ciência ainda não tenha uma resposta definitiva para esse prazer, uma coisa é certa: no domingo (25), milhões de brasileiros voltarão a teclar os números de seus candidatos. Entre cliques, sons e escolhas, a festa da democracia estará novamente na ponta dos dedos.
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