Por dentro da campanha do governo Trump para devolver o poder à família Bolsonaro no Brasil

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

(Reuters) – Dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos lideraram uma campanha para devolver o poder à família Bolsonaro, de direita, no Brasil e conseguiram promover a adoção de sanções destinadas a inclinar a eleição a seu favor, segundo dez funcionários e ex-funcionários americanos com conhecimento direto do assunto.

O plano enfrentará um teste decisivo neste domingo (25), quando o senador Flávio Bolsonaro disputará um segundo turno acirrado contra o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva. Lula advertiu Washington contra interferências na soberania brasileira e acusou seu adversário de conspirar com o governo Trump.

Os dois funcionários são Darren Beattie, assessor sênior para Assuntos do Hemisfério Ocidental, responsável pela política americana para o Brasil, e Ricardo Pita, outro assessor sênior promovido neste ano ao cargo de secretário-assistente adjunto para a América do Norte. Os detalhes da campanha dos dois para devolver o poder aos Bolsonaro não haviam sido divulgados anteriormente.

Beattie e Pita, ambos nomeados políticos, atuaram com ampla liberdade para administrar as relações de Washington com o segundo país mais populoso das Américas, segundo as fontes. Nos meses anteriores ao início da campanha eleitoral, eles instruíram diplomatas americanos no Brasil de que a política dos Estados Unidos era reconduzir o ex-presidente Jair Bolsonaro à liderança do país — embora ele tivesse sido impedido de exercer cargos públicos por conspirar para dar um golpe de Estado em 2022, quando perdeu a eleição presidencial para Lula, disseram três das fontes.

Depois que Bolsonaro recebeu uma condenação de 27 anos de prisão, em setembro de 2025, os dois passaram a apoiar a candidatura de seu filho, o senador de direita Flávio Bolsonaro, segundo as mesmas três fontes. Beattie e Pita orientaram funcionários da embaixada a não interagir com outros pré-candidatos presidenciais conservadores que pudessem desafiar o Bolsonaro mais jovem, afirmaram.

Desde o ano passado, os dois defenderam com sucesso a adoção de medidas punitivas do governo americano contra o Brasil, concebidas para enfraquecer Lula e fortalecer os Bolsonaro, disseram à Reuters as dez pessoas ouvidas. As políticas incluíram a classificação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas e a imposição de sanções americanas contra o ministro do Supremo Tribunal Federal que liderava a investigação sobre Jair Bolsonaro.

A Reuters não conseguiu determinar até que ponto os dois agiam por ordens da Casa Branca ou do secretário de Estado, Marco Rubio. Trump, defensor declarado de Bolsonaro desde sua derrota eleitoral em 2022, não declarou publicamente apoio a nenhum candidato.

A Casa Branca se recusou a comentar e encaminhou as perguntas ao Departamento de Estado. O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, não respondeu às perguntas sobre medidas e diretrizes específicas envolvendo Beattie e Pita, mas afirmou em comunicado: “Todas as ações tomadas pelos Estados Unidos contra narcotraficantes e para proteger a liberdade de expressão têm como objetivo defender os direitos e as vidas do povo americano.

O povo brasileiro tem o direito de escolher seus líderes por meio de eleições livres e justas.” O gabinete de Lula não respondeu aos pedidos de comentário.

Orna Blum, uma das autoridades que conversaram com a Reuters sobre os esforços de Beattie e Pita, chefiou o escritório do Departamento de Estado responsável pelo Brasil e pelo Cone Sul até se aposentar no ano passado, em razão de sua oposição ao governo Trump. Washington “tem todo o direito de perseguir seus interesses econômicos e estratégicos”, afirmou.

“Mas, quando instrumentos da política externa americana são usados para pressionar outra democracia em relação ao destino jurídico de um aliado político, a linha entre diplomacia e intervenção política foi ultrapassada.” Sanções contra um ministro do Supremo Tribunal Federal

Beattie é um ex-redator de discursos da Casa Branca, demitido em 2018 depois de discursar em um evento frequentado por nacionalistas brancos. Ele também é o idealizador da chamada “diplomacia da liberdade de expressão”, uma política defendida por aliados de Trump que busca punir países acusados por eles de censurar manifestações de direita de cidadãos e empresas americanos, além de aliados da direita em todo o mundo.

Os Estados Unidos acusaram o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de violar direitos relacionados à liberdade de expressão ao prender brasileiros por publicações políticas nas redes sociais e censurar conteúdos de empresas americanas de plataformas digitais. Moraes argumentou que estava combatendo notícias falsas que enfraqueciam a confiança da população nas instituições democráticas brasileiras.

Moraes não respondeu a um pedido de comentário. Pita, um conservador americano de origem venezuelana, está entre os integrantes do círculo de Rubio que consideram Lula uma ameaça aos interesses americanos na América Latina.

Rubio tem sido uma das principais figuras da política agressiva do governo para a região, que incluiu uma invasão da Venezuela para destituir seu presidente, um bloqueio petrolífero contra Cuba e ataques militares a embarcações latino-americanas suspeitas de transportar drogas. Beattie e Pita se identificavam com as posições políticas de direita da família Bolsonaro, sua antipatia por Lula e a ideia de que Jair Bolsonaro era vítima de abusos cometidos pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro.

Assim como Trump na eleição americana de 2020, Bolsonaro se recusou a reconhecer sua derrota na eleição presidencial brasileira de 2022, o que desencadeou distúrbios protagonizados por apoiadores que invadiram prédios públicos. O Supremo Tribunal Federal o condenou em setembro de 2025 por conspirar para dar um golpe de Estado a fim de permanecer no poder.

Antes da condenação, no início de 2025, os Bolsonaro faziam intensa pressão em Washington pela aplicação de sanções contra Moraes com base na Lei Global Magnitsky de Responsabilização por Direitos Humanos, já que o ministro havia conduzido investigações criminais sobre Jair Bolsonaro.

Trata-se de uma lei federal de 2016 que permite aos Estados Unidos impor sanções a estrangeiros responsáveis por violações de direitos humanos ou corrupção grave. Por volta de abril de 2025, Eduardo, filho mais novo de Jair Bolsonaro, visitou Beattie em seu gabinete no Departamento de Estado, em Washington, segundo dois ex-funcionários americanos.

Eduardo Bolsonaro defendia publicamente a aplicação de sanções da Lei Magnitsky contra Moraes pelo menos desde 2024 e, em março de 2025, afirmou em uma transmissão ao vivo que era “praticamente certo” que o governo Trump adotaria essa medida. Eduardo Bolsonaro não respondeu aos pedidos de comentário.

Beattie telefonou para o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), do Departamento do Tesouro americano, para defender a aplicação de sanções da Lei Magnitsky contra Moraes, segundo um ex-funcionário americano com conhecimento direto do assunto. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, cujo departamento administra as sanções da Lei Magnitsky por meio do OFAC, não apresentou oposição, afirmou o ex-funcionário.

Os Estados Unidos anunciaram sanções da Lei Magnitsky contra Moraes em julho de 2025, citando supostas violações da liberdade de expressão por meio da censura a publicações antigoverno nas redes sociais. Um funcionário do Tesouro afirmou que Bessent e Rubio estão “totalmente alinhados em relação à política externa do governo”.

Classificações como organizações terroristas A família Bolsonaro também pressionava Washington a classificar as principais facções criminosas brasileiras — o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — como organizações terroristas.

Seus integrantes acreditavam que essa classificação prejudicaria Lula, criticado por alguns adversários por não conseguir controlar a criminalidade. Eduardo Bolsonaro havia se tornado amigo de Pita por meio de círculos conservadores americanos, e ambos apoiavam a iniciativa de classificar as facções como grupos terroristas.

Em maio de 2025, Pita integrou uma delegação americana que visitou Jair Bolsonaro em sua residência, em Brasília, enquanto ele aguardava julgamento, segundo comunicados públicos divulgados na época. O grupo também incluía David Gamble, então principal autoridade do Departamento de Estado responsável por sanções.

De volta a Washington, Pita pediu aos funcionários responsáveis por sanções no Departamento de Estado que estudassem como classificações de organizações terroristas, semelhantes às anunciadas contra cartéis mexicanos em fevereiro de 2025, poderiam ser aplicadas no Brasil, segundo um ex-funcionário.

Quase um ano depois, em maio de 2026 — após Pita ter sido promovido a um novo cargo que o afastou dos assuntos brasileiros —, o presidenciável Flávio Bolsonaro reuniu-se com Beattie e com o vice-secretário de Estado Christopher Landau, em Washington, para discutir “a urgência de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras”, segundo uma publicação na rede social X feita pelo influenciador de direita Paulo Figueiredo, acompanhada de fotografias dos participantes.

O Departamento de Estado anunciou a classificação no dia seguinte. A Reuters não conseguiu determinar a extensão da influência de Pita ou Beattie na decisão final.

Efeitos contrários e reveses Em julho de 2025, Washington também anunciou uma série de outras medidas contra o Brasil, incluindo a revogação dos vistos de oito ministros do Supremo Tribunal Federal e tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, alegando a “perseguição” a Jair Bolsonaro.

A Reuters não conseguiu determinar qual foi, se houve algum, o papel de Beattie ou Pita nessas medidas adicionais. Mas, se o objetivo era enfraquecer Lula, muitas delas produziram o efeito contrário, segundo analistas políticos brasileiros.

As medidas direcionadas ao tribunal não impediram o andamento do julgamento de Bolsonaro, enquanto as tarifas elevaram os índices de aprovação do governo Lula nas pesquisas, afirmaram os analistas. Grandes empresas americanas e brasileiras dependentes do comércio bilateral — incluindo a gigante do setor de carnes JBS (JBSS.O), controlada pelos bilionários brasileiros Wesley e Joesley Batista — também se opuseram às tarifas, que Washington acabou reduzindo.

A campanha de Beattie e Pita também sofreu reveses. Sem uma explicação oficial do Departamento do Tesouro, os Estados Unidos retiraram o ministro Moraes da lista de sanções da Lei Magnitsky em dezembro e, em março, o Brasil proibiu a entrada de Beattie no país para visitar Bolsonaro na prisão.

Mario Braga, analista de América Latina da empresa de inteligência de riscos RANE, afirmou que Trump pode ter decidido não declarar apoio público a Bolsonaro para evitar ser visto como alguém que interfere na eleição brasileira — uma percepção que poderia aumentar a popularidade de Lula.

Ainda assim, depois que Flávio Bolsonaro superou Lula por uma pequena margem no primeiro turno da eleição, no início deste mês, Trump classificou o resultado como uma grande vitória. “Foi apertado, mas uma vitória muito, muito grande”, disse ele a jornalistas.

“Incrível, na verdade.”

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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