Poeta transforma a arte em resistência e defende apoio permanente à cultura

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

Beatriz Bevilaqua, 247 – Viver de arte no Brasil exige criatividade também na gestão da carreira. Poeta, compositor, escritor, pesquisador e produtor cultural, o baiano Adrião Filho defende que empreender, para o artista, é uma estratégia de sobrevivência, mas que a sustentabilidade do setor depende de políticas públicas contínuas.

As ideias foram apresentadas em entrevista ao programa “Empreender Brasil”, da TV 247. “Empreender é enxergar oportunidades, possibilidades e mobilizá-las de forma estratégica para criar condições de sobrevivência e de bem-viver”, sintetiza.

Nascido na periferia, Adrião atribui a trajetória ao esforço da família, que deu apoio em sua educação e em toda sua formação. A combinação entre repertório acadêmico e experiência artística tornou-se, segundo ele, um recurso importante para disputar editais, desenvolver projetos e ampliar sua atuação profissional.

Como escritor, publicou três livros que transitam entre a prosa poética, o conto e a poesia: Redemoinho, Little Rex – O Tiranossaurozinho e Encruzilhar-Nos. Também compõe com diferentes parceiros e atua como performer no grupo poético-musical O Arrepio, inspirado na tradição griô.

Seu trabalho já foi reconhecido com as medalhas Zumbi dos Palmares, Maria Feijó e Lázaro Zacariades, além de premiação artística no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Renda que vem de várias frentes

Parte da renda de Adrião vem da elaboração e execução de projetos culturais, da participação em eventos, de apresentações e de iniciativas de circulação artística. Com apoio de editais de circulação e difusão do Estado da Bahia, ele realizou turnês em Cabo Verde e Portugal, o que mostra como o financiamento público pode levar a produção brasileira a novos públicos e territórios.

A diversificação, porém, tem um motivo. Em um setor em que a renda pode depender da aprovação de projetos, da realização de eventos e da captação por editais, a falta de financiamento contínuo dificulta o planejamento de carreira e a manutenção de uma produção regular. 

Adrião defende que programas emergenciais de apoio à cultura são importantes, mas insuficientes quando não estão associados a políticas estruturantes. Na avaliação do artista, o setor precisa de mecanismos permanentes que ampliem a formação, a geração de renda e o acesso à infraestrutura necessária para a produção artística. 

Entre as políticas existentes está a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, instituída pela Lei nº 14.399/2022. A iniciativa prevê repasses continuados de recursos federais a estados, ao Distrito Federal e a municípios, que podem financiar projetos por meio de editais, apoiar atividades culturais e investir na manutenção e estruturação de espaços.

Os artistas acessam os recursos a partir das seleções realizadas pelos governos locais. Para Adrião, porém, é necessário avançar na construção de condições mais estáveis de trabalho.

Ele defende iniciativas como renda básica para artistas, bolsas de formação, cursos e espaços públicos destinados à criação e à apresentação de trabalhos. A sustentabilidade, resume, passa pela combinação entre iniciativa profissional, formação, redes de colaboração e investimento público continuado.

Nesse desenho, a cultura precisa ser reconhecida como direito e como parte da infraestrutura democrática do país, e não como privilégio de poucos. Poesia, democracia e futuro

É nessa chave que o artista enxerga a poesia. Para ele, ela está nas relações afetivas, na identidade cultural, na alimentação, nas roupas e na conexão das pessoas com seus territórios.

Inspirado por Gilberto Gil e Paulo Freire, entende a cultura como um campo de expressão democrática, do pensamento crítico à celebração da vida. “A poesia consegue pegar a dureza concreta do dia a dia, suavizá-la, denunciá-la, retrabalhá-la e reelaborá-la”, explica.

Segundo Adrião, essa capacidade ajuda a formar consciência crítica, preservar a memória e criar possibilidades de futuro, o que fortalece a participação e o respeito aos direitos previstos na Constituição. Ele lembra que esse debate chega às novas gerações.

“Precisamos desarmar as crianças de armas e municiá-las de livros, de conteúdo”, afirma. O artista também critica modelos de desenvolvimento que colocam a expansão econômica e a indústria bélica acima da vida humana, e retoma Paulo Freire para dizer que a esperança não pode ser passiva: precisa vir acompanhada de ação concreta.

Assista a entrevista na íntegra aqui: 

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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