Uma testemunha ouvida pela Polícia Civil revelou ter visto a abordagem feita por dois PMs do programa Segurança Presente — há seis meses sob o comando da Secretaria de Polícia Militar — que acabou com o pizzaiolo Danilo Jander Francisco Alves, de 26 anos, baleado com um tiro na cabeça, na noite do último sábado, no bairro de Icaraí, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Segundo o depoimento, prestado na Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), a vítima já estava com a motocicleta parada e com as mãos para o alto quando um dos policiais usou um spray de pimenta e, em seguida, outro PM fez um disparo.
Na Região Metropolitana: ‘Ele tentou matar mesmo. Não foi sem querer’, diz pai de motociclista baleado na cabeça por PM em Niterói Entenda: motociclista é baleado por PM durante abordagem em Icaraí, em Niterói; estado de saúde é grave Segundo a testemunha, os agentes estavam em duas motocicletas e abordaram uma moto vermelha conduzida por Danilo. Após o pizzaiolo ser atingido por spray de pimenta no rosto, um dos PMs fez um disparo. Em seguida, a vítima caiu no chão. Ainda de acordo com o depoimento, após o tiro, o PM desceu da motocicleta, chutou Danilo e revistou os bolsos dele. Mas, segundo a testemunha, o chute não pareceu um golpe, e sim uma forma de conferir se o rapaz estava consciente ou não. Danilo Jander Francisco Alves foi baleado na cabeça na noite de sábado Acervo Pessoal Danilo Jander está internado em estado grave no Hospital Estadual Azevedo Lima, no Fonseca. De acordo com o pai do pizzaiolo, o educador físico Jander Luiz de Souza Alves, o filho passa por exames para verificar se ainda há atividade cerebral. O agente que fez o disparo alegou que o tiro foi acidental. Para Jander, porém, houve uma "tentativa de assassinato". — Não teve nada de sem querer, não. Ele tentou matar meu filho mesmo — afirma o pai, com os olhos marejados. — Espero que não coloquem meu filho como bandido, porque ele era trabalhador, assim como toda a nossa família, que tem muitas mulheres professoras e homens militares. Na Zona Sudoeste do Rio: Polícia Civil investiga uso de agulhas compartilhadas durante feira de ciências em escola no Recreio; diretor será ouvido Ouvidos pela DHNSGI, os PMs deram uma versão diferente da apresentada pela testemunha. Um deles disse que a vítima teria furado um sinal vermelho e que, por isso, foi perseguida por ele e pelo colega de farda. Segundo o militar, Danilo ainda empinou a moto que conduzia durante a fuga, mas acabou sendo alcançado por conta de um congestionamento. Segundo o militar, nesse momento, ele usou um spray de pimenta com o objetivo de evitar que o pizzaiolo continuasse a fuga. Sob suspeita: missionária presa em Mato Grosso mantinha relacionamento com chefe do CV escondido no Rio, aponta investigação Já o PM responsável pelo disparo afirmou que a vítima passou pelo semáforo em alta velocidade e que, por isso, houve a perseguição. Ele afirmou que o outro militar usou o spray de pimenta e que, ao desembarcar, viu o motociclista gesticulando com a mão na cintura. Segundo o relato do policial, ele então sacou uma pistola para ter maior atenção ao suspeito, mas um disparo involuntário teria ocorrido. O agente disse que chegou a revistar Danilo, mas nada ilícito foi encontrado. Duas rodas: Interior do Rio tem cidades com mais motos que a média do Nordeste; em São José de Ubá, elas já são 52% da frota Tio de Danilo, Douglas William Souza Alves, suboficial da Marinha do Brasil, o descreve como um jovem alegre, honesto e reservado. — É um menino muito próximo da família e educado. Sou tio paterno dele e o tenho como se fosse meu filho. Temos total afinidade. Ele está sempre na casa da minha mãe tomando café — relata. Apesar de nitidamente triste, o tio afirma estar confiante de que Danilo irá se recuperar: — Tenho fé e esperança de que o Danilo sairá dessa. Em breve, ele estará em nosso convívio. Estamos em oração para isso. O caso está sendo investigado pela DHNSGI. A especializada está em busca de câmeras que tenham flagrado o momento do disparo. O objetivo dos agentes é esclarecer como tudo ocorreu.
O Globo