Mais do que técnica, a aquarela requer coragem e liberdade, afirma Pinky Wainer. “Ao colocar um pincel úmido sobre o papel, todos os medos desabam sobre a sua cabeça”, diz a artista, citando o temor do julgamento alheio.
É preciso, portanto, “soltar o punho”: “A mão dura não faz aquarela, faz ilustrações”. Munida dessa premissa, ela traz ao Rio, pela primeira vez, suas aulas dedicadas à prática artística com a qual se consagrou e cujos ensinamentos passa adiante há 15 anos, em São Paulo, onde mora.
São dois encontros, nos próximos dias 7 e 8, das 10h às 16h, na Casa Caminhoá, no Horto. Filha do jornalista Samuel Wainer e da escritora Danuza Leão, Pinky é autodidata e começou a se aventurar na modalidade a partir de uma provocação do pai.
“Estava com três filhos pequenos em casa, e ele disse que eu ia enlouquecer. Então, me levou a uma loja de materiais artísticos e escolhi a aquarela”, recorda-se.
“Só fui saber que era algo refinado e complicado muito tempo depois.” Coleção de seios em papel machê estão entre trabalhos inéditos
Fe Pinheiro Mas isso foi cinco décadas atrás e, desde então, a artista persegue, de modo cada vez mais radical, a liberdade criativa.
“Estou sempre arriscando, mas sou autodidata também no arriscar. Não existe ‘by the book’ para isso”, reconhece ela, aos 72 anos, com obras no acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, além de ter assinado trabalhos editoriais e cenográficos.
Toda essa inquietação serve como combustível para as duas exposições que inaugura na capital paulista: “Balcão de mulheres”, na Galeria Sardenberg, no dia 17 de novembro, e “Língua-Mãe”, no Museu Judaico, em 5 de dezembro. Ambas trazem investigações acerca da existência feminina, tema já explorado em outras ocasiões, mas a partir de novas abordagens e suportes.
No museu, exibe, entre as obras, pinturas de mulheres com 2,20 metros de altura e, na galeria, uma coleção de 25 seios em papel machê. Autodidata, artista começou a pintar depois de uma sugestão do pai, Samuel Wainer
Fe Pinheiro Curadora de “Língua-Mãe”, Érica Burini afirma que o público verá trabalhos criados por uma Pinky no auge de uma carreira longeva, mas ainda disposta a descobertas: “Isso está tanto nos aspectos formais das obras quanto nos temas.
Ela incorpora, cada vez mais, a ideia de um desenho vacilante. Não parte de uma imagem preconcebida.
É uma mulher à procura de formas de transgredir”.
O Globo