Pimenta sob análise: cientistas investigam se benefícios à saúde são exagerados

 

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A pimenta acompanha a história da gastronomia mundial há mais de 3.500 anos e hoje está entre as especiarias mais utilizadas nas cozinhas do planeta. Além do uso culinário, pesquisadores passaram a investigar se os benefícios à saúde frequentemente atribuídos a ela são realmente sustentados por evidências científicas.

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Originária do sul da Índia, a pimenta começou a se difundir pela Europa após as campanhas de Alexandre, o Grande, período que intensificou as trocas culturais e comerciais entre diferentes regiões. Na Idade Média europeia, a especiaria tornou-se símbolo de status e riqueza. O interesse em controlar seu comércio foi tão grande que incentivou expedições marítimas em busca de novas rotas para a Ásia.

Em 1498, o navegador português Vasco da Gama abriu uma rota marítima entre a Europa e a Índia ao contornar o Cabo da Boa Esperança. O trajeto consolidou o comércio de especiarias, incluindo a pimenta, produzida a partir do arbusto trepador conhecido cientificamente como Piper nigrum. Ao longo dos séculos, o controle desse comércio gerou riqueza primeiro para Portugal e depois para potências europeias como os Países Baixos e o Reino Unido.

Uma planta, várias pimentas

Apesar das diferenças de cor e sabor, as variedades mais conhecidas — verde, preta e branca — vêm da mesma planta. A pimenta verde é obtida de frutos colhidos ainda imaturos e costuma ser consumida fresca ou em conserva. Por ser mais delicada, raramente é transportada por longas distâncias.

A pimenta preta surge quando o fruto amadurece. Após a colheita, os grãos são brevemente fervidos e depois secos ao sol, processo que desidrata o fruto e enruga sua casca. Esse tratamento intensifica os compostos aromáticos e picantes, tornando essa variedade mais forte que a verde.

Já a pimenta branca é produzida a partir da remoção da casca e da polpa do fruto maduro. Para isso, os grãos são deixados de molho em água por vários dias ou semanas até que a polpa se decomponha, restando apenas a semente, que depois é seca e geralmente moída.

Há ainda outras especiarias chamadas popularmente de “pimenta”, como a pimenta-rosa, a pimenta-vermelha e a pimenta-de-Sichuan. No entanto, elas pertencem a famílias botânicas diferentes.

Piperina

O sabor picante característico da pimenta vem principalmente da piperina, um alcaloide que ativa nociceptores — neurônios especializados em perceber estímulos dolorosos. Esse composto atua sobre canais iônicos chamados TRPV1, normalmente ativados por altas temperaturas ou ambientes ácidos. Ao estimular esses receptores, a piperina produz a sensação de calor ou irritação associada ao consumo da especiaria.

Do ponto de vista evolutivo, a piperina funciona como um mecanismo de defesa da planta contra herbívoros. As aves, porém, não possuem receptores TRPV1 sensíveis a esse composto, o que lhes permite ingerir os frutos sem sentir ardência e dispersar as sementes.

Além da piperina, a pimenta preta contém compostos aromáticos como mirceno, limoneno e pineno, responsáveis por notas que vão de aromas cítricos a tons terrosos. Esses compostos voláteis, no entanto, se degradam rapidamente após a moagem do grão, razão pela qual o sabor predominante da pimenta moída costuma ser o picante.

Estudos sobre possíveis efeitos medicinais

Durante séculos, a pimenta foi utilizada em práticas de medicina tradicional, incluída em pomadas e tônicos destinados a tratar diferentes males, do dor muscular a distúrbios sexuais. O interesse histórico pela especiaria era tão grande que, segundo o escritor romano Plínio, o Velho, o Império Romano gastava grandes somas no comércio de pimenta com a Índia.

Hoje, cientistas investigam se a piperina possui propriedades com potencial aplicação médica. Alguns estudos indicam que o composto pode estimular secreções gástricas e pancreáticas, o que favoreceria a digestão e a absorção de certos nutrientes. Também foram observadas possíveis propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas e antifúngicas.

Outras pesquisas analisaram seus efeitos em células cancerígenas, nas quais foi identificado aumento de proteínas associadas à apoptose — o processo de morte celular programada. Esses resultados estimularam investigações sobre seu possível papel em doenças como artrite, distúrbios metabólicos e infecções.

Especialistas, porém, ressaltam que esses estudos são realizados com piperina purificada e em doses controladas, o que difere significativamente do consumo cotidiano da especiaria em pequenas quantidades na alimentação.

Embora as pesquisas continuem, o consenso entre os cientistas é que a pimenta não deve ser considerada medicamento ou tratamento para doenças. A análise de seus compostos bioativos pode abrir caminho para aplicações futuras, mas, por enquanto, seu papel principal permanece ligado à gastronomia.

Mesmo enquanto a ciência examina suas propriedades, a pimenta mantém seu lugar na culinária global como uma das especiarias mais usadas. Sua presença em pratos de diversas culturas reflete uma tradição culinária que atravessou séculos.