A empresa de biotecnologia americana Enveda anunciou nesta semana os primeiros resultados de segurança de um medicamento que tenta reproduzir, em forma de comprimido, parte dos efeitos metabólicos causados pelo exercício físico.
O composto, batizado de ENV-308, concluiu sua primeira fase de testes em humanos sem registrar eventos adversos graves entre os participantes.
Segundo a empresa, sediada em Boulder, no Colorado, o ensaio de Fase 1 recrutou 88 voluntários saudáveis, que receberam diferentes doses do composto por via oral.
Nenhum deles abandonou o tratamento ou teve a dose interrompida, e a Enveda classificou o perfil de segurança gastrointestinal como "excepcional", já que um dos principais motivos que levam pacientes a interromper o uso de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, como a semaglutida.
O que é a molécula por trás do remédio
O ENV-308 foi desenvolvido para imitar a ação da N-lactoil-fenilalanina, ou Lac-Phe, uma molécula que o corpo humano produz naturalmente durante exercícios de alta intensidade e também após as refeições.
A substância foi identificada em 2022 por pesquisadores da Universidade Stanford, que associaram seus níveis elevados à supressão do apetite.
Em testes com camundongos obesos, animais tratados com Lac-Phe perderam peso.
Como a molécula natural fica pouco tempo no organismo, a Enveda usou um modelo próprio de inteligência artificial, batizado de PRISM, para desenhar uma versão sintética capaz de manter o efeito por mais tempo e permitir a administração em comprimido diário.
"O ENV-308 é a nossa tentativa de colocar a química do exercício físico em um comprimido diário, oferecendo uma solução sustentável e conveniente que se soma aos hábitos das pessoas e as apoia no caminho para a saúde de longo prazo", afirmou Viswa Colluru, fundador e CEO da Enveda, em comunicado da empresa.
Embora o objetivo da a Fase 1 seja avaliar segurança, e não eficácia, o estudo encontrou um dado exploratório considerado relevante pela empresa: os voluntários apresentaram queda nos níveis circulantes de leptina, hormônio que sinaliza saciedade ao cérebro.
A redução foi maior entre os participantes que tinham os níveis mais altos de leptina no início do estudo, segundo dados divulgados pela BioSpace.
Pessoas com obesidade costumam ter níveis elevados de leptina, mas apresentam resistência ao hormônio, de forma parecida com o que ocorre com a insulina em quadros de diabetes tipo 2.
Em modelos animais, o ENV-308 também preservou massa muscular magra durante a perda de peso e evitou o reganho de peso após a interrupção de tratamentos com GLP-1, de acordo com a empresa.
Aposta bilionária contra a obesidade
O anúncio ocorre em um momento de forte disputa financeira pelo mercado de obesidade, hoje dominado por Novo Nordisk e Eli Lilly.
A Enveda já levantou US$ 517 milhões em rodadas de investimento desde sua fundação, em 2019, e atingiu valor de US$ 1 bilhão após uma rodada Série D de US$ 150 milhões liderada pela gestora Premji Invest, segundo o BioPharma Dive.
Entre os investidores da companhia estão nomes como Baillie Gifford, Kinnevik e a farmacêutica Sanofi.
A aposta da Enveda é atender a pacientes que interrompem o uso de canetas emagrecedoras e voltam a ganhar peso, muitas vezes perdendo massa muscular no processo.
Diferentemente dos GLP-1, que atuam reduzindo o apetite por meio de múltiplos mecanismos hormonais, o ENV-308 seria voltado à manutenção do peso perdido, e não necessariamente à perda inicial.
A Enveda afirmou que pretende avançar para uma Fase 2 maior, voltada especificamente à manutenção de peso após o uso de medicamentos GLP-1.
A empresa também avalia testar o composto para outras condições associadas aos benefícios do exercício físico, como enxaqueca e doença inflamatória intestinal.
Por ora, os resultados divulgados se limitam a segurança e tolerabilidade em voluntários saudáveis, sem indicação de que o composto substitua a atividade física ou tenha eficácia comprovada para perda de peso.
Isso só poderá ser avaliado em fases posteriores do desenvolvimento clínico.
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