Pessoas estão apostando em incêndios florestais – e especialistas temem incentivo a crimes

Pessoas estão apostando em incêndios florestais – e especialistas temem incentivo a crimes

Fonte: Bandeira



Enquanto milhares de pessoas tentam escapar de incêndios florestais e reconstruir suas vidas após perderem casas e familiares, outra parcela da população tem lucrado apostando no tamanho, na duração e na intensidade dessas tragédias. A prática, que ganhou força em plataformas de mercados de previsão, está provocando queixas de vítimas, especialistas em ética e autoridades dos Estados Unidos.

Durante os incêndios de Palisades e Eaton, que devastaram a região de Los Angeles em janeiro de 2025, usuários da plataforma Polymarket apostaram em temas como quantos hectares seriam queimados, quando o fogo seria controlado e se determinadas cidades seriam atingidas. Segundo dados citados pela revista Aeon, cerca de US$ 1,2 milhão foi movimentado nessas apostas.

Para Sylvie Andrews, que perdeu a casa construída ao longo de uma década em Altadena, a ideia é revoltante. "É moralmente repreensível", afirmou à High Country News. Outra sobrevivente dos incêndios, Susan Sherman, classificou as apostas como "insensíveis e cruéis".

Além da discussão ética, especialistas alertam para um risco ainda mais preocupante: o incentivo a incêndios criminosos. Como uma única pessoa pode iniciar ou agravar um incêndio em poucos minutos, a possibilidade de lucro financeiro pode criar incentivos perversos, afirmam pesquisadores e representantes do U.S. Forest Service. Também há preocupação com o uso de informações privilegiadas por bombeiros ou gestores públicos para obter vantagem nas apostas.

A tendência pode crescer. Neste ano foi lançada a Wyldfyre, plataforma dedicada exclusivamente à negociação de previsões sobre incêndios na Califórnia. Por enquanto, o serviço permite apenas simulações, mas informa que apostas com dinheiro real estarão disponíveis em breve. A empresa afirma que seu objetivo é melhorar a previsão de incêndios por meio da inteligência coletiva.

Autoridades, porém, dizem que não utilizam esse tipo de informação. Tanto o Serviço Florestal dos EUA quanto a agência estadual CAL FIRE afirmam que suas previsões são baseadas em modelos científicos, dados meteorológicos e simulações físicas, sem qualquer influência de mercados de apostas.

O avanço desses mercados já começa a provocar reações políticas. Parlamentares americanos apresentaram projetos para restringir apostas relacionadas a terrorismo, assassinatos, guerras e mortes de indivíduos, enquanto Minnesota se tornou o primeiro estado a proibir a hospedagem e a publicidade de plataformas desse tipo. Até o momento, porém, nenhuma proposta cita especificamente incêndios florestais.

Mais Lidas