Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com cientistas da França, descobriram como o parasita responsável pela forma mais grave da malária utiliza a melatonina, hormônio associado à regulação do sono, para sincronizar seu desenvolvimento no organismo humano. Publicada após duas décadas de investigações, a descoberta identifica uma proteína que permite ao microrganismo reconhecer o hormônio e abre novas possibilidades para o desenvolvimento de medicamentos contra a doença. Adenocarcinoma pulmonar: o que se sabe sobre o câncer do Papa, que teve parte do pulmão retirado Doença chega ao país: Quênia anuncia segundo caso de ebola, mas afirma que não há contágio em grande escala O estudo se concentrou no Plasmodium falciparum, espécie responsável pelas formas mais graves da malária. Os cientistas identificaram a proteína MT-PfSR1, que funciona como um receptor capaz de detectar a melatonina e responder a sinais relacionados ao relógio biológico humano. A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, em colaboração com pesquisadores da Université Paris Cité, na França. Como a melatonina influencia o parasita Produzida pela glândula pineal, localizada no cérebro, a melatonina é liberada principalmente à noite e participa da regulação do ciclo de sono e vigília. Os pesquisadores descobriram que o parasita da malária consegue reconhecer esse hormônio e utilizar seus sinais para coordenar o desenvolvimento dentro das hemácias, os glóbulos vermelhos do sangue. O Plasmodium falciparum se multiplica em ciclos de aproximadamente 48 horas. Ao final de cada ciclo, as hemácias infectadas se rompem e liberam novos parasitas na circulação sanguínea. Esse processo está associado aos episódios periódicos de febre característicos da doença, conhecidos como febre terçã. A descoberta ajuda a explicar como o microrganismo percebe sinais do organismo humano e ajusta seu próprio ciclo de desenvolvimento. Segundo os pesquisadores, essa capacidade representa uma estratégia sofisticada de adaptação ao hospedeiro. Pesquisa começou há mais de duas décadas As investigações tiveram início nos anos 2000, quando o grupo liderado pela pesquisadora Célia Regina da Silva Garcia observou que a melatonina influenciava o desenvolvimento e a sincronização do parasita em culturas de células. Em 2008, os cientistas identificaram quatro possíveis receptores acoplados à proteína G (GPCRs) no genoma do Plasmodium. Essa família de proteínas é responsável por transmitir sinais externos para o interior das células e inclui alvos de diversos medicamentos utilizados atualmente.
No trabalho mais recente, os pesquisadores analisaram dois desses candidatos e demonstraram, por meio de simulações computacionais e experimentos em laboratório, que a proteína MT-PfSR1 responde funcionalmente à melatonina. Para Bárbara Dias, pesquisadora da USP e uma das autoras do estudo, a descoberta ajuda a compreender como o parasita utiliza sinais biológicos do hospedeiro para regular seu desenvolvimento. O resultado também amplia as possibilidades de investigação de mecanismos específicos do microrganismo. Composto sintético inibe crescimento do parasita Além de identificar o receptor, os cientistas testaram uma substância sintética chamada AR34. Nos experimentos, o composto ativou a proteína MT-PfSR1, mas não se ligou aos receptores humanos de melatonina. Em culturas de células, a substância também inibiu o crescimento do parasita. O resultado indica que a via de sinalização identificada pode representar um alvo para a criação de tratamentos mais seletivos, capazes de agir sobre o microrganismo sem interferir diretamente nos receptores humanos correspondentes. A descoberta é relevante diante do avanço da resistência do parasita aos medicamentos antimaláricos disponíveis. Ainda assim, os resultados obtidos em laboratório representam uma etapa inicial: são necessários estudos adicionais para avaliar a segurança e a eficácia de possíveis tratamentos em seres humanos. O que é a malária A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos principalmente pela picada de fêmeas infectadas do mosquito Anopheles, conhecido no Brasil como mosquito-prego. Mosquito da malária, do gênero Anopheles stephensi Divulgação Entre as espécies que infectam seres humanos, o P. falciparum e o Plasmodium vivax estão entre as mais preocupantes. A primeira está associada às manifestações mais graves da doença, que pode evoluir para complicações como insuficiência renal ou hepática, alterações neurológicas e edema pulmonar. Segundo o relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde citado pelo Jornal da USP, foram registrados 282 milhões de casos de malária no mundo em 2024, cerca de 9 milhões a mais do que em 2023. Nas Américas, foram contabilizados 536,7 mil casos e aproximadamente 136 mortes no mesmo período. No Brasil, a maior parte dos casos se concentra na região amazônica. O diagnóstico e o início rápido do tratamento são fundamentais para reduzir o risco de complicações e mortes.
O Globo