Um em cada quatro estadunidenses acredita, incorretamente, que vacinas infantis e o uso de paracetamol durante a gravidez estão associados ao desenvolvimento do autismo. É o que revela uma pesquisa com 30.288 adultos dos 50 estados dos Estados Unidos e de Washington, D.C.
Os resultados contrariam décadas de evidências científicas que não encontraram relação entre a vacinação e o transtorno, nem comprovaram que o medicamento provoque a condição. @@NOTICIAS_RELACIONADAS@@
O levantamento foi realizado por pesquisadores de instituições de Massachusetts, Nova York e Nova Jersey. Segundo os autores, as crenças equivocadas aparecem com maior frequência entre homens, republicanos, adultos de 35 a 44 anos e pessoas negras ou hispânicas.
Os pesquisadores apontam que a desconfiança em instituições científicas e médicas pode ajudar a explicar os resultados. Participantes que demonstraram maior confiança nessas organizações tiveram menor probabilidade de acreditar nas falsas associações.
— Nossos resultados se somam às abundantes evidências sobre a crescente politização das crenças relacionadas à ciência e à medicina — escreveram os pesquisadores. O estudo também identificou uma relação inesperada com o uso das redes sociais.
Embora essas plataformas sejam frequentemente apontadas como fontes de desinformação, os participantes que as utilizavam com maior frequência apresentaram menor probabilidade de acreditar nas falsas conexões. Uma hipótese levantada pelos pesquisadores é que o menor uso das redes também possa estar associado a um acesso mais limitado a informações confiáveis sobre saúde.
Declarações de Trump e Kennedy Jr. Os resultados aparecem em meio à disseminação de informações falsas sobre as causas do autismo por lideranças políticas estadunidenses, incluindo o presidente Donald Trump e Robert F.
Kennedy Jr., secretário de Saúde dos Estados Unidos. Trump afirmou, sem apresentar provas, que o paracetamol, comercializado no país sob a marca Tylenol, estaria relacionado ao desenvolvimento do autismo.
Também associou o transtorno à vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Em agosto, o presidente assinou uma ordem executiva que previa a separação dos componentes da vacina tríplice viral, sob a alegação de que a medida poderia ter grande impacto sobre o autismo.
Especialistas, porém, alertam que não há evidências de que a vacina provoque o transtorno. A divisão da imunização também pode aumentar os riscos à saúde pública ao exigir mais doses e visitas aos serviços de saúde, elevando a possibilidade de pessoas deixarem de completar o esquema vacinal.
Andrew Pollard, diretor do Grupo de Vacinas de Oxford, da Universidade de Oxford, afirmou que a necessidade de aplicações adicionais pode reduzir a cobertura vacinal da população. — Isso é muito perigoso no caso desses vírus, especialmente diante dos surtos de sarampo que já estão em andamento — alertou em entrevista ao site The Independent.
O que se sabe sobre o autismo O transtorno do espectro autista (TEA) afeta a maneira como as pessoas aprendem e se comunicam.
As características e necessidades de cada indivíduo, porém, são diferentes. Nos Estados Unidos, os diagnósticos aumentaram nas últimas décadas, em grande parte devido à ampliação e ao aprimoramento dos métodos de identificação.
Segundo a organização sem fins lucrativos Autism Speaks, aproximadamente um em cada 45 adultos estadunidenses é autista. Entre os fatores de risco conhecidos estão histórico genético, exposição à poluição do ar e a determinados pesticidas, baixo peso ao nascer, complicações durante o parto, idade avançada dos pais e condições maternas como obesidade, diabetes e alterações do sistema imunológico.
A organização também ressalta que não há pesquisas que comprovem que o uso de Tylenol durante a gravidez cause autismo. Da mesma forma, estudos científicos realizados ao longo de décadas não encontraram relação entre vacinas e o transtorno.
Uma das explicações para a persistência dessa associação equivocada é que o diagnóstico de autismo costuma ocorrer na mesma fase da infância em que são aplicadas vacinas de rotina. A coincidência temporal, entretanto, não significa que exista uma relação de causa e efeito.
Folha de Pernambuco