Na pequena cidade uruguaia de Paysandú, onde o papa celebrará, neste sábado (7), a primeira missa de sua longa viagem pela América Latina, muitos esperam que a breve visita engorde seus bolsos. Mas a prudência prevalece: "A expectativa comercial é grande, mas acompanhada de muita cautela.
Todos nós nos lembramos de 'O Banheiro do Papa'", diz Daniel Bellafont, proprietário de um restaurante no centro de Paysandú, referindo-se a um filme uruguaio de sucesso. Todos comentam sobre o famoso filme de 2007 nesta cidade do noroeste do Uruguai, que conta com cerca de 90 mil habitantes e espera receber pelo menos 30 mil peregrinos para a missa, que será realizada em um parque nos arredores.
Inspirado no livro "O Dia Em Que O Papa Foi a Melo", do brasileiro Aldyr García Schlee, a obra narra, em tom de tragicomédia, como a visita de João Paulo II àquela cidade na fronteira com o Brasil, em 1988, levou muitas pessoas a se endividarem para investir em comida e bebida, com o objetivo de vendê-las aos fiéis.
No fim, pouquíssimos peregrinos viajaram para Melo, e o tão aguardado negócio acabou sendo um fracasso, cujas consequências foram pagas por anos. Quase 40 anos depois, a chegada de outro papa desperta essa lembrança nos uruguaios.
"Todos nós falamos sobre isso", disse Bellafont à AFP. "Desde a noite de quinta-feira, já houve um aumento notável no movimento; isso é muito real.
Mas não sabemos se as pessoas que virão vão gastar, ou se estão apenas de passagem... Será que essas 30.000 pessoas que vão à missa no parque ficarão em Paysandú ou irão embora? É preciso estar à altura, é preciso apostar.
Mas com cautela", refletiu. As autoridades estão cientes dos receios, mas descartam a possibilidade de uma experiência como a de Melo se repetir.
José Manuel Galván, coordenador de Turismo do governo departamental, explica que a tecnologia ajuda. "Agora existe um código QR para entrar na missa, e esse registro ajuda a dar um fundamento real às expectativas."
O governo local realizou capacitações com operadores turísticos para ajustar as expectativas e garantir "que ninguém acabasse se endividando", explicou. Após visitar Paysandú por pouco mais de três horas, o papa retornará a Montevidéu e seguirá para o humilde bairro de Casavalle, que registra a maior taxa de homicídios da capital, para a Universidade Católica e para o histórico estádio Centenario, onde conduzirá uma vigília de oração para 60.000 pessoas.
@@NOTICIAS_RELACIONADAS@@ "Não quis arriscar muito"
Paysandú está enfeitada com imagens do papa e com as cores amarela e branca do Vaticano. O comércio oferece produtos alusivos a Leão XIV, e uma caminhonete com alto-falantes anuncia: "Se você vai abençoar suas joias, que seja sobre algo duradouro".
Juana Torres acrescentou ao seu ponto de venda na rua bandeiras, bolsas e todo tipo de produtos com o rosto de Leão XIV. "Não quis arriscar muito, porque isso só vende hoje ou amanhã", contou.
Por enquanto, o movimento é pequeno. No Uruguai, o país mais laico da América Latina, apenas 35% da população se declara católica, ante 55% na Argentina e 67% no Peru, os outros dois países que o papa visitará nesta viagem de 12 dias, segundo uma pesquisa do Latinobarómetro.
Mas Torres não perde a esperança. "O uruguaio sempre deixa tudo para a última hora", disse, confiante.
Na praça Constitución, Julio Baccaro oferecia passeios inspirados nos "Los Iracundos", uma banda de pop rock de grande sucesso nos anos 60, originária da cidade. "É um momento histórico, que vai além da religião, e estamos aproveitando a ocasião", explicou.
"Hoje em dia, com tantas coisas acontecendo, não é fácil estar sob os holofotes do mundo. Muitos virão, verão o papa, comerão algo e irão embora.
Mas a ideia é que alguns fiquem e façam visitas", disse, esperançoso. Em outro canto da praça, Ricardo Fremd Silva, de 43 anos, oferece santinhos.
Ele tem cerca de dez, mas vendeu apenas dois. Seu plano para sábado é vender algo para comer ou água gelada perto da basílica, onde Leão XIV irá para uma oração privada; depois disso, ele deve dar uma bênção a cerca de 500 fiéis da comunidade.
Ruben e Jessica viajaram 350 km de Las Piedras, no sul do país, até Paysandú, na quarta-feira. O plano era vender bandeiras para uma partida entre os clubes de futebol Nacional e Ferro Carril de Salto, além de cachecóis, gorros e lenços com a imagem de Leão XIV.
No entanto, três horas depois de se instalarem na praça, as autoridades os expulsaram. "Dormimos no carro, comendo o que dá, com pouca higiene...
passando por um sufoco", diz Jessica, desolada. "Investimos muito e, se não vendermos agora, o que vamos fazer com tudo isso?".
Folha de Pernambuco