O pastor Washington Almeida, da Assembleia de Deus em Tucuruí, no Pará, foi condenado em segunda instância por associar o autismo à atuação do diabo na vida de famílias que, segundo ele, não teriam proteção espiritual. A declaração foi feita durante uma pregação, em julho de 2024.
Na época, o pastor pediu desculpas pelas palavras e classificou a declaração como uma “infeliz colocação”. A condenação prevê o pagamento de R$ 50 mil por danos morais coletivos.
A defesa afirmou que, embora considere a indenização “excessivamente severa”, os impactos do processo na vida pessoal e na saúde do pastor têm levado a avaliar a possibilidade de não apresentar novos recursos, com o objetivo de encerrar o caso.Veja vídeo abaixo. 'Caso walkie-talkie': mãe suspeita que homem ouviu conversas em casa antes de ameaçar filha
STJ mantém condenação de coordenadora por recusar matrícula de criança com síndrome de Down no Pará Procurado pelo GLOBO, o advogado Ezequiel Silveira, que representa o pastor Washington Almeida, afirmou que seu cliente reconheceu a infelicidade da fala desde o início e adotou medidas para minimizar o sofrimento causado às famílias.
Entre elas, estão a retirada do conteúdo das redes sociais, a retratação pública e a realização de um curso relacionado ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo o advogado, essas providências foram reconhecidas pelo Tribunal de Justiça do Pará e consideradas na fixação da indenização em valor inferior ao solicitado pelo Ministério Público.
Silveira disse que a defesa recorreu da condenação, mas ainda não há uma decisão definitiva sobre os próximos passos do processo. Embora considere a indenização de R$ 50 mil "excessivamente severa", o advogado afirmou que os impactos do caso na vida pessoal e na saúde do pastor têm levado a defesa a considerar a possibilidade de não apresentar novos recursos, com o objetivo de encerrar o episódio.
Leia nota na íntegra abaixo. O valor dos danos morais será destinado a um fundo voltado a projetos relacionados ao transtorno.
Relembre o caso O pastor foi duramente criticado depois de afirmar, durante um evento comemorativo dos 90 anos da Assembleia de Deus em Tucuruí, que o "diabo está visitando ventre" de mães de crianças autistas.
Disse ainda que "em cada 100 crianças que nascem, nós temos um percentual gigantesco de pessoas e ventres manipulados, visitados pela escuridão, que distorce [o bebê] ainda no ventre". "As crianças hoje, de cada 100, nós temos aí quase que 30% de autistas em vários graus.
O que está acontecendo, pastor Washington? O diabo está visitando o ventre das desprotegidas, daqueles que não tem a graça, a habilidade, a instrumentalidade para saber lidar no mundo espiritual, e ele [diabo] só procura os vulneráveis, os desassistidos", diz Almeida durante a pregação.
Pastor diz que ‘diabo está visitando ventre’ de mães autistas Após a repercussão negativa do trecho na época, a igreja publicou um registro do pastor se desculpando pelas palavras ditas.
Almeida afirmou que a fala ocorreu "naquele calor da mensagem", e acabou "dizendo algo que não podia dizer", classificando as palavras como "infeliz colocação". "Eu quero me retratar com os autistas, com pais de crianças autistas.
Durante a minha preleção, fui muito infeliz quando fiz uma colocação, e esse não é o meu caráter, o meu perfil. Jamais no meu coração passa coisa dessa natureza.
[...] Me perdoem, esse não é o meu perfil. Eu tenho um coração diferente.
[...] Eu não sou aquela pessoa que muitos estão achando que eu sou. Infelizmente, coloquei uma palavra que não devia colocar e terminei criando essa situação desagradável", afirma Almeida.
A instituição voltaria a se manifestar à época nas redes sociais manifestando "repúdio à infeliz declaração", afirmando que "não comunga com essas pronúncias malfadadas". "A instituição há 90 anos tem assumido a missão de cuidar do bem-estar social, zelando pela comunhão com a sociedade, promovendo inclusão social de todos os indivíduos, promovendo o respeito, a igualdade e direitos a expressão de pensamento; publicamos esta nota como forma de manifestar que as afirmações do supracitado estão contra nossa doutrina e ideário que norteiam a Assembleia de Deus em Tucuruí.", afirmou a igreja.
Em nota enviada ao GLOBO à época, o pastor Washington se manifestou, e pediu perdão "às pessoas portadoras do transtorno do espectro autista, seus familiares e a comunidade em geral" pela fala "infeliz". Leia a nota de defesa na íntegra
"Desde o primeiro momento, o pastor Washington reconheceu a infelicidade de sua fala e procurou adotar medidas para minimizar o sofrimento causado às famílias em decorrência do episódio. Essas providências, que incluíram a retirada do conteúdo das redes sociais, a retratação pública e a realização de curso relacionado ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), foram expressamente reconhecidas pelo Tribunal de Justiça do Pará e consideradas na fixação da indenização em valor inferior ao pretendido pelo Ministério Público.
O pastor já se mostrou, por inúmeras vezes, arrependido pelo ocorrido e, mais uma vez, pede perdão a toda a comunidade atingida. Espera sinceramente que as famílias que se sentiram ofendidas possam perdoá-lo, reconhecendo também os esforços que realizou para reparar os danos causados.
Ele tem colaborado integralmente com a justiça, prestando contas de sua conduta. No momento, ainda não há uma decisão definitiva sobre a interposição de recurso.
Embora a defesa entenda que a indenização de R$ 50 mil é excessivamente severa diante das circunstâncias do caso e das medidas adotadas posteriormente, a continuidade do processo também tem provocado impactos significativos na vida pessoal e na saúde do pastor. Por isso, ele considera a possibilidade de não recorrer, buscando encerrar definitivamente esse episódio e seguir em frente."
O Globo