Páscoa vazia em Jerusalém: Como a guerra no Irã afetou o turismo na Terra Santa e no Oriente Médio
Durante a Semana Santa, fiéis cristãos costumam lotar as ruas da Cidade Velha de Jerusalém. Este ano, porém, foi diferente. Os locais religiosos mais importantes do Oriente Médio estavam praticamente vazios devido à guerra travada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Os países do Golfo também foram seriamente afetados pela drástica queda no número de turistas internacionais.
Capítulos da guerra: Nova etapa de ataques dos EUA ao Irã deve usar quase todo o estoque de mísseis de cruzeiros disponível no país
Em meio à escalada do conflito: Irã diz ter atacado navio ligado a Israel com drone no Estreito de Ormuz
“Jerusalém sem peregrinos é incompleta. Um lugar de vida, mas sem vida neste momento”, diz o cardeal italiano Pierbattista Pizzaballa, administrador apostólico do Patriarcado Latino de Jerusalém.
No Domingo de Ramos, a polícia israelense o impediu de entrar e celebrar a missa na Igreja do Santo Sepulcro por “razões de segurança”, alegando a guerra no Irã. A missa é celebrada todos os anos diante de centenas de fiéis que vêm de todo o mundo à Cidade Velha para refazer os últimos passos de Jesus. Este ano, havia apenas silêncio e uma forte presença militar.
A guerra no Irã colocou todo o Oriente Médio em alerta máximo. Embora certamente não seja a primeira vez que bombas e balas dominam a região, nunca antes tantos países foram alvos de mísseis e drones. O ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao Irã não só desencadeou uma crise energética global, com a disparada dos preços dos combustíveis, como também impactou severamente o turismo na região, um fato que se torna ainda mais evidente durante esta Semana Santa, um período crucial para os cristãos.
“Durante a Semana Santa, o Domingo de Ramos é um dos eventos mais festivos e coloridos, pois é uma procissão que começa no Monte das Oliveiras, com pessoas caminhando e carregando ramos de palmeira. E depois há a solenidade das procissões, com grupos carregando cruzes. Tudo isso desapareceu”, diz Antonio Pita, correspondente do jornal “El País” em Jerusalém.
Devido aos bombardeios que o Irã vem realizando contra alvos israelenses, os três principais locais sagrados de Jerusalém estão sob rígidas medidas de segurança. Além da Igreja do Santo Sepulcro, o acesso ao Muro das Lamentações e ao Monte do Templo também foi fechado.
O cardeal Pierbattista Pizzaballa em ruas de Jerusalém, no Domingo de Páscoa
Marco Longari / AFP
E não é só Jerusalém. Outras cidades sagradas, como Nazaré e Belém, viram uma redução significativa no turismo. Belém, localizada em território palestino, já sofria bastante com a falta de visitantes devido à guerra em Gaza, e esse novo conflito agravou ainda mais a situação. Países europeus e asiáticos, assim como os Estados Unidos, alertaram os viajantes para não viajarem para a região, causando uma onda de cancelamentos no último mês.
“O setor de viagens global está passando por uma drástica reconfiguração. A escalada do conflito gerou ondas de choque que estão afetando tanto a logística quanto a percepção de segurança para viajantes internacionais”, diz Tito Alegría, diretor executivo da ProTurismo, ao El Comercio.
“O impacto para estes dias da Semana Santa já está sendo avaliado e é severo. Os relatórios atuais indicam que Jerusalém, Belém e Nazaré parecem praticamente vazias, sem a presença habitual de peregrinos ou as tradicionais grandes procissões”, acrescentou.
Segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), a guerra no Irã está custando ao Oriente Médio cerca de 600 milhões de dólares por dia, valor que representa os gastos de turistas internacionais com hospedagem, transporte e consumo.
Impacto também em outros países
E essa crise afeta não apenas Israel e os territórios palestinos, mas também os demais países do Golfo Pérsico impactados pela guerra. Os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Bahrein e a Arábia Saudita sofreram ataques que colocaram em risco o valor estratégico que essas monarquias vêm cultivando há décadas: estabilidade e segurança.
“Destinos como Dubai, Catar e Bahrein, que até recentemente eram comercializados como ‘zonas de amortecimento’ seguras e paraísos fiscais para investimentos, agora enfrentam um cenário em que vários ministérios das Relações Exteriores europeus recomendam evitar viagens não essenciais para a região”, afirma Alegría.
Para Gloria Guevara, presidente do WTTC, a recuperação é mais lenta quando há incerteza e a confiança dos viajantes é afetada.
“O Oriente Médio conecta leste e oeste, sul e norte. Embora receba apenas 5% dos viajantes internacionais, conecta 14%”, disse ela à CNN.
O Aeroporto Internacional de Dubai, por exemplo, é um dos mais movimentados do mundo, com milhares de voos de todos os continentes fazendo conexão ali. Dubai, Abu Dhabi, Doha e Bahrein, juntos, recebem cerca de 526 mil passageiros por dia.
Como Alegría destaca, a instabilidade no Oriente Médio está forçando uma mudança drástica no turismo, já que “uma grande parcela de viajantes internacionais com orçamentos está buscando ativamente destinos percebidos como estáveis, pacíficos e distantes da zona de conflito”.
Na verdade, não é que os turistas estejam parando de viajar, mas sim mudando seus destinos, optando por lugares que consideram mais seguros, mais acessíveis ou mais previsíveis. O turismo não está desaparecendo; está simplesmente se transformando.
Segundo dados analisados pela Civitatis, plataforma online de reservas de visitas guiadas, os turistas estão priorizando o eixo Atlântico: Europa Ocidental, com destinos tradicionais como Espanha, Itália, França e Portugal; e as Américas, especialmente o Caribe.
Para Alegría, essa situação pode ser aproveitada pelo Peru: “Nesse cenário, nosso país tem uma janela de oportunidade inestimável. Consolidar a imagem do Peru como um destino seguro, com uma oferta cultural e gastronômica de classe mundial, nos permite capturar essa demanda redirecionada. Para quem opera serviços turísticos de alto impacto, como passeios pelo centro histórico de Lima, este é o momento ideal para garantir padrões que fidelizem esse viajante exigente”.
