A taxa de participação nas eleições legislativas desta terça-feira em Israel atingiu, no meio da manhã, seu nível mais alto desde 1981, segundo dados da comissão eleitoral, o que reflete a importância atribuída por muitos israelenses a esses pleitos. Três horas após o início da votação, às 7h (horário local, 2h em Brasília), "mais de 1,2 milhão de israelenses haviam votado".
Veja vídeo: Premier de Israel anuncia grande operação na Cisjordânia e ordena fechamento de Hebron após ataque a tiros matar dois soldados Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
Quer morar fora? Guia interativo reúne informações sobre 36 países A participação é, em percentual, equivalente a 16,68%, declarou o diretor da Comissão Eleitoral Central, Dean Livneh.
O índice registrado nesta etapa da votação não tem precedentes desde os 17% alcançados em 1981. O país começou a votar nesta terça-feira, pela primeira vez desde os ataques do Hamas em 2023, em uma eleição que pode redefinir seus rumos políticos.
Em uma sociedade profundamente dividida, o pleito funciona como um veredito sobre a guinada à direita sob o comando do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, após três anos de conflitos regionais e questionamentos sobre a resposta do governo aos ataques. Cerca de 7,3 milhões de pessoas estão aptas a votar.
Mais de um milhão de jovens poderão participar de uma eleição pela primeira vez, um grupo que, segundo as pesquisas, tende a apoiar partidos de centro-direita ou de direita. A segurança domina a campanha, em meio às críticas à condução das guerras e ao crescente isolamento internacional de Israel.
As últimas pesquisas mostram Netanyahu, o primeiro-ministro há mais tempo no poder no país, em uma disputa acirrada com seu principal adversário, o centrista Gadi Eisenkot, ex-chefe militar que entrou recentemente na política. "Quero mudar nosso país.
Quero um bom governo centrista", disse Alexandra, de 65 anos, à AFP, em uma seção eleitoral de Jerusalém, onde dezenas de pessoas aguardavam para votar pela manhã. "Esta é a eleição mais importante porque metade do país rejeitou os valores básicos sobre os quais o Estado de Israel foi criado", afirmou Noam, de 78 anos.
Para ele, o governo ameaça a separação dos Poderes e a igualdade entre todos os cidadãos. Netanyahu aposta na segurança e no apoio de Trump
Aos 77 anos, Netanyahu acumula 19 anos no cargo de primeiro-ministro, em períodos distintos. Sua campanha se concentrou na segurança e na relação próxima com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Após os ataques de 7 de outubro de 2023, Netanyahu iniciou várias guerras que deixaram Gaza em ruínas, levaram à ocupação do sul do Líbano e incluíram bombardeios contra o Irã, principal adversário regional de Israel, com apoio americano. Dentro do país, a população também foi alvo de ataques do Irã, do Hamas, do Hezbollah, movimento libanês, e dos combatentes houthis do Iêmen.
Zipporah Bennett, aposentada de 85 anos, afirmou que votaria em Netanyahu por considerar que ele tem experiência para conduzir o país em momentos difíceis. "Ele tem todo o apoio do governo americano" e "acredito que seja um homem que não tem medo de agir", declarou.
Netanyahu voltou ao poder em dezembro de 2022, à frente de uma coalizão que inclui a extrema direita ultranacionalista, cuja influência cresceu desde então. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, político de extrema direita, votou no assentamento de Kiryat Arba, na Cisjordânia, onde seus apoiadores haviam instalado cartazes e alto-falantes.
Oposição cobra investigação sobre ataques de 2023 Os ataques de 7 de outubro de 2023, o dia mais mortal da história de Israel, continuam no centro da disputa eleitoral.
Críticos acusam Netanyahu de ter responsabilidade pelas falhas que permitiram a ofensiva do Hamas e de se recusar a assumir essa responsabilidade. Eisenkot, de 66 anos, prometeu criar uma comissão independente para investigar as falhas de segurança, iniciativa que o governo de Netanyahu tem evitado.
Ex-chefe militar, ele lidera o partido Yashar e integra um bloco informal que reúne forças da direita à centro-esquerda. Embora se oponha à criação de um Estado palestino e apoie os assentamentos israelenses, Eisenkot prometeu conter a violência de colonos na Cisjordânia ocupada.
A oposição também critica os partidos ultraortodoxos, que tentam manter estudantes judeus religiosos fora do serviço militar obrigatório. Partidos árabes podem influenciar a formação do governo
Nem Eisenkot nem Netanyahu anunciaram publicamente se pretendem formar alianças com listas de partidos de maioria árabe, que representam 21% da população israelense. Essas forças podem ser decisivas caso o resultado seja apertado.
As urnas fecharão às 22h, no horário local, mas a apuração definitiva poderá levar dias. O sistema parlamentar israelense exige pelo menos 61 dos 120 assentos do Knesset, o Parlamento, para formar uma maioria.
É pouco provável que um único partido alcance esse número. Por isso, a composição do próximo governo dependerá de negociações entre as forças políticas, processo que poderá durar semanas ou meses.
Caso as conversas fracassem, uma nova votação poderá ser convocada. A eleição acontece em um momento de crescente isolamento de Israel no cenário mundial, em meio à devastadora campanha militar em Gaza, à expansão dos assentamentos na Cisjordânia ocupada, à violência de colonos e ao avanço da extrema direita e do nacionalismo religioso.
A segurança e a condução dos conflitos regionais devem pesar na decisão dos eleitores, mas o resultado também será um teste à continuidade do projeto político de Netanyahu e à capacidade da oposição de construir uma alternativa de governo.
O Globo