O parcelamento se tornou uma das formas mais comuns de facilitar compras no dia a dia. Do celular ao supermercado, passando por combustível, contas e até transferências feitas no crédito, dividir um gasto em várias vezes pode dar ao consumidor a sensação de que a compra pesa menos no orçamento. O problema aparece quando diferentes parcelas começam a se acumular e comprometem a renda dos meses seguintes.
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março de 2026, maior percentual da série histórica. O cartão de crédito aparece como principal modalidade de dívida, utilizado por 84,9% das famílias endividadas.
Em janeiro deste ano, as dívidas comprometiam, em média, 29,7% do orçamento familiar, com prazo médio de 7,2 meses para quitação. Naquele mês, o cartão de crédito também liderava entre as modalidades de endividamento, presente em 85,4% das famílias com dívidas.
A estudante de Direito e estagiária de um escritório de advocacia, Alice Gama, procura evitar o parcelamento sempre que possível. Para ela, a modalidade deve ser utilizada principalmente em compras de maior valor ou bens duráveis.
“Eu não sou muito a favor de parcelar. Entretanto, parcelo quando as compras são de grande valor ou são bens duráveis, como bolsas, eletrônicos, entre outros”, afirma.
Alice evita parcelamentos sempre que possível e utiliza o crédito principalmente para compras de maior valor ou bens duráveis./Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco
Para manter o controle das finanças, Alice registra os gastos e acompanha o que já está comprometido no orçamento.
“Eu anoto todo e qualquer gasto que eu tenha, ou possa vir a ter, e vou controlando essa agenda financeira, para não ter aquela surpresa negativa com a fatura no fim do mês”, explica.
A estudante também procura avaliar se determinada compra pode esperar, mesmo quando isso significa abrir mão de algo que deseja.
“Nem sempre é fácil abrir mão de certas coisas e esperar mais um pouco para conseguir comprar sem causar prejuízo, mas faço o possível para ter em mente que, se eu realmente tivesse condições de comprar o item sem pesar na minha conta, não haveria a necessidade de grandes parcelamentos”, relata.
Antes de utilizar o cartão, Alice avalia a necessidade da compra e a possibilidade de pagá-la à vista.
“Eu sempre faço uma lista de prós e contras para pesar se realmente é uma compra que eu preciso em um momento de maior vulnerabilidade financeira, se é algo que eu consigo pagar à vista ou que eu posso me esforçar um pouco para pagar à vista em outro momento, ou até mesmo parcelar, sem que pese no bolso”, afirma.
Riscos
Para a economista, professora universitária e consultora empresarial Rita Pedrosa, o principal risco está no uso do parcelamento para despesas que se repetem todos os meses. Ao contrário de um bem durável, que continua sendo utilizado enquanto é pago, gastos como alimentação são consumidos rapidamente, mas deixam parcelas para os meses seguintes.
“Quando uma pessoa parcela compras de supermercado, alimentação ou outros gastos do cotidiano, no mês seguinte ela terá novamente essas mesmas despesas, mas ainda estará pagando as parcelas do mês anterior. Com o tempo, isso pode gerar um acúmulo de parcelas e reduzir cada vez mais a renda disponível da família”, explica.
Para Rita Pedrosa, o uso frequente do parcelamento em despesas recorrentes pode comprometer a renda e aumentar o risco de endividamento./Foto:Assessoria/Divulgação
O risco aumenta quando o consumidor olha apenas para o valor de cada parcela. “R$ 20, R$ 30 ou R$ 50 por mês” podem parecer pouco, mas, somados a outras compras, passam a ocupar uma parcela significativa do orçamento.
A facilidade de acesso ao crédito também exige atenção. Para Rita, o problema começa quando o consumidor deixa de enxergar o limite apenas como uma forma de pagamento e passa a utilizá-lo como complemento da renda.
“O salário acaba, mas ainda existem despesas básicas para pagar, e o cartão passa a cobrir essa diferença. [...] Ter limite no cartão não significa ter dinheiro a mais”, explica.
O cenário reforça o alerta. Dados do Banco Central mostram que, em dezembro de 2024, o comprometimento médio da renda com operações de crédito que envolviam juros chegou a 24,7% entre pessoas com renda inferior a 20 salários mínimos.
A recomendação é interromper a criação de novas parcelas, colocar todas as dívidas no papel e identificar quanto da renda já está comprometido.
“Não basta pensar apenas: ‘essa parcela cabe no meu bolso?’. É preciso perguntar também: ‘quanto do meu salário já está comprometido com todas as outras parcelas?’”, orienta a economista.
Crédito
O crescimento de novas modalidades de crédito também exige atenção. Para o economista Edgard Lima, recursos como Pix no crédito e parcelamento de contas podem dificultar a percepção sobre o volume total das dívidas, principalmente quando os compromissos ficam distribuídos entre diferentes instituições.
“O risco maior é a invisibilidade. O cartão tradicional já tem cultura de controle, o consumidor sabe que existe fatura. Já o Pix parcelado e o parcelamento de boletos criam múltiplas fontes de dívida fora desse radar, cada uma com prazo e instituição diferente”, explica.
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Segundo ele, uma das formas de evitar que essas dívidas se percam no orçamento é centralizar as informações.
“O cuidado essencial é anotar todas essas parcelas em um único lugar, com valor e data, porque a soma dispersa é o que realmente pega o consumidor de surpresa no fim do mês”, orienta.
Edgard também chama atenção para os parcelamentos anunciados como “sem juros”. Embora não haja cobrança explícita de juros, o custo pode estar incorporado ao preço do produto, além de existir um efeito comportamental sobre a percepção do consumidor.
“Sem juros não significa sem custo. O preço já embute esse parcelamento na precificação do produto. O problema real é comportamental: parcelas pequenas reduzem a percepção de gasto. Quem compra em 10 vezes de R$ 50 sente menos impacto do que pagando R$ 500 à vista”, afirma.
Para o economista, um dos critérios para avaliar se o parcelamento é saudável é observar se a compra realmente cabe no orçamento. Uma referência utilizada por especialistas é não comprometer mais de 30% da renda líquida com parcelas, considerando cartão, financiamentos e crediário.
“Se as parcelas já disputam espaço com o básico, o limite foi ultrapassado, independentemente da porcentagem teórica”, destaca.
O parcelamento, portanto, não é necessariamente um problema. O risco está em utilizá-lo para compensar a falta de dinheiro ou manter um padrão de consumo acima da capacidade financeira.
“Um sinal de alerta forte é usar parcelamento para pagar contas recorrentes, como mercado ou conta de luz. Isso indica que a renda mensal já não cobre o custo de vida mensal”, afirma.
Como último cuidado, Edgard recomenda que o consumidor volte a observar o valor total da compra, e não apenas o tamanho da parcela.
“Antes de fechar qualquer parcelamento, o consumidor deve se perguntar se pagaria aquele valor cheio à vista, hoje. Se a resposta for não, é sinal de que o consumo está sendo sustentado por crédito futuro, não pela renda real”, conclui.
Folha de Pernambuco