A democracia deveria ser sempre assim: quem ganha celebra e se prepara para governar; quem perde lambe as feridas e se prepara para o futuro. Você chega à Presidência depois de uma campanha em que as propostas de governo perderam espaço para antagonismos e promessas vagas.
Terão os candidatos trocado os costumeiros estelionatos eleitorais pela cômoda omissão de compromissos, aparentemente aceita pela sociedade? Soma-se a isso o elevado índice de rejeição que marcou tanto sua candidatura quanto a de seu adversário. O resultado das urnas encerra a disputa, mas não apaga a desconfiança de tantos brasileiros.
Ganhar fez de você o presidente eleito, um vencedor, mas não necessariamente um vitorioso. Para isso, será preciso moldar-se à cadeira presidencial, sem jamais se considerar maior ou menor do que a majestade do cargo que ela representa.
E isso vale tanto para quem chega ao primeiro quanto ao quarto mandato. A experiência pode ensinar muito, mas pode alimentar perigosas certezas.
O poder anestesia, e sentir-se demasiadamente à vontade na Presidência costuma ser o primeiro passo para acreditar que ela lhe pertence. A soberba faz o governante confundir privilégios com direitos.
Sirva ao Estado; não se sirva dele. São tantas as carências do nosso país, algumas tão antigas e conhecidas, que seria impossível enumerá-las.
Muitas atravessaram governos de diferentes orientações políticas, resistindo às promessas e às mudanças de poder. Limito-me, portanto, a algumas preocupações que considero essenciais para o futuro do Brasil.
Destaco a responsabilidade fiscal, a redução dos privilégios e a eficiência do Estado, que precisa recuperar sua autoridade sobre os territórios dominados pelo crime organizado. No cenário internacional, nossa diplomacia deve defender os interesses brasileiros, sem submissão a conveniências ideológicas ou complacência com regimes autoritários.
Nessas questões, espero menos discursos e mais compromisso com o país, acima das conveniências de governos, partidos e grupos de poder. Respeite as instituições, mesmo quando seus representantes ultrapassarem os limites de suas atribuições.
A Constituição de 1988 oferece instrumentos para resolver nossos conflitos, mas não precisamos de interpretações convenientes. Precisamos que ela seja cumprida, inclusive por quem tem o dever de aplicá-la.
Somos uma República presidencialista. Como chefe de Estado e de governo, respeite a independência dos Poderes, mas não abra mão de suas responsabilidades.
O Executivo não pode ser substituído por arranjos políticos que transformem o Orçamento público em instrumento de interesses particulares. Já tivemos escândalos suficientes para saber onde isso pode terminar.
Escolha bons assessores. Ouça os que discordam de você e afaste os aduladores e os correligionários radicais.
A agressividade, a arrogância e a incapacidade de reconhecer erros podem render votos, mas dificilmente produzem bons governos. Planeje os próximos quatro anos pensando nos próximos 30.
E, quando falar em nome do povo, lembre que ele não se resume à parcela que lhe deu a vitória, mas inclui também os que votaram no adversário e os que não encontraram razões para escolher nenhum dos dois. Poucas vezes tive tanta dificuldade em reconhecer, nos candidatos à Presidência, o preparo, a ética e os valores que considero indispensáveis ao exercício do cargo.
Mas as eleições terminaram, e acato a decisão da maioria com disciplina democrática, sem diminuir minha responsabilidade como cidadão nem meu direito de exigir que seu governo também me represente. Espero, sinceramente, que sua conduta e suas realizações me façam, ao final do mandato, reconhecer que minhas dúvidas eram infundadas.
Nada me daria mais alegria do que descobrir que estava errado. Parabéns, presidente.
Agora, seja vitorioso, pelo nosso bem! *Carlos de Almeida Baptista Junior é ex-comandante da Aeronáutica
O Globo