Para virar o jogo, precisamos entrar em campo

Para virar o jogo, precisamos entrar em campo - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

No domingo passado, vivemos uma das eleições mais disputadas desde a redemocratização. Antes mesmo de a poeira baixar, e enquanto o país já fazia contas e projeções para o segundo turno, outra coisa começou a circular com força pelas redes sociais.

“Tchau, queridas.” A frase aparecia acompanhada de fotos de mulheres que não foram eleitas ou reeleitas. Mulheres com trajetórias, propostas, partidos e visões de país diferentes.

Mas nada disso parecia importar. Não havia análise sobre seus mandatos.

Havia apenas o prazer da eliminação. E quando políticos de alto escalão também entram nesse jogo, precisamos prestar atenção.

Quando o argumento deixa de ser “discordo do que você propõe” e passa a ser simplesmente “tchau, querida”, o incômodo possivelmente não seja apenas com o que aquela mulher pensa. E sim com o fato de ela estar ali.

O Brasil conhece bem esse roteiro. Mulheres conquistaram o direito ao voto apenas em 1932.

Mulheres negras e indígenas precisaram enfrentar, e ainda enfrentam, outras tantas barreiras para ocupar espaços de poder. Cada cadeira, cada microfone, cada possibilidade de decidir os rumos do país foi conquistada a duras penas.

Por isso, quando vemos a alegria diante da retirada de algumas dessas mulheres, pensemos o quanto isso reflete uma sociedade declaradamente misógina. Outro ponto: mais de 30 milhões de brasileiras e brasileiros se abstiveram no primeiro turno.

É gente demais para tratarmos como nota de rodapé. Há muitas razões.

Há quem tenha enfrentado dificuldades para votar, quem tenha mudado de endereço. Mas há também algo talvez ainda mais perigoso: a desesperança.

E é aí que quero falar com você. Oi, querida.

Você que votou, converse com aquela querida ou com o querido que não foi. Pergunte o motivo.

Ajude esta pessoa a descobrir seu local de votação, a comparar propostas. Nós fazemos isso quando algo importa.

Quando nosso filho vai mal na escola, procuramos a professora. Quando recebemos uma avaliação ruim no trabalho, tentamos entender o ocorrido.

Por que seria diferente com a democracia? Existe um movimento em curso tentando nos fazer andar para trás.

Retrocessos não chegam anunciando: “Olá, sou um retrocesso”. Avançam aos poucos, normalizando violências.

Por isso, não basta lamentar. Precisamos nos convocar.

Convocar pessoas que estejam abertas ao diálogo para discutir igualdade salarial, antirracismo, maternidade, segurança, educação, saúde e bem viver. Convocar mulheres negras, indígenas, periféricas, de diferentes territórios e realidades para participarem das escolhas que atravessam suas próprias vidas.

Porque, se não estivermos lá para pautar o país com nosso letramento, alguém vai pautá-lo por nós. Se tentam transformar mulheres derrotadas nas urnas em troféus de uma guerra cultural, que nossa resposta não seja apenas indignação nas redes.

Que seja organização. Toda vez que dizem “tchau, querida” imaginando que estão nos eliminando, podem estar apenas nos lembrando de que precisamos voltar.

Mais atentas, numerosas e organizadas. Por isso te digo: “Oi, querida.

Ainda estamos aqui”. E nosso poder de convocação pode ser maior do que o desejo daqueles que querem nos ver fora do jogo.

Mas,

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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