Para Teresa, a pequena freguesa - QTU Questões do Universo

Para Teresa, a pequena freguesa

Fonte: Bandeira da fonte

Teresa, minha filha, faz 7 anos no sábado e esta coluna é um presente para ela, que já lê bem o bastante para descobrir que venho acusá-la de roubar meus bares e restaurantes.
Eu levo Teresa aos lugares da minha vida.
Ela vai transformando cada um deles em parte da dela.
O Bistrô Primitivo, em Copacabana, foi um dos primeiros a perder o nome.
O saca-rolhas enorme da logomarca forma um T no meio de Primitivo.
Bastou para a pequena decretar que aquele era o “T de Teresa”.
No Príncipe de Mônaco, também na vizinhança, os caranguejos expostos na calçada venceram décadas de história e até a homenagem à família real do principado para rebatizar a casa: “Restaurante do Caranguejo”.
A Raboni, hamburgueria da esquina, perdeu o próprio nome no dia em que uma bonequinha Polly Pocket caiu dentro de um pote e virou, para sempre, “Onde a Polly Pocket Mergulhou na Maionese”.
O Chon Kou, chinês na orla, é um dos seus preferidos.
Há uma escada na entrada e, junto dela, um corrimão mais baixo, vermelho.
Desde sempre Teresa chega empolgada porque aquilo é um raríssimo exemplar arquitetônico de um “corrimão de criança”.
Nunca tive coragem de investigar a informação.
Mesmo sendo pai jornalista, algumas verdades não precisam de apuração.
Ela também aprendeu cedo que frequentador assíduo tem direitos adquiridos.
No Bibi Sucos da Miguel Lemos, as garçonetes sabem que seu pedido é sempre crepe de frango com catupiry, salada caesar e suco de morango, mas sabem mais: sabem qual é o sofá de que ela gosta e, quando podem, guardam o lugar.
Serviam ali um macarrão infantil que Teresa pediu tantas vezes que um dia saiu do cardápio.
Desde então, conta, com certa galhardia, que comeu todo o estoque e o macarrão acabou para sempre.
Já no Caranguejo de verdade, na Xavier da Silveira, há uma banca de jornais em frente onde às vezes consigo conjurar uma nota de dois reais ou alguma moeda para comprar uma bolinha perereca, dessas pequenas e coloridas que quicam para todo lado, somem pela casa e saem de máquinas que só aceitam dinheiro vivo.
Tentei certa vez passar direto e ficar só no rissole de camarão.
Teresa me explicou que não podia.
— Já é tradição, papai.
Teresa, de 7 anos, no Caranguejo, em Copacabana
Thales Machado
A frase me pega porque tradição é uma dessas palavras que nós, adultos de bar, tratamos com uma solenidade danada.
Falamos de garçons que sabem o pedido, de balcões que não mudam, de cerimônias que se repetem há tanto tempo que ninguém mais lembra quem começou.
Teresa precisou de três ou quatro bolinhas de borracha para chegar ao mesmo conceito.
Aos 7 anos, é uma pequena freguesa.
Tem seus lugares, suas mesas, seus pedidos e seus personagens.
É fã de mate com limão e de “água de bolinha”, como chama a água com gás.
No “T de Teresa”, exige o nhoque à sorrentina.
No Chon Kou, a guioza de porco.
Cumprimenta quem conhece.
Reconhece quem a reconhece.
E parece entender, sem que ninguém tenha explicado, que um restaurante começa a ser realmente nosso quando alguma parte dele já não cabe no cardápio.
Eu achava que estava lhe apresentando a cidade.
Enquanto isso, Teresa fazia o trabalho silencioso de quem chega a uma casa alheia e espalha brinquedos pela sala.
Mudou os nomes, escolheu cantos, inventou histórias, estabeleceu seus próprios rituais.
Quando percebi, o Rio que era meu também tinha virado dela.
É uma das pequenas armadilhas deliciosas de ter filhos.
A gente passa anos levando-os pela mão para dentro da própria vida e, quando se dá conta, eles deixaram marcas próprias em tudo.
Já não consigo olhar o T do Primitivo sem pensar nela.
Não passo pelos caranguejos do Príncipe de Mônaco sem saber o verdadeiro nome daquele restaurante.
Há um corrimão no Chon Kou que será para sempre de criança.
E uma banca diante do Caranguejo onde, por lei e tradição, papai deve ter dois reais no bolso.
Teresa faz 7 anos.
Roubou alguns dos meus bares.
E fez pior: devolveu cada um deles de um jeito que nunca mais conseguirei frequentar sozinho.
Ainda bem.