Papa fala sobre nome da plataforma Truth Social, de Trump: 'É irônico, o nome do próprio site. Não digo mais nada'
A caminho da Argélia nesta segunda-feira, o Papa Leão XIV foi perguntado diretamente sobre as críticas que recebeu do presidente Donald Trump na Truth Social, rede social criada por ele em 2022, e o pontífice respondeu: “É irônico — o próprio nome da plataforma. Não preciso dizer mais nada.” Leão XIV também afirmou a jornalistas não ter medo do governo Trump, “nem de falar em voz alta a mensagem do Evangelho”.
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— Não tenho medo do governo Trump nem de proclamar em voz alta a mensagem do Evangelho, que acredito ser o que estou aqui para fazer, o que a Igreja está aqui para fazer — disse o Papa a jornalistas durante o voo.
Papa Leão XIV durante voo à Argélia
As declaração de Leão ocorreram após o presidente americano tecer críticas ao Pontífice em uma publicação ainda na madrugada desta segunda-feira.
— Leão deveria ser grato porque, como todos sabem, ele foi uma surpresa chocante — escreveu Trump. — Ele não estava em nenhuma lista para ser Papa e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano, e acharam que essa seria a melhor forma de lidar com o presidente Donald J. Trump. Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano.
Horas antes, no domingo, Trump disse a repórteres que não é um "grande fã" do Papa Leão XIV.
— Não sou um grande fã do Papa Leão. Ele é uma pessoa muito liberal e não acredita em acabar com o crime — disse Trump na Base Aérea Conjunta Andrews, em Maryland.
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Trump acusou o pontífice de "brincar com um país que quer uma arma nuclear", em referência ao Irã. O país, porém, sempre negou que seu programa atômico tenha outro objetivo que não o uso civil.
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O Papa, por outro lado, disse não ter intenção de engajar na disputa com Trump:
— Não quero entrar em um debate com ele — disse à Reuters ao cumprimentar jornalistas no avião.
'Contruindo pontes entre o mundo cristão e o mulçumano'
A Argélia recebeu nesta segunda-feira o Papa Leão XIV para uma visita histórica de grande simbolismo: nunca antes um pontífice havia viajado para este país muçulmano, a terra natal de Santo Agostinho. Leão XIV ficará dois dias na Argélia "para seguir construindo pontes entre o mundo cristão e o mundo muçulmano", disse à AFP o arcebispo de Argel, o cardeal Jean-Paul Vesco.
Leão XIV é o primeiro Papa a visitar a Argélia, um país muçulmano
Reprodução
Em Argel, o Papa foi recebido com honras e sob chuva pelo presidente Abdelmadjid Tebboune. Na capital argelina, diante do monumento aos mártires, que presta homenagem aos mortos da guerra de independência contra a França (1954-1962), Leão XIV fez um apelo ao "perdão".
Segundo o pontífice, a "paz, que permite enfrentar o futuro com o coração reconciliado, só é possível através do perdão". A viagem tem uma forte dimensão pessoal para o Papa, que caminhará sobre os passos de Santo Agostinho, um grande pensador cristão do século IV cujo legado espiritual inspira o seu pontificado.
Contexto bélico
Em um contexto internacional tenso pela guerra no Oriente Médio, a coexistência pacífica estará no centro da mensagem do Papa neste país de 47 milhões de habitantes, onde o Islã sunita é a religião oficial.
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No que pode ser um apoio ao Papa, a primeira-ministra da Itália, a política de extrema direita Giorgia Meloni, próxima de Trump, divulgou um comunicado em que deseja ao pontífice uma viagem frutífera.
— Que o ministério do Santo Padre favoreça a resolução dos conflitos — escreveu.
Durante a tarde de segunda-feira, Leão XIV visitará a Grande Mesquita, um complexo monumental com o maior minarete do mundo (267 metros), antes de seguir para a Basílica de Nossa Senhora da África, na baía de Argel. Durante uma celebração de caráter inter-religioso que reunirá cristãos e muçulmanos, o líder dos 1,4 bilhão de católicos fará um apelo à fraternidade neste país onde os católicos representam menos de 0,01% da população.
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A visita à Argélia marca o início da primeira grande viagem internacional do Papa de 70 anos, que também passará por Camarões, Angola e Guiné Equatorial, uma maratona de 18.000 quilômetros com uma agenda intensa de 13 a 23 de abril.
Cidade passa por reformas
Para receber o Papa, Argel passou por reformas, com muros pintados, estradas pavimentadas e áreas verdes. Não está prevista nenhuma cerimônia com a presença de uma multidão na capital e o famoso papamóvel permanecerá no aeroporto, segundo o site de notícias Casbah Tribune.
Nesta segunda-feira, Leão XIV também rezará de maneira privada na capela dos 19 "mártires da Argélia", padres e religiosos assassinados durante a década de guerra civil (1992-2002), símbolo do preço pago pelos religiosos comprometidos com o diálogo com o Islã. Mas não está programada uma visita ao mosteiro de Tibhirine, cujos monges foram sequestrados e assassinados em 1996, um episódio que nunca foi completamente esclarecido.
Na peregrinação mais pessoal, ele viajará na terça-feira a Annaba (leste), perto da fronteira com a Tunísia, a antiga Hipona, onde Santo Agostinho foi bispo. Em seu primeiro discurso como Papa, Leão XIV se apresentou como "um filho de Santo Agostinho", em referência à ordem que leva seu nome.
Antes de sua eleição para o Papado, Robert Francis Prevost visitou a Argélia duas vezes como dirigente dessa ordem, fundada no século XIII, inspirada na vida comunitária. Em Annaba, ele visitará o sítio arqueológico de Hipona, onde são conservados vestígios da cidade romana e cristã, e celebrará uma missa na basílica.
O Papa é "um irmão que vem visitar seus irmãos" neste país onde a comunidade cristã é pequena, embora esteja presente há muito tempo, destacou o monsenhor Vesco.
