Palestinos temem continuidade da violência após eleições em Israel; Abbas diz esperar ‘diálogo conjunto’

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, afirmou nesta quinta-feira esperar que a formação de um novo governo israelense permita a retomada das negociações de paz, paralisadas há anos. O resultado das eleições legislativas em Israel, realizadas na última terça-feira, porém, alimentou poucas expectativas entre os palestinos, que temem a continuidade das políticas do Estado judeu na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada, independentemente de quem assuma o comando do país.

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Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Com 99% das urnas apuradas, segundo a Comissão Eleitoral Central de Israel, o bloco do premier Benjamin Netanyahu conquistou 53 das 120 cadeiras do Parlamento israelense, ou Knesset, enquanto os partidos de oposição obtiveram, juntos, 67.

Os resultados oficiais serão divulgados na próxima quarta-feira, após análise adicional da integridade do processo eleitoral, amplamente questionado pelo primeiro-ministro. O resultado deixa o bloco de Netanyahu abaixo das 61 cadeiras necessárias para garantir a maioria parlamentar, enquanto os partidos de oposição precisarão chegar a um acordo para formar um governo capaz de substituí-lo.

Liderada pelo ex-chefe militar Gadi Eisenkot, a oposição também enfrenta dificuldades para construir uma coalizão, o que pode prolongar as negociações por semanas e manter a incerteza sobre o futuro político do país. Em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, devastada pela guerra entre Israel e o Hamas, a palestina Huda Al Huli, deslocada pelo conflito, afirmou temer que o resultado eleitoral provoque uma deterioração ainda maior das condições de vida no território.

— É imperativo que uma voz mais humana se levante dentro da sociedade israelense para exigir o fim desta guerra, qualquer que seja o resultado das eleições — disse. Entenda: O que significa a eleição de Israel para Gaza, Cisjordânia e o resto do mundo?

Na cidade de Ramallah, na Cisjordânia ocupada, Ahmed Awad, de 67 anos, também demonstrou ceticismo quanto à possibilidade de mudanças profundas na política israelense em relação aos palestinos. Para ele, o enraizamento da direita na sociedade israelense limita as perspectivas de uma transformação significativa, mesmo diante de uma eventual alternância de poder.

— Quaisquer que sejam os resultados das eleições, e mesmo que mudem os protagonistas, não creio que aconteça uma mudança radical ou espetacular nas políticas relacionadas com o conflito israelense-palestino — afirmou. As eleições foram as primeiras realizadas em Israel desde o ataque do Hamas contra o território israelense, em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza.

A votação ocorreu em meio à continuidade de ataques israelenses no território palestino, apesar do cessar-fogo estabelecido em outubro de 2025, e à intensificação da violência de colonos israelenses contra palestinos na Cisjordânia. Retomada do diálogo

Abbas, por sua vez, disse nesta quinta-feira ter esperança de que a formação de um novo governo israelense abra caminho para a retomada do diálogo. Durante um encontro com o presidente do Chipre, Nikos Christodoulides, em Nicósia, o líder palestino disse que, “há muitos anos”, estende “a mão ao lado israelense para alcançar a paz”, de modo que “Israel e Palestina possam viver em segurança,e estabilidade e paz”.

— Esperamos que, imediatamente após a formação de um novo governo israelense, possamos iniciar um diálogo conjunto — acrescentou. Conheça: Líder nas pesquisas, Gadi Eisenkot não poderia ser mais diferente de Netanyahu.

Será que ele consegue derrotá-lo? O processo de paz israelo-palestino está paralisado há anos, apesar do reconhecimento do Estado da Palestina por um número crescente de países.

Na Cisjordânia, ocupada por Israel desde 1967, a Autoridade Nacional Palestina, liderada por Abbas, exerce uma autonomia limitada. O território abriga cerca de três milhões de palestinos e mais de 500 mil israelenses que vivem em assentamentos considerados ilegais pelo direito internacional.

Sob o governo de Netanyahu, a construção de assentamentos e a violência contra palestinos aumentaram drasticamente na Cisjordânia. Ministros de sua coalizão de extrema direita defenderam abertamente a anexação do território por Israel, além de políticas destinadas a incentivar a saída de palestinos tanto da Cisjordânia quanto da Faixa de Gaza.

Perspectivas limitadas Com sua sobrevivência política em jogo, Netanyahu ainda enfrenta diferentes possibilidades para permanecer no poder, entre elas a renovação da aliança com a extrema direita ou a formação de uma coalizão mais ampla.

Outra possibilidade é a continuidade do impasse político, diante das dificuldades enfrentadas pelos diferentes blocos para alcançar uma maioria parlamentar. Caso a atual coalizão seja mantida, o ministro de extrema direita Itamar Ben Gvir já manifestou interesse em assumir o Ministério da Defesa, tendo como uma de suas prioridades a expulsão da população palestina da Faixa de Gaza.

Protagonista em Israel há 30 anos: Netanyahu vê em jogo nas eleições projeto de remodelar Oriente Médio à sua imagem Para Beth Oppenheim, pesquisadora do Conselho Europeu de Relações Exteriores, um governo liderado por Eisenkot, de centro-direita, poderia limitar a influência da extrema direita favorável à expansão dos assentamentos, facilitar o funcionamento da Autoridade Nacional Palestina e flexibilizar as posições israelenses em relação à ajuda humanitária e ao cessar-fogo em Gaza.

A especialista ressalta, no entanto, que não seria possível esperar “nada revolucionário” de uma eventual mudança de governo, tampouco “uma mudança de paradigma no que diz respeito à criação de um Estado palestino e ao processo de paz”. Segundo ela, essas questões permaneceram amplamente ausentes do debate político israelense, sobretudo desde o ataque do Hamas de 2023.

Por outro lado, a permanência de Netanyahu no poder significaria a continuidade das políticas atuais, particularmente a expansão dos assentamentos na Cisjordânia e a impunidade diante da violência praticada por colonos israelenses contra palestinos, acrescentou. Continuidade política

Yousef Munayyer, diretor do programa Palestina-Israel do Arab Center Washington, avalia que mesmo uma derrota de Netanyahu poderia agravar a situação dos palestinos no curto prazo. Para o analista, as preocupações manifestadas pela população palestina diante do resultado das eleições estão “plenamente justificadas”.

Eleições em Israel: Guia prático mostra como funciona sistema que definirá o futuro de Netanyahu Munayyer lembra que Eisenkot integrou o gabinete de guerra israelense durante a ofensiva militar em Gaza.

Na avaliação dele, um eventual governo alternativo, politicamente frágil e submetido a ataques de Netanyahu pela direita, poderia tentar demonstrar firmeza por meio da adoção de políticas ainda mais agressivas em relação aos palestinos. Na Cisjordânia, a violência também poderia se intensificar caso a extrema direita deixe o governo, diante da possibilidade de colonos israelenses desafiarem o novo Executivo.

O cenário reforça as preocupações sobre a continuidade dos confrontos e das políticas de ocupação, independentemente do resultado das negociações para a formação de uma coalizão. Em Gaza, Adnan al Asar resumiu a descrença de parte da população:

— Todos atuam seguindo uma mesma política, voltada contra o povo palestino.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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