‘Os Safra’ detalha os bastidores da construção do império financeiro iniciado há 150 anos pela dinastia familiar

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Fonte da notícia: Valor Valor

Joseph, esq., e Edmond Safra durante evento em Nova York em 1981 Arquivo / Agência O Globo Em maio de 1988, Joseph e Moise Safra, donos do Banco Safra, já então uma instituição financeira de médio para grande porte, fizeram, numa sexta-feira à tarde, depósitos em cadernetas de poupança da Caixa Econômica Federal e do Banco Nacional de Crédito (que não existe mais). Um lance surpreendente — dois banqueiros apostando na poupança, opção de investimento em geral pouco atrativa? E o valor era altíssimo. A informação provocou celeuma na imprensa e entre bancos. Mas a explicação, revelada depois de muita controvérsia, era relativamente simples. Naquele mês, valia mais aplicar na poupança do que nas operações do mercado financeiro por causa de uma regra da caderneta que previa rendimento baseado na inflação do mês anterior. Pois algo raríssimo naquela época ocorreria em maio: a inflação seria menor que a do mês anterior. A “jogada de mestre” foi pensada por Joseph Safra, ou José, como era conhecido, um dos três irmãos da família que fundou e comandou bancos com um histórico de muito mais sucessos — alguns espetaculares — do que fracassos. E é uma das histórias interessantes contadas por Robson Viturino no livro “Os Safra”, que a Companhia das Letras lança neste mês. Aliás, o subtítulo da obra, “Uma história”, pode ser interpretado como uma ironia, porque, claro, são muitas as histórias narradas no volume de 456 páginas. O livro conta a história da família por várias gerações, mas o centro das atenções é ocupado por Edmond, José e Moise, os três já falecidos. Os três, assim como seus antepassados, mantiveram a vida toda um perfil muitíssimo discreto, poucas vezes falaram com jornalistas. Por isso, o livro é precioso por entrar na intimidade dos três irmãos e contar como eram seus estilos na vida pessoal e na condução dos bancos, no relacionamento com familiares e amigos, nas obras de benemerência.

Em resposta a perguntas encaminhas pelo Valor por e-mail, Viturino contou que convencer as pessoas a falar com ele foi um desafio. “Houve fontes que só aceitaram me receber depois que eu fiz um último movimento um tanto radical para os nossos tempos: enviar uma carta impressa falando do meu projeto do livro.” Além de relatar como os irmãos construíram as casas bancárias em mercados diferentes entre si, Viturino não se furtou em contar também as divergências entre os Safra, inclusive o rompimento entre dois dos filhos de José, que resultaram na criação de um banco por um deles (Alberto), que concorreu com o banco da família por alguns anos até a pacificação entre eles.

O escritor trata sem meias palavras o desprezo com que José e Moise tratavam Lily, a socialite que se casou com Edmond quando ele era quarentão. A hostilidade entre eles era tão grande, que no enterro de Edmond, no cemitério de Veyrier, José e Moise “tiveram que abrir caminho às cotoveladas no cortejo para poder carregar o caixão do irmão”. Como na vida, grande destaque é dedicado, no livro, a Edmond, o mais velho entre eles e o que decidiu construir sua vida fora do Brasil ainda na década de 1960, após anos morando em São Paulo. Muito admirado por outros banqueiros, alguns dos quais se tornaram próximos dele, Edmond é considerado raridade por ter participado da administração ou fundado bancos em três continentes. Sua vida foi repleta de lances que lembram o roteiro de um filme de aventuras, com reviravoltas da sorte.

Mas há muito espaço também para Viturino mostrar, às vezes lance por lance, histórias protagonizadas principalmente por José. Moise era o mais tímido dos três irmãos, mas o perfil traçado é igualmente interessante.

Minuciosamente investigado, com dezenas e dezenas de citações a material jornalístico e a livros, “Os Safra” foi escrito de forma um tanto heterodoxa, com capítulos se alternando entre o passado da família e acontecimentos recentes. Isso pode desagradar ao leitor mais interessado em conhecer pormenores do passado recente de como a família enriqueceu e se tornou uma das mais respeitadas entre banqueiros globais. Mas certamente vai contentar quem quer tomar conhecimento das circunstâncias em que viveram os Safra nos últimos 150 anos. Nos trechos dedicados a recontar a história mais remota dos Safra, Viturino procura contextualizar a época e a região onde a família estava naquela fase. Há, por exemplo, narrativas detalhadas sobre a cidade de Alepo (hoje pertencente à Síria), onde os Safra viviam em meados do século XIX, já atuando como espécie de banqueiros, em especial como operadores de câmbio. A narrativa não apenas descreve a geografia de Alepo e sua história, mas se detém no ambiente de negócios numa cidade em que conviviam árabes, judeus, cristãos. A convivência relativamente pacífica entre esses grupos foi sempre um fator importante nas decisões da família quanto a onde se estabelecer. Isso pesou, por exemplo, na escolha do Brasil, para onde os Safra se mudaram na década de 1950, insatisfeitos com o clima de negócios e de convivência social em outras partes do mundo. Depois da Síria, eles experimentaram morar em diferentes cidades até se decidirem pelo Brasil, primeiramente Rio de Janeiro, mas logo em seguida São Paulo. Viturino começou a pensar em escrever o livro em 2010, quando esteve em Israel e foi surpreendido pela existência de uma praça Safra em Jerusalém. Desde então, passou a pesquisar documentos, material jornalístico e livros (como as memórias do presidente Fernando Henrique Cardoso, autodeclarado amigo de José) e a realizar dezenas de entrevistas de pessoas próximas dos Safra, seus concorrentes e outras figuras de destaque na vida pública do Brasil e de outros países.

Nem todos os casos, alguns hilários, outros dramáticos (como o detalhamento do incêndio que resultou na morte de Edmond, em Monte Carlo) são inéditos. A própria história da aplicação em caderneta de poupança havia sido contada por jornalistas da Gazeta Mercantil, como aliás Viturino dá crédito. Nos agradecimentos, ele cita que, apesar da concorrência entre jornalistas na busca por informações, contou com a ajuda generosa de muitos deles.

Além de jornalista, Viturino é psicanalista, combinação de carreiras não muito comum. Ao ser perguntado se sua formação e trabalho como psicanalista interferem no papel de escritor, ele respondeu que “são atividades distintas, porém não raras vezes se cruzam pelo que têm em comum na carpintaria com a palavra e na abertura para encarar os conflitos humanos (os grandes e os pequenos)”. A influência da psicanálise transparece na maneira como trata os perfis dos principais personagens. O volume escrito por Vitorino não é o primeiro sobre a família. Em 2022, o jornalista americano Daniel Gross lançou “A jornada de um banqueiro – Edmond J Safra”, traduzido e lançado no Brasil em julho de 2023 pelo selo Best Business. O livro de Viturino é muito mais completo e analítico e abrange as histórias da família, especialmente dos irmãos, diferentemente da obra de Gross, que se concentrou na carreira pessoal e profissional de Edmond.

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