Às vésperas do início da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinou um manifesto conjunto com outras autoridades internacionais em defesa do multilateralismo. O manifesto foi publicado no Financial Times neste domingo e é assinado pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa; pelo presidente do Quênia, William Ruto; e pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Salão da Assembleia Geral da ONU Ricardo Stuckert / PR O manifesto foi publicado no Financial Times neste domingo e é assinado pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa; pelo presidente do Quênia, William Ruto; e pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Ao descrever os principais desafios enfrentados atualmente pela humanidade — mudanças climáticas, pandemias, choques financeiros, conflitos armados e o rápido avanço da inteligência artificial —, os signatários do P4M propõem criar uma estrutura flexível e aberta para que países de diferentes regiões formem coalizões em favor de reformas e transformem princípios compartilhados em ações concretas. “A P4M apoiará a reforma da ONU e de outras instituições multilaterais para torná-las mais representativas, legítimas, eficazes e confiáveis. A iniciativa busca fortalecer a cooperação entre organizações regionais, contribuir para a paz e a segurança, aprimorar a governança econômica global e desenvolver abordagens comuns para desafios emergentes, da inteligência artificial e das mudanças climáticas à segurança sanitária e à transformação digital”, aponta o texto. Segundo interlocutores do governo brasileiro, a ideia do P4M é evitar o desmonte do multilateralismo, que estaria sob forte pressão de forças contrárias ao atual sistema. A iniciativa terá um evento nesta segunda-feira (21), em Nova York, embora ainda não esteja confirmada a participação de Lula. No governo, também é considerada importante a presença do presidente do Quênia, William Ruto, entre os autores do artigo, por incluir uma liderança africana na articulação. A iniciativa é lançada às vésperas da abertura do debate geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. O artigo assinado pelos quatro líderes será publicado nesta segunda-feira (21) em jornais de diferentes países. Na terça-feira (22), Lula fará o tradicional discurso de abertura do debate, seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em sua fala, o presidente brasileiro deverá ressaltar a importância do multilateralismo e da cooperação internacional. A ONU enfrenta a maior crise de sua história, sem conseguir encontrar soluções para uma série de conflitos, em meio a restrições financeiras e sem sinal de acordo no Conselho de Segurança para a escolha do novo secretário-geral da instituição, a três meses do fim do mandato do português António Guterres. Confira o texto na íntegra: Luiz Inácio Lula da Silva, António Costa, William Ruto e Mark Carney Enquanto líderes mundiais se dirigem a Nova York nesta semana para a Assembleia Geral da ONU, deparamo-nos com um paradoxo. A comunidade global está mais interdependente do que nunca, ao mesmo tempo que se torna mais fragmentada e polarizada. Nossas economias estão profundamente interligadas. A tecnologia conecta bilhões de pessoas através das fronteiras, enquanto capitais, bens, dados e ideias circulam em velocidades que seriam inimagináveis quando a ONU foi fundada, em 1945. O comércio global atingiu o recorde de US$ 35 trilhões no ano passado, e 6 bilhões de pessoas — quase três quartos da humanidade — estão conectadas à internet. A geopolítica, porém, caminha na direção oposta. Em 2025, foram registrados 65 conflitos armados envolvendo Estados em 35 países, o maior número desde 1946, enquanto os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões. O direito internacional está sob pressão. A linguagem das esferas de influência e da política de poder está de volta. Os vínculos econômicos são cada vez mais usados como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade cresce tanto dentro dos países quanto entre eles. Alguns podem concluir, portanto, que o sistema multilateral fracassou. Em parte, essa crítica é compreensível. Um sistema multilateral que não reflita as realidades atuais não sobreviverá ao teste do tempo. A necessidade de cooperação multilateral, no entanto, continua muito viva. O mundo do pós-guerra ficou para trás há muito tempo, mas a lógica que justificou a cooperação multilateral está mais evidente do que nunca. A emergência climática supera até mesmo as previsões mais alarmantes. A inteligência artificial avança mais rapidamente do que nossa capacidade de controlá-la. Pandemias podem atravessar continentes em poucas semanas, enquanto choques financeiros podem desorganizar os mercados em questão de horas. Conflitos armados podem desestabilizar regiões inteiras e obrigar milhões de pessoas a deixar suas casas. Pontos de estrangulamento marítimo globais, como o Estreito de Ormuz, quando afetados por conflitos, podem paralisar cadeias de suprimentos em todo o mundo. Nenhum país, por mais poderoso que seja, consegue enfrentar esses desafios sozinho. A cooperação, portanto, não é um ato de idealismo, mas uma necessidade prática. A questão não é se o multilateralismo pode sobreviver, e sim como ele deve evoluir para responder às realidades do nosso tempo. Nesse contexto, estamos nos unindo em torno de uma nova iniciativa: a “Partners for Multilateralism” (“Parceiros pelo Multilateralismo”). A P4M não busca criar outro bloco exclusivo nem mais uma burocracia internacional. Seu objetivo é o oposto: estabelecer uma estrutura flexível e aberta para países de diferentes regiões e tradições políticas dispostos a superar divisões, formar coalizões em favor de reformas e transformar princípios compartilhados em ações concretas. A P4M apoiará a reforma da ONU e de outras instituições multilaterais para torná-las mais representativas, legítimas, eficazes e confiáveis. A iniciativa busca fortalecer a cooperação entre organizações regionais, contribuir para a paz e a segurança, aprimorar a governança econômica global e desenvolver abordagens comuns para desafios emergentes, da inteligência artificial e das mudanças climáticas à segurança sanitária e à transformação digital. A P4M procurará renovar e fortalecer o sistema multilateral, e não substituí-lo; construir pontes e aproximar países que podem discordar sobre muitas questões, mas compartilham o compromisso com os princípios fundamentais consagrados na Carta das Nações Unidas. São princípios inegociáveis, como a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, a proibição da ameaça ou do uso da força, o direito internacional humanitário, o desenvolvimento sustentável, os direitos humanos e as liberdades fundamentais. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou recentemente que “as superpotências estão descobrindo seus limites”. Acreditamos que a comunidade internacional precisa redescobrir o extraordinário potencial da ação coletiva. A competição não precisa transformar-se em confronto se criarmos canais de diálogo e cooperação. A soberania é fortalecida, e não reduzida, quando os países trabalham juntos para enfrentar desafios comuns. Muitas vezes, a melhor maneira de promover os interesses nacionais diante desses desafios é por meio da ação coletiva. A verdadeira escolha não é entre preservar a ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial ou abandoná-la. É entre renovar a cooperação multilateral em um mundo em transformação ou permitir que a polarização e a política de poder definam a próxima era. Diante de uma ordem mundial que se transforma rapidamente, conclamamos outros líderes internacionais a se juntarem a nós na escolha da cooperação em vez da fragmentação, do direito em vez da força e da responsabilidade compartilhada em vez da divisão.
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Brasil, UE, Canadá e Quênia lançam iniciativa pelo multilateralismo às vésperas de Assembleia Geral da ONU
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