Três anos depois da descoberta da fraude contábil de R$ 20 bilhões que abalou o País, a Americanas conseguiu sair viva de seu inevitável processo de recuperação judicial. A 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro decretou na segunda-feira o fim da RJ, a pedido da companhia. A ação da Americanas disparou 15,58% ontem, fechando o dia em R$ 6,90. O market cap da companhia agora é de R$ 1,4 bilhão. O CEO Fernando Soares disse ao Brazil Journal que a Americanas que saiu do outro lado é uma nova companhia: abriu mão de sua gigantesca operação digital – que chegou a responder por mais de 50% da receita – para concentrar-se no varejo físico, que hoje é 95% das vendas.
“É uma companhia nova, que está usando dois ativos que são únicos: 50 milhões de clientes mensais e um parque de lojas físicas com capilaridade gigantesca,” disse o CEO. “Nossa nova proposta de valor é entregar a experiência de marca na loja, a alegria do cliente de pegar o produto e ver as novidades.” A Americanas tem 1.448 lojas em mais de 800 municípios de todos os estados. Soares considera que o ajuste operacional foi feito e tem a expectativa de acelerar o crescimento daqui para a frente. “A grande mudança deverá ser em tecnologia de loja e sortimento,” disse. Os 50 milhões de consumidores que frequentam as lojas todo ano não eram identificados até recentemente. Agora, a empresa passou a cadastrá-los para saber quando vão às lojas e o que compram, e utiliza os dados para maximizar os negócios. Além disso, a Americanas voltou a emitir cartão de crédito, retomou seu programa de fidelidade e reconstruiu sua oferta de produtos, ouvindo os consumidores. O sortimento passou a ser dividido em cinco frentes: guloseimas, onde a Americanas é líder; cuidados com a casa, cuidados pessoais, brinquedos e moda conforto. Em média, cada loja conta com 14 mil SKUs, com cada vez mais curadoria e novidades, segundo o CEO. “Por exemplo, identificamos que o consumidor quer maquiagem em ‘cuidados pessoais’, estamos testando a venda desses produtos numa loja no Rio. No Recife, estamos introduzindo nutrição esportiva,” disse o CEO. “Tem muita mudança acontecendo a pedido do consumidor e com a nossa curadoria, para continuarmos crescendo em frequência, tíquete médio e conversão.” A Americanas não abandonou a operação digital, que foi remontada a partir das lojas físicas – no modelo de usar os estoques para atender o consumidor, que agora pode retirar o produto na loja. Soares diz que, na Páscoa, esse canal chegou a representar 10% das vendas; e na Copa, alcançou 20%. A Americanas ainda dá prejuízo e consome caixa, mas as vendas por metro quadrado e o resultado operacional vêm evoluindo: em 2024, a companhia perdeu quase R$ 1,5 bilhão em resultado operacional; em 2025, foram R$ 700 milhões; e no primeiro semestre deste ano, perto de R$ 300 milhões. Quando a companhia decidiu deixar de focar no e-commerce, mais da metade das unidades físicas dava prejuízo; hoje todas estão no azul, após ajustes que incluíram mudanças de pontos e redução de tamanho de lojas. Agora, a saída da recuperação judicial deverá liberar a companhia para mais negócios, disse Soares. “Temos entregado crescimentos expressivos em algumas categorias, como limpeza (70%) e bebidas (50%), além de linhas de importação. Mas esse crescimento acabava sendo limitado por alguns parceiros, que diziam que enquanto estivéssemos em RJ não poderiam aumentar o limite de crédito”, disse Soares. “Vai ser bem interessante, nos próximos meses, ver até onde podemos chegar sem essas travas.” O CFO Sebastien Durchon disse que, antes mesmo da RJ, a empresa já via sinais de melhora na maneira como os parceiros a enxergavam: conseguiu aumentar prazos de pagamentos com vários fornecedores e emitiu uma nota comercial de R$ 100 milhões em julho do ano passado. Não há planos de acessar o mercado no curto prazo. “A confiança de terceiros que foi destruída com uma fraude não se recupera da noite para o dia, mas estamos trabalhando com muita humildade e paciência para resgatar isso,” disse Durchon. Na semana passada, a Justiça Federal do Rio aceitou denúncia do Ministério Público Federal e tornou réus 12 ex-executivos da Americanas no caso da fraude bilionária que levou a empresa à RJ. Fabio Medeiros, o vp jurídico da Americanas, disse que a decisão é uma vitória para a companhia. “O aceite da denúncia significa que há elementos que demonstram que eles cometeram crimes de manipulação de mercado, falsidade ideológica e associação criminosa. Existem outros processos em andamento. Na prática, isso nos ajuda em arbitragens contra a companhia e nos fortalece em ação de responsabilidade dos administradores e em medidas que podem ser tomadas no Brasil e no exterior para reparação e bloqueio de bens,” disse.
Brazil Journal